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Sem agenda positiva, ONGs ambientais podem agravar pobreza, diz pesquisador

Diogo Schelp

14/12/2019 04h06

Amazônia

Área desmatada na Amazônia (Foto: Arquivo/AFP)

Representantes de dez governos estaduais de países que têm parte de seu território na região amazônica se reuniram esta semana em Madri, na Espanha, às margens da COP-25, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, para fundar o programa Campeões da Floresta Tropical. 

Idealizada pelo Earth Innovation Institute (EII), um instituto sem fins lucrativos de pesquisa e ação na área ambiental com sede em São Francisco, nos Estados Unidos, a iniciativa consiste em juntar esforços para concretizar parcerias que permitam a empresas investir na Amazônia e em outras florestas tropicais ao redor do mundo sem correr o risco de serem acusadas de estarem contribuindo para a devastação ambiental, mas ao contrário, efetivamente ajudando no desenvolvimento sustentável dessas regiões.

A delegação brasileira foi composta por representantes do Acre, do Mato Grosso e do Tocantins, que assinaram a adesão ao programa.

Por trás da iniciativa Campeões da Floresta Tropical está o cientista Daniel Nepstad, diretor executivo do EII.

O americano Nepstad conhece o bioma amazônico como poucos. Ele morou em três lugares diferentes da Amazônia durante doze anos e foi um dos fundadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), uma organização científica sem fins lucrativos com sede em Belém, no Pará.

Os artigos científicos de Nepstad estão entre os mais citados do mundo na área de ecologia, segundo os principais rankings de relevância acadêmica.

A vivência amazônica deu a Nepstad uma visão completa do desafio de se conservar o bioma sem privar os habitantes da região dos benefícios de atividades econômicas que tragam desenvolvimento e qualidade de vida. "Existem 500 empresas que assumiram o compromisso do desmatamento zero, mas apenas cinco parcerias com as jurisdições (governos locais)", observou Nepstad na abertura de uma das reuniões para fundação da iniciativa Campeões da Floresta Tropical, em Madri, na segunda-feira (9).

Ou seja, o compromisso com o desmatamento zero não está sendo revertido em colaborações e programas de desenvolvimento sustentável para a região, algo que, segundo Nepstad, também ocorrer em outros continentes. A seguir, os principais trechos da entrevista que Nepstad concedeu a este blog.

Agenda negativa

Nepstad diz que a questão do desmatamento tem sido uma agenda negativa de muitas organizações não governamentais (ONGs) como Greenpeace e Mighty Earth. "Trata-se de uma agenda de exclusão de mercado, de exclusão de financiamento."

Ele dá como exemplo o compromisso assumido por grandes empresas de não se engajar em atividades econômicas que, mesmo indiretamente, levem ao desmatamento. "Centenas de empresas assumiram esse compromisso motivadas pelos ataques de ONGs contra a sua reputação. Por exemplo, se a Cargill compra soja produzida na Amazônia ou se uma rede de supermercados vende produtos feitos com soja da Amazônia, o Greenpeace vai atrás dessas lojas no exterior ou da Cargill em Santarém, no Pará, e faz protestos midiáticos para causar danos de reputação e dizer para o mundo que essas empresas causam desmatamento."

É também o que ocorre quando uma empresa entra na lista negra de organizações como ChainReaction, ligada ao Climate Advisors, que investiga as cadeias produtivas para identificar quais companhias podem estar contribuindo direta ou indiretamente para o desmatamento.

Isso faz com que as empresas desistam de fazer qualquer tipo de investimento em áreas sensíveis, mesmo que em empreendimentos com potencial para ajudar a preservar a floresta.

Nepstad dá um exemplo concreto ocorrido na Indonésia. "Nosso instituto tem uma parceria com a Unilever, na Indonésia. A empresa estava pronta para fazer um investimento na ilha de Bornéu, em colaboração com o governo local. Tratava-se de um governo progressista que queria estimular a agricultura familiar e a produção de óleo de palma de forma sustentável. Ocorre que a Unilever ficou sabendo que a refinaria que processava o óleo de palma estava na mira do Greenpeace. A ONG afirmava que a empresa proprietária da refinaria não era rigorosa com a cadeia produtiva, ou seja, não cuidava para comprar matéria-prima apenas de fornecedores que respeitavam o princípio do desmatamento zero. Com esse imbróglio, a Unilever recuou, com medo de se tornar alvo também. Ou seja, a região perdeu um investimento importante em desenvolvimento sustentável."

O pesquisador americano revela, com isso, uma contradição na forma de atuação de muitas ONGs ambientais. "Episódios como esse mostram o potencial da agenda ambiental de desmatamento de piorar, de agravar a pobreza", diz Nepstad.

Ele concorda que a pressão das ONGs tem o efeito de forçar os fornecedores a adotar práticas mais sustentáveis, mas alerta para a necessidade de se ter também uma agenda positiva, de estímulo a investimentos.

Campeões da Floresta

"Do outro lado, tem que haver uma maneira de dizer que em determinado lugar é seguro investir sem sofrer ataques de Greenpeace, Mighty Earth ou outras ONGs", diz Nepstad.

Essa é a ideia central do programa Campeões da Floresta. Explica Nepstad: "No curto prazo, o que fizemos aqui em Madri é pactuar as regras entre os governos 'campeões', dizendo quais são as regras, os avanços que podem ser feitos na questão do desmatamento, da conservação florestal, da parceria com grupos indígenas, etc. Em troca, eles querem que essas iniciativas sejam reconhecidas pelo Greenpeace, para poder dizer para empresas e potenciais parceiros que podem trabalhar em seus estados tranquilamente, porque não vão ser alvo de protestos."

Dessa forma, Nepstad acredita que a agenda ambiental negativa pode se tornar uma agenda ambiental positiva. "Essa iniciativa responde à falta de parcerias dos governos que precisam lidar com a questão do desmatamento. Eles precisam de compradores de produtos, de investidores e de assistência técnica. Para isso, necessitam de mecanismos que mostrem as coisas boas que estão acontecendo in loco. A ideia é destacar as coisas mais positivas, ver onde existem oportunidades de investimento."

Adesão das ONGs

Nepstad está agora empenhado em apresentar o projeto ao Greenpeace e a outras ONGs ambientais. "Eles sabem que precisam desse outro lado, mas sinto que vão ser muito exigentes", diz Nepstad. "Eles não vão aceitar que quaisquer ações e investimentos na Amazônia em parceria com governos fiquem livres de ataques, em parte por que isso tira deles uma ferramenta que ajuda a sustentar o seu modelo financeiro."

Os governos da região amazônica querem reconhecimento dos passos substanciais, incrementais, que já adotaram e pretendem adotar para melhorar o desenvolvimento sustentável em suas regiões. "Falta descobrir o que as ONGs querem."

Tripé de um campeão

Nepstad explica que, para ser um "campeão da floresta", é preciso cumprir um tripé composto por compromisso, ação e resultado. "Assumido o compromisso, começa um período de tempo para adotar determinadas ações — por exemplo, a adoção de um plano de apoio a grupos indígenas. Após um certo prazo, precisam aparecer os primeiros resultados. E, uma vez que se atinge esses resultados, é preciso ir melhorando com o tempo", diz Nepstad.

"Atualmente, no debate ambiental, há um sistema binário: você é bom ou você é ruim; você é sustentável ou não. É preciso buscar outro enfoque, mais gradual. O que a gente quer são melhorias substanciais ao longo do tempo, com redução do desmatamento, recuperação de áreas degradadas, etc. Isso não se faz de um dia para o outro", afirma Nepstad.

Parcerias nacionais

A iniciativa Campeões da Floresta Tropical começou a ser implementada em maio, na Colômbia. A Indonésia, segundo Nepstad, deve aderir nos próximos três meses.

No Brasil, o programa por enquanto está restrito a parcerias em nível estadual. "Eu mencionei a ideia para o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e para a ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Mas as discussões são mais intensas com os governos estaduais e com as empresas", revela Nepstad.

"Já apresentamos a ideia para todos os nove estados da Amazônia. Todos estão interessados e, até agora, três formalizaram esse interesse: Acre, Mato Grosso e Tocantins", diz o diretor executivo do EII.

Ele diz que diversas empresas têm boas iniciativas de desenvolvimento sustentável, mas as ONGs só querem saber dos exemplos negativos. "As empresas estão muito preocupadas em reduzir os custos e manter uma boa imagem, defendendo sua marca. Isso vale principalmente para aquelas que estão mais expostas aos consumidores e que têm produtos nos supermercados. Essas empresas são também as que têm uma margem de lucro maior, mais flexibilidade de investir. Essas empresas querem ajuda para divulgar as coisas boas que elas fazem. Essa vai ser a próxima etapa."

Verificação

O modelo de verificação do programa ainda está sendo elaborado nas conversas com os participantes. Um caminho é divulgar os dados através do site do programa, "onde se pode ver o desempenho florestal, as emissões de carbono, as áreas indígenas, mas também a produção de cada estado". A ideia, diz Nesptad, "não é só focar nos dados de desmatamento, mas também na produção, em inovações, em empreendimentos que precisam de investimentos e em novas parcerias que estão acontecendo".

Em vez de selo ou uma certificação, uma possibilidade é deixar que todo mundo possa ver e avaliar o desempenho dos chamados "campeões da floresta", a exemplo do que ocorre nos sites e aplicativos de avaliação de hotéis e restaurantes.

"A questão da avaliação e do monitoramento é muito interessante e ainda não está fechada", diz Nepstad.

Boicote

No auge da crise de imagem do governo brasileiro provocada pelo aumento das queimadas na Amazônia, um grupo empresarial que produz as marcas de roupas e calçados Timberland, Dickies, Kipling, Vans, Kodiak, Terra, Walls, Workrite, Eagle Creek, Eastpack, JanSport, The North Face, Napapijri, Bulwark, Altra, Icebreaker, Smartwoll e Horace Small anunciou a suspensão da compra de couro brasileiro

Nepstad questiona a eficácia desse tipo de boicote: "Quem sofre quando você exclui um mercado de um produto são aqueles produtores sustentáveis que dependem da sua compra. Esses são os mais prejudicados, porque o produto deles vai ter de ser vendido em mercados que não exigem sustentabilidade."

"Em vez de dizer que não vai comprar de determinado país, o melhor que uma empresa pode fazer é dizer que vai ter apenas fornecedores sustentáveis", diz Nepstad. Isso estimula quem atua dentro das regras ambientais e incentiva quem está fora delas a se enquadrar.

Se tudo der certo

Segundo Nepstad, "é um risco grande deixar lugares como a Amazônia sem investimento". Para muitas empresas e investidores, a solução mais simples é evitar a região, é evitar colocar dinheiro lá.

"A ideia, com a nossa iniciativa, é poder dizer: pode investir aqui, é seguro. Em um primeiro momento, haverá menos risco de as empresas ou os fundos serem atacados por ONGs ambientais. Em um segundo momento, a região vai ser melhor para os negócios, vai ser mais eficiente."

"O Brasil vai ser melhor", acredita Daniel Nepstad.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.