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Diogo Schelp

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'Gastei R$ 800 mil para transformar meu duplex em dois imóveis', diz Salles

Diogo Schelp

19/08/2019 14h49

Ricardo Salles

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse nesta segunda-feira (19) a este blog que o aumento do seu patrimônio pessoal se deve principalmente à reforma e ao desmembramento de seu único imóvel, que ele comprou em 2015.

A evolução patrimonial de Salles, que cresceu 335% entre 2012 e 2017, é tema de inquérito aberto no mês passado pelo Ministério Público de São Paulo.

A investigação foi iniciada a partir de uma representação feita pela empresa Sppatrim Administração e Participações, pertencente à família do empresário Luiz Eduardo Bottura. "O autor dessa representação é o maior litigante do Brasil", diz Ricardo Salles. Segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, Bottura é parte de 151 processos no Tribunal de Justiça de São Paulo, na maioria deles como autor.

Salles — que foi secretário particular do governador e secretário do Meio Ambiente na gestão de Geraldo Alckmin (PSDB), com salários que não passavam de R$ 18,4 mil mensais — defende-se da acusação de enriquecimento ilícito com três argumentos.

Primeiro, lembra que não foi funcionário público durante todo o período em questão. Segundo, porque, conforme ele afirma, a maior parte da evolução do seu patrimônio foi obtida com a compra de um apartamento duplex que ele reformou e desmembrou em dois. Terceiro, porque a investigação baseia-se nos dados sobre seu patrimônio que ele próprio declarou à Justiça Eleitoral quando se candidatou a vereador, em 2012, e a deputado federal, em 2018.

Nesse período, o valor dos bens declarados passou de R$ 1,4 milhões para R$ 8,8 milhões.

"Eu entrei no governo em 2013. Em 2012, portanto, eu ainda era advogado. Saí do governo em dezembro de 2014. Voltei a advogar em janeiro de 2015 e permaneci na atividade até julho de 2016 — durante um ano e meio, portanto. Eu só voltei a ser secretário entre julho de 2016 e agosto de 2017. Ou seja, eu voltei para a advocacia em 2017 ainda em setembro. E advoguei até virar ministro, em janeiro deste ano", diz Salles.

"Eu fui muito mais advogado durante esses anos do que funcionário público. A denúncia, portanto, além de vir de alguém que é suspeito, parte de uma premissa equivocada. O promotor poderia facilmente ter verificado. É só olhar as datas no Diário Oficial", diz o ministro.

Duplex "superantigo"

Mas a principal explicação para o salto patrimonial, segundo Ricardo Salles, foi uma vantajosa compra de imóvel que ele fez em 2015, três anos depois da primeira declaração de bens na Justiça Eleitoral, portanto, e em um período em que ele atuava como advogado.

"Trata-se de um apartamento velho, um duplex superantigo, que eu comprei e que é minha casa até hoje. Eu comprei bem, porque o apartamento estava fechado há seis anos, os proprietários tinham inclusive se mudado do Brasil", diz Salles.

"Eu comprei no final de 2015, quando já tinha voltado para a advocacia. Reformei o apartamento inteiro, durante um ano, e o dividi em dois. Houve, assim, uma valorização do meu imóvel, em razão da reforma, de 100%. Se você pegar minha declaração de Imposto de Renda, vai ver que dos meus R$ 8,8 milhões, R$ 6 milhões são do imóvel", completa o ministro.

Salles diz que não vendeu nenhum dos apartamentos: "Os dois são meus. Atualizei o valor do apartamento em razão da reforma, que é o que lei permite. Eu tinha um imóvel que valia R$ 2 milhões, gastei mais R$ 800 mil durante um ano de reforma, o que dá R$ 2,8 milhões, e fiz dois apartamentos, cada um valendo R$ 3 milhões. Essa é a conta, não tem nenhum mistério."

Por fim, Salles argumenta que, se houvesse algo de errado em seu patrimônio, não teria declarado e tornado público: "Eu fui a pessoa que coloquei meus dados no Tribunal Eleitoral para ser candidato. Ou seja, não é que ele (o autor da representação que deu origem à investigação por suspeita de enriquecimento ilícito) descobriu uma informação. Aquilo está declarado por mim. Se tivesse alguma coisa errada, não teria sido declarado por mim mesmo."

Salles atribui a investigação a uma perseguição política contra ele e contra o ex-governador Geraldo Alckmin.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.