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Pela visão que Bolsonaro tem da história, seu secretário é de esquerda

Diogo Schelp

17/01/2020 11h14

Goebbels e Hitler

Goebbels e Hitler (Foto: Getty Images)

Em abril do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro afirmou, durante visita a Israel, que o nazismo foi um movimento político de esquerda. "Não há dúvida, não é? Partido Socialista, como é que é? Da Alemanha. Partido Nacional Socialista da Alemanha", disse Bolsonaro, referindo-se ao nome do partido do ditador alemão Adolf Hitler.

A afirmação foi uma resposta a uma pergunta de um jornalista, que pediu para o presidente dar sua opinião a respeito do que havia dito o seu chanceler sobre o assunto. Em artigo publicado em seu blog, Ernesto Araújo escreveu que o nazismo era uma ideologia de esquerda, pois se caracterizava, entre outras coisas, por ser "contrário à liberdade individual" e por promover "a censura e o controle do pensamento pela propaganda e lavagem cerebral". O arquiteto desse aspecto do nazismo foi Joseph Goebbels, o ministro da Informação e da Propaganda de Hitler.

Dez meses depois, a visão que Bolsonaro e Araújo têm da história vem assombrá-los. Roberto Alvim, secretário de Cultura do governo Bolsonaro, divulgou um vídeo em que copia escancaradamente um discurso de Goebbels, além de beber na fonte a estética das propagandas nazistas — tanto visual quanto na trilha sonora do vídeo.

Ora, se Bolsonaro estava certo sobre a avaliação que fez do nazismo, então seu secretário de Cultura é socialista, pois se inspira em Goebbels. E já que o presidente exige tanto empenho para que socialistas, petistas e esquerdistas de todos os naipes sejam expurgados de seu governo, o que ele fará agora que descobre que um deles está à frente de uma das áreas mais sensíveis do que seus apoiadores costumam chamar de "guerra cultural"?

Se Bolsonaro não expurgar Alvim, terá de admitir o que os principais historiadores do nazismo não se cansam de afirmar: o movimento de Hitler tinha alguns traços comuns à esquerda, mas era fundamentalmente uma ideologia de direita.

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.