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Diogo Schelp

Diogo Schelp

Por que Bolsonaro adota cautela diante da fraude eleitoral na Bolívia

Diogo Schelp

23/10/2019 10h35

Bolsonaro e Evo

Evo Morales cumprimenta Jair Bolsonaro no dia da posse do presidente brasileiro (Foto: Divulgação/Marcos Corrêa/PR)

O presidente Jair Bolsonaro adotou um tom cauteloso para falar sobre a suspeitíssima contagem de votos do primeiro turno das eleições presidenciais na Bolívia, esta semana. Como mostra esta reportagem da Folha de S.Paulo, Bolsonaro disse, em conversa com jornalistas no Japão, onde esteve para a entronização do imperador Naruhito, que "seria bom uma revisão da apuração, uma recontagem de votos", acrescentando que "a OEA (Organização dos Estados Americanos) emitiu uma nota colocando em cheque a lisura das eleições".

"Realmente ficou muito suspeita, né. Como estava caminhando, quase na reta final, a suspensão da apuração, que depois da retomada deu vitória à situação. Isso aí acho que todo mundo fica preocupado com uma eleição sendo apurada dessa maneira", completou Bolsonaro.

Bolsonaro não usou a expressão "fraude eleitoral", que é o que de fato está acontecendo na Bolívia. Fraude esta, aliás, que começou muito antes da abertura das urnas. Afinal, o presidente Evo Morales estava disputando seu quarto mandato, em violação à Constituição do país e ao referendo que ele próprio convocou, mas perdeu, em 2016.

Comedimento

As palavras comedidas de Bolsonaro soariam naturais se tivessem saído da boca de outro presidente. Mas não combinam com a postura aguerrida que seu governo normalmente apresenta diante de qualquer coisa de errada que possa ser relacionada ao bolivarianismo latino-americano.

Diante dos protestos no Equador e no Chile, Bolsonaro denunciou um complô da esquerda bolivariana, organizada em torno do famigerado Foro de São Paulo e articulada pela Venezuela de Nicolás Maduro.

A respeito dos protestos no Equador, o Itamaraty até divulgou uma nota, no último dia 8, rejeitando "qualquer ação destinada a desestabilizar nossas democracias por parte do regime de Nicolás Maduro e daqueles que buscam estender as diretrizes de seu governo nefasto aos países democráticos da região".

No Twitter, Bolsonaro afirmou, sobre os protestos no Chile: "Não estamos livres desses ditadores que teimam, via atos de vandalismo e terrorismo, reconquistarem o que perderam nas urnas", numa referências às teorias de que a Venezuela estaria por trás das manifestações violentas contra o presidente chileno Sebastián Piñera.

Sobre a Bolívia, o presidente não havia feito no Twitter qualquer denuncia do tipo até 10h30 desta quarta-feira (23).

Já o Itamaraty limitou-se a manifestar preocupação com a contagem de votos na Bolívia. "O Brasil acompanha com atenção o primeiro turno da eleição na Bolívia. Preocupa muito a interrupção imprevista da apuração e a falta de resposta das autoridades eleitorais bolivianas aos pedidos de esclarecimento da OEA", afirmou o Itamaraty em sua conta no Twitter. O tom é condizente com a postura adotada pelo ministério em outros governos. Mas compare as expressões cautelosas adotadas neste comunicado com as que foram usadas na nota sobre o Equador, acima.

Duro com a Argentina, suave com a Bolívia

Surpreende que o presidente anti-bolivariano, anti-PT, anti-Foro de São Paulo e anti-esquerda tenha adotado o discurso da mera "preocupação" com o processo eleitoral boliviano, que deve reconduzir ao cargo, de maneira fraudulenta, um dos últimos remanescentes da aliança bolivariana que dominou a América do Sul no período dos governos Lula e Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, Bolsonaro ameaça sair do Mercosul caso o kirchnerismo volte ao poder na Argentina e adote uma postura anti-mercado.

Em julho, durante Cúpula do Mercosul realizada em julho, na Argentina, Bolsonaro disse a Morales: "Já estava com saudades depois que o vi na minha posse no Brasil."

O único momento de crítica mais dura de Bolsonaro a Evo Morales ocorreu em setembro, quando o brasileiro questionou por que apenas o Brasil era responsabilizado pelas queimadas na Amazônia, se o mesmo também estava acontecendo em grande escala na Bolívia.

Tolerância

Há duas explicações possíveis para a tolerância maior de Bolsonaro em relação a Evo Morales. Uma delas é a habilidade política do boliviano, que fez questão de estar presente na posse de Bolsonaro e que desde então tem evitado fazer qualquer crítica ao brasileiro. Evo também ficou longe do encontro do Foro de São Paulo realizado em Caracas, na Venezuela, em julho deste ano — ainda que seu partido, o MAS, tenha marcado presença.

Contou muito a favor de Evo a decisão de extraditar para Itália, em julho, o terrorista Cesare Battisti, que estava refugiado no Brasil e que havia fugido para a Bolívia para não ser preso.

A outra explicação é que, ao menos no caso boliviano, o governo brasileiro está adotando o pragmatismo comercial. Mais de um quarto do gás natural consumido no Brasil é importado da Bolívia, e os dois países estão prestes a fazer uma renegociação do preço do combustível fóssil. O atual contrato com a Petrobras vence em dezembro.

Evo Morales está dando uma lição de como fazer diplomacia com o governo Bolsonaro. Basta adotar dois princípios: jamais bater de frente com o presidente brasileiro e sempre manter em evidência os interesses comerciais em comum.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.