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Diogo Schelp

Uma recomendação de livro para o chanceler Ernesto Araújo

Diogo Schelp

06/04/2019 08h31

Ernesto Araújo

Ernesto Araújo e sugestão de livro (Valter Campanato/Ag. Brasil e Diogo Schelp/Arquivo Pessoal)

O disparate da semana foi a afirmação, feita pelo chanceler Ernesto Araújo e repisada pelo presidente Jair Bolsonaro, de que o nazismo era uma ideologia de esquerda. Araújo tentou dar um ar intelectual para essa afirmação em um artigo publicado em seu site pessoal, o "Metapolítica 17 contra o globalismo". Ali ele afirma que o "nazismo era anti-capitalista, anti-religioso, coletivista, contrário à liberdade individual, promovia a censura e o controle do pensamento pela propaganda e lavagem cerebral, era contrário às estruturas tradicionais da sociedade. Tudo isso o caracteriza como um movimento de esquerda. Portanto, o nazismo era anti-liberal e anti-conservador". Como o chanceler disse (corretamente, nesse caso) que é preciso estudar um pouco antes de sair dando opinião, recorri aos livros.

Mas antes, vamos reconhecer o que há de verdade na frase de Araújo. De fato, o nazismo era contrário à liberdade individual e promovia a censura e o controle do pensamento pela propaganda e lavagem cerebral. Era, também, anti-liberal. Tudo isso pode caracterizá-lo como sendo de esquerda ou de direita. O totalitarismo, como bem disse o vice-presidente Hamilton Mourão, não é exclusividade de nenhum dos dois.

O nazismo não era exatamente anti-conservador, mas, sim, era um movimento revolucionário. Pretendia romper com o passado e criar um futuro novo. E é precisamente por isso que a esquerda erra quando diz que Jair Bolsonaro é fascista. Nada disso. O presidente e as pessoas que gravitam no seu entorno são, basicamente, reacionários. Isso não é ofensa, é uma constatação. O bolsonarismo quer a volta de um passado idílico (a ditadura militar) e caracteriza-se por reagir (daí o reacionarismo) a mudanças que considera imorais e decadentes na sociedade contemporânea.

Guardem isso: reacionário ≠ revolucionário.

O nazismo também era, realmente, anti-clerical (não exatamente anti-religioso, há uma diferença) e coletivista. Isso significa que era anti-capitalista? Vejamos. Puxei da estante a Enzyklopädie des Nationalsozialismus ("Enciclopédia do Nacional Socialismo"), um tolete de quase 1.000 páginas publicado pela editora alemã Deutscher Taschenbuch Verlag em 2007. Há um capítulo polpudo só sobre a economia segundo o nazismo, assinado pelo historiador Werner Bührer. Recomendo a leitura ao chanceler. Está em alemão, então vou fazer um resumo.

Ali diz que a economia era, para Hitler e para o seu partido, algo secundário, que deveria servir aos interesses de um Estado forte, e não o contrário. A economia nazista era estatizante. Quase metade dos 25 pontos do primeiro programa formal do partido nazista, de 1920, tratava de economia. Há, ali, além de traços estatistas, referências à distribuição de renda e à defesa de medidas fundiárias que bem poderiam estar no programa de um partido comunista. Nas palavras do professor Bührer, em tradução livre: "As cores socialistas de alguns desses tópicos se sobressaem. Mas colocar seus autores e propagandistas na tradição socialista do movimento operário é um erro." E há dois motivos para isso. Primeiro, porque Hitler repetidas vezes rechaçou o socialismo marxista. E, segundo e mais importante, ainda citando Bührer, porque o nazismo reconhecia a propriedade privada como um direito inviolável. Além disso, os grandes empresários e industriais alemães financiaram pesadamente o partido de Hitler a partir de 1933, e se beneficiaram com reduções de impostos e com a repressão aos movimentos de trabalhadores. Portanto, o nazismo não era anti-capitalista. 

Outros trechos do livro, escritos por outros autores, são igualmente peremptórios ao colocar o nazismo e as ideologias de esquerda da época em lados opostos. O verbete sobre fascismo, que abarca o nazismo, diz: "Apesar de o fascismo nunca ter sido uma ideologia consistente, os diferentes movimentos fascistas dividiam uma série de características: anticomunismo militante e anti-liberalismo, assim como inimizade frente à democracia, nacionalismo extremo", etc. O nazismo não era de esquerda.

O artigo de Ernesto Araújo defendendo o contrário segue à risca a cartilha das fake news: misturar algumas afirmações verdadeiras para dar credibilidade a uma grande mentira.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.