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Atentado no Sri Lanka abriu a gaiola dos cruzados brasileiros na internet

Diogo Schelp

23/04/2019 04h12

Sri Lanka

Militares fazem a segurança da Igreja de Santo Anônio, em Colombo (Imagem: A.Hapuarachchi/Xinhua)

Reconhecer que o Islã tem um problema de radicalização não significa que devemos radicalizar e considerar que o Islã é um problema. Tendo viajado por diversos países árabes, conheço muitos muçulmanos. E percebi que a maior tensão que existe não é entre eles e os cristãos, mas entre suas próprias facções (sunitas e xiitas) e entre muçulmanos seculares, moderados e religiosos radicais.

Os seculares não esperam que as mulheres usem véu, rezam quando querem e se dão o direito de beber álcool. Já os muçulmanos religiosos moderados deixam que os preceitos do Islã guiem seu estilo de vida, mas respeitam a opção dos seculares e de integrantes de outras religiões. Mesmo entre os radicais, que acreditam seguir uma linhagem pura do Islã, há divisões. Aqueles que acham justificável matar em nome de Alá representam uma minoria dentro dessa minoria radical.

Acontece que há 1,6 bilhão de muçulmanos no mundo e, em um universo tão grande, qualquer minoria violenta vai causar estrago. E quem mais sofre com isso são os outros muçulmanos. Sim, estatisticamente, as maiores vítimas do terrorismo islâmico são os próprios muçulmanos.

A melhor maneira de combater o jihadismo, portanto, é apoiando os seculares e os moderados do Islã, não impedindo-os de entrar em nosso país ou ameaçando-os com coisa pior. A reação nas redes sociais brasileiras aos terríveis atentados de domingo de Páscoa contra os católicos do Sri Lanka vai por esse segundo caminho, o da generalização e da intolerância.

Alguns dos comentários mais infames foram feitos em apoio a postagens do primeiro escalão do bolsonarismo. 

Este foi o segundo post do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente e espécie de Marco Aurélio Garcia do bolsonarismo, sobre o assunto. Ele está certo em dizer que os cristãos são perseguidos em muitos países onde são minoria. Mas desinforma ao afirmar que o assunto não é noticiado. Na imprensa brasileira, há diversas reportagens sobre a perseguição aos cristãos ao redor do mundo. Basta pesquisar. Eu mesmo já editei algumas. Ao levantar a já batida tese de que há uma conspiração esquerdista para esconder do público certos assuntos, Eduardo abriu a gaiola dos seus seguidores mais radicais, que passaram a comparar muçulmanos com cobras, a chamá-los de pedófilos e a exigir que sejam proibidos de entrar no país. Quanta intolerância.

O chanceler Ernesto Araújo, que já expressou seu desejo de estabelecer uma aliança cristã contra o globalismo (interpretado por ele como uma invenção do marxismo cultural) e contra o islamismo radical, diz que o "martírio faz parte da fé". Os homens-bomba que se explodiram nas igrejas do Sri Lanka diriam a mesma coisa sobre si mesmos, o que já não é bom sinal. Aliás, os radicais islâmicos também são, a seu modo, anti-globalistas, pois eles se ressentem de que o mundo está mudando. Mas divago.

Sem dúvida é preciso levantar-se contra a opressão e a perseguição aos cristãos. Mas como? Combatendo a islamização do mundo, como comentou um dos seguidores do chanceler? Evocando a bandeira dos cavaleiros templários, como fez outro? Recomeçando uma cruzada contra os islamitas, como sugeriu um terceiro?

"A raça dos eleitos sofre perseguições ultrajantes e a raça ímpia dos sarracenos não respeita nem as virgens do Senhor nem os colégios de sacerdotes."

A frase acima resume bem o tom de muitos dos comentários que ecoaram nas redes sociais brasileiras a respeito dos covardes atentados no Sri Lanka. Trata-se, porém, de um trecho do manifesto de Brenton Tarrant, de 28 anos, que matou 48 pessoas em duas mesquitas de Christchurch, na Nova Zelândia, no mês passado.

O radicalismo tem muitas facetas.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.