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Diogo Schelp

Diogo Schelp

Retrato do Colapso, óleo sobre cédula

Diogo Schelp

2018-05-20T19:09:08

18/05/2019 09h08

Dinheiro

Imigrante venezuelano pinta o rosto do traficante Pablo Escobar em nota de bolívar, o dinheiro venezuelano, nas ruas de Bogotá, na Colômbia (Foto: Ivan Valencia/AFP)

Nas ruas de Bogotá, na Colômbia, um casal de imigrantes venezuelanos pinta retratos de celebridades, bandidos famosos e figuras históricas feitos sobre cédulas de bolívar, o dinheiro venezuelano que nada vale. Zeros cortados, criptomoeda governamental, câmbio oficial mais vantajoso que o paralelo. A paleta inteira de medidas monetárias extravagantes, conhecidas e não conhecidas, já foram adotadas pelo governo para tapar o sol escaldante da inflação.

Em agosto do ano passado, o governo de Nicolás Maduro substituiu o bolívar pelo bolívar soberano. Não adiantou. Começou com 1 dólar valendo cerca de 60 bolívares soberanos. Na quarta-feira desta semana, dia 15, chegou a 5.652,97. Em março, o salário mínimo mensal não permitia sequer comprar um McLanche Feliz. O governo, com um canetaço, dobrou o valor do mínimo. Já dá para comprar o McLanche Feliz. Mas não para ser feliz.

Os venezuelanos podem rasgar dinheiro que não serão chamados de loucos (uma nota de 2 bolívares vale quanto, mesmo?). Loucos são chamados aqueles que podem, mas não saem do país. Até o fim de 2019, mais de 5 milhões de venezuelanos terão emigrado — uma conta que começou em 2015.

Pudera. Nove em dez venezuelanos vivem abaixo da linha da pobreza. Economistas consultados pelo jornal americano The New York Times dizem que o colapso do país só tem equivalente em países em guerra.

Quem vai pintar a Guernica venezuelana?

Criança com desnutrição crônica em Barquisimeto, na Venezuela (Foto: Meredith Kohut/New York Times)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.