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Diogo Schelp

Se a Europa pode fazer negócios com a China, por que não com Bolsonaro?

Diogo Schelp

14/06/2019 04h08

Hong Kong

Manifestantes reclamam de violência policial em protestos em Hong Kong na quinta-feira (13) (Foto: Jorge Silva/Reuters)

Os protestos desta semana em Hong Kong servem para lembrar um fato óbvio, mas que é frequentemente empurrado para baixo do tapete por governos de todo o mundo: a China, país que almeja alcançar a liderança política e econômica mundial, é um ditadura.

Hong Kong é um enclave chinês que foi, durante 150 anos, colônia britânica. O território foi devolvido à China em 1997 com algumas promessas, entre as quais a de que manteria certa autonomia política e o resguardo de liberdades civis até 2047. Desde o começo, porém, ficou claro que os planos do Partido Comunista Chinês para Hong Kong eram outros. Os traços de democracia que ali existem são, do ponto de vista de Pequim, um péssimo exemplo para a China continental. Cada vez mais, o governo chinês trata de interferir e impor-se no sistema política de Hong Kong. A Revolta dos Guarda-Chuvas, em 2014, foi o primeiro episódio de oposição ferrenha da população local ao avanço chinês sobre suas liberdades. O segundo ocorreu esta semana.

Centenas de milhares de pessoas foram às ruas para protestar contra a aprovação de uma lei que permitirá às autoridades deportar suspeitos de crimes para países com os quais Hong Kong não tem acordos de extradição. Isso inclui a própria China. O perigo é evidente. O sistema judicial de Pequim, totalmente subordinado ao governo do Partido Comunista, pode usar esse expediente para pedir a extradição de dissidentes políticos que vivem em Hong Kong ou de empresários que prejudicam os interesses comerciais de chineses com boas conexões políticas. Atualmente, quando quer por as mãos em alguém que está em Hong Kong, o governo chinês trata de sequestrá-lo, como já aconteceu com um editor de livros e com um empresário, em 2017. Por causa dos protestos, a votação da lei pelo parlamento foi postergada.

Na China, há censura à internet e nada menos que 800 presos políticos (de acordo com o último levantamento feito em 2018). Tampouco existe imprensa livre. E, no entanto, nada disso impede que países democráticos façam negócios com a China. Não poderia ser de outra forma. A economia chinesa está de tal maneira entrelaçada com a economia mundial, que qualquer boicote equivaleria a uma hecatombe do PIB global. Desde a aproximação diplomática entre Estados Unidos e China, na década de 70, não há como imaginar um mundo em que o país asiático esteja fora do jogo comercial do planeta. Isso não quer dizer que o Ocidente não possa, ou deva, criticar as violações de direitos humanos na China.

Por isso, chama a atenção a hipocrisia do argumento corrente na Europa de que é preciso isolar o Brasil, economica e diplomaticamente, por causa do tipo de governo que temos por aqui. A mais recente manifestação dessa hipocrisia foi a declaração do eurodeputado alemão Martin Häusling, do Partido Verde, que disse que não dá para negociar nada com o presidente Jair Bolsonaro, "pois da maneira como ele se posiciona, ele mostra que está fora da tradição democrática. Bolsonaro não é um defensor dos direitos humanos, dos direitos das mulheres e nem dos direitos ambientais". A frase foi dita no contexto das negociações em curso entre União Europeia e Mercosul para fechar um acordo comercial benéfico aos dois blocos.

Trata-se de um grande disparate. Não é preciso concordar com Bolsonaro em nada, mas o Brasil é um país democrático e é regido por leis que são, sim, compatíveis com os valores de que falou Häusling. O fato de o eurodeputado ser integrante das comissões do Parlamento europeu para Agricultura e Desenvolvimento Agrário e para Meio Ambiente, Segurança Alimentar e Saúde Pública dão credibilidade à acusação, feita pelo ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles a este blog, de que esse tipo de narrativa serve para "promover uma negociação comercial internacional que coloque o Brasil na defensiva e para proteger mercados com barreiras não tarifárias". Afinal, os interesses dos agricultores europeus são um dos principais entraves ao acordo UE-Mercosul.

Se fosse levar a ferro e fogo os parâmetros do deputado europeu, a UE não poderia fazer negócios com a Arábia Saudita, com a China, com o Egito, com a Turquia, e assim por diante. Diferenças no sistema político não impedem democracias e ditaduras de se engajarem em trocas comerciais, a não ser quando há pendências geopolíticas, como ocorre entre Estados Unidos e Coreia do Norte.

A boa notícia é que a negociação com o Mercosul não está a cargo de políticos como Häusling. A comissária de Comércio da UE afirmou nesta quinta-feira (13) que o acordo com o Mercosul é prioridade do bloco europeu. Que a discordância ideológica não sirva de desculpa para emperrar as negociações.

Para o bem e para o mal, não somos a China. E mesmo se fossemos…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.