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Por que as acusações de abuso sexual contra Trump não dão em nada

Diogo Schelp

23/06/2019 04h00

Trump

E. Jean Carroll na capa da revista New York e Donald Trump (Imagens: Divulgação e Pablo Martinez Monsivais/ AP)

A jornalista americana E. Jean Carroll tornou-se, na sexta-feira (21), a vigésima segunda mulher a denunciar o presidente Donald Trump por assédio ou abuso sexual. Carroll contou, em artigo publicado na revista New York, ter sido estuprada por Trump no provador de uma loja de roupas em Manhattan, em Nova York, em meados dos anos 90. Na época, Carroll escrevia uma coluna em que dava conselhos às leitoras. Trump encontrou-a por acaso na loja e abordou-a para dizer que precisava de "conselhos" para comprar um presente para uma mulher. Foi dessa forma que ele a atraiu para o provador. Lá, segundo o relato de Carroll, ele a forçou contra a parede, beijou-a à força e penetrou-a. Com muito custo, ela conseguiu fugir. Ambos estavam na casa dos 50 anos. Carroll contou o ocorrido a duas amigas, que recomendaram que ela não desse queixa do estupro, pois Trump colocaria os melhores advogados para desacreditá-la e acabar com sua carreira de colunista.

Ao contrário de outros homens famosos nos Estados Unidos que tiveram suas carreiras destruídas (como o produtor de Hollywood Harvey Weinstein e o ator Kevin Spacey) ou foram presos (como o humorista Bill Cosby) depois de receberem acusações de conduta sexual imprópria ou criminosa, Trump já vem sendo denunciado há anos, sem repercussões. As mais recentes denúncias tendem a cair mais uma vez no vazio.

No campo legal, é muito difícil que abusos ocorridos anos atrás sejam levados a um tribunal. Apesar de as leis de 36 dos 50 estados americanos não exigirem provas para condenações por crimes sexuais (basta que a acusação seja considerada crível por um júri popular), na prática os casos só avançam no sistema penal depois de passar pelo filtro da polícia e dos promotores de acusação.

Uma das mulheres que o acusa, Summer Zervos, está processando Trump por difamação. Zervos, uma ex-competidora do programa de TV "O Aprendiz", do qual Trump era apresentador, diz que ele tentou violentá-la em 2007, quando ela foi lhe pedir emprego em seu edifício em Nova York, a Trump Tower. Ela fez as acusações em meio à campanha presidencial de 2016. Trump reagiu chamando-a de mentirosa. Os advogados dela exigem que Trump entregue as comunicações da equipe de campanha que digam respeito a Zervos e todas as outras mulheres que o acusam de crimes sexuais. Se o juiz aceitar essa exigência, há a possibilidade de que novas informações constrangedoras sobre a conduta sexual de Trump venham à tona.

Outro processo contra Trump está sendo movido por Alva Johnson, que trabalhou na equipe de campanha de Trump. Ela diz que o então candidato presidencial a beijou à força durante um evento na Flórida. No processo, ela também reclama de discriminação racial e de gênero, por ter recebido um salário menor do que outros colaboradores da campanha que faziam trabalho equivalente ao dela.

Nenhum desses processos, no entanto, tem o potencial de levar Trump à cadeia, estando ele na cadeira presidencial ou não.

No campo da reputação, as acusações sexuais tampouco trarão repercussões graves para Trump. A razão para isso é a capacidade do presidente americano de manter-se imune aos fatos, transitando sempre na realidade paralela que ele mesmo cria e na qual seus apoiadores acreditam fielmente. Enquanto as histórias envolvendo outros figurões que foram derrubados pelo movimento #metoo, nos Estados Unidos, ganharam credibilidade conforme foi aumentando o número de depoimentos de vítimas, no caso de Trump não importa quantas denúncias são feitas, seus eleitores simplesmente não acreditam nelas. Eles confiam na narrativa, criada por Trump, de que ele é vítima da perseguição da imprensa e de que as mulheres não o denunciam porque dizem a verdade, mas porque são pagas por seus inimigos políticos para prejudicá-lo.

A própria maneira como Trump se defende das acusações de assédio sexual é uma aula de como falsificar a realidade para comprovar a tese de conspiração política. No ano passado, por exemplo, Trump disse o seguinte sobre as denúncias de assédio: "Eu fui acusado por quatro ou cinco mulheres que receberam muito dinheiro para inventar histórias sobre mim. Nós as desmascaramos, mas a grande imprensa recusou-se a colocar isso na televisão ou escrever qualquer coisa sobre isso". A verdade, porém, é que não há qualquer evidência de que, entre as 22 mulheres que acusam Trump de estupro ou assédio sexual, exista alguma que tenha sido paga para isso. E apenas uma voltou atrás na acusação: sua ex-mulher Ivana Trump, que o acusou de estupro no processo de divórcio, em 1990.

Trump também disse — para provar o absurdo das denúncias — que uma das mulheres o acusou de ter abusado dela em um avião à vista de todos, enquanto os outros passageiros estavam embarcando. Na realidade, o que Jessica Leeds, uma ex-executiva de uma empresa de papel, disse é que, nos anos 80, Trump sentou-se ao lado dela na primeira classe de um avião e esperou a decolagem, quando todos os outros passageiros já estavam sentados, para começar a apalpá-la contra a sua vontade. Leeds contou que, para escapar do abuso, teve de se mudar para um assento na classe econômica.

Durante a campanha presidencial, Trump fez piada da denúncia de Leeds, sugerindo que ela não era bonita o suficiente para ser assediada por ele. "Não seria minha primeira opção, posso dizer para vocês", disse Trump aos seus apoiadores.

A realidade de Trump é tão surreal que nenhuma acusação sexual, por mais crível que seja, parece capaz de abalar sua reputação junto à sua massa de adoradores.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

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