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Diogo Schelp

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El Chapo condenado à prisão perpétua: será esse o futuro de Nicolás Maduro?

Diogo Schelp

17/07/2019 12h25

O ator Sean Penn, El Chapo e a atriz Kate de Castillo em encontro em 2015 (Imagem: Reprodução)

O narcotraficante mexicano Joaquín Guzmán, conhecido como El Chapo, foi condenado nesta quarta-feira (17) à prisão perpétua nos Estados Unidos. El Chapo ganhou, nos últimos anos, notoriedade equivalente à de um Pablo Escobar do século XXI: no comando do cartel de Sinaloa, ele não apenas administrou o envio de centenas de toneladas de cocaína para os Estados Unidos, como deixou um rastro de assassinatos e chacinas brutais no México ao longo de sua carreira, além de ter estuprado meninas de 13 anos repetidas vezes e protagonizado duas fugas espetaculares de prisões mexicanas.

Foi recapturado por uma veleidade: foragido, aceitou encontrar-se com o ator americano Sean Penn, em 2015, a pedido da atriz mexicana Kate del Castillo, que fazia papel de rainha do tráfico em uma novela de TV. El Chapo era fascinado pela atriz. O encontro foi rastreado e permitiu aos investigadores localizar o traficante.

A condenação de El Chapo, que ao longo da vida acumulou uma fortuna de 14 bilhões de dólares e já esteve na lista de homens mais ricos do mundo da revista Forbes, não vai enfraquecer os cartéis de drogas mexicanos, mas tem um peso simbólico.

Com as prisões dos figurões, os grandes cartéis da droga estão se fragmentado e dando lugar a cartelitos, igualmente eficientes em enviar cocaína para os Estados Unidos. Essa fragmentação, porém, tem um aspecto positivo: reduz a capacidade do tráfico de corromper altas autoridades do país. Durante o julgamento de El Chapo, foi revelado, por exemplo, que ele teria pago 100 milhões de dólares para o ex-presidente mexicano Enrique Peña Nieto para que não fosse capturado.

A penetração e a influência das organizações de narcotráfico no poder público é o aspecto mais preocupante na guerra às drogas. A corrupção corrói a credibilidade do Estado e afeta todos os outros aspectos vitais das instituições democráticas. Em última instância, ameaça a própria democracia e sua capacidade de prestar serviços à população, não apenas na área de segurança pública.

É o que acontece na Venezuela, país que nos últimos anos transitou de regime autoritário de traços esquerdistas para um narcoestado. O Estado venezuelano dá refúgio a organizações clandestinas colombianas e se transformou em rota de envio de cocaína. Entre os membros da cúpula do governo que dão sustentação ao ditador Nicolás Maduro acusados de narcotráfico estão Diosdado Cabello, presidente da farsesca Assembleia Nacional Constituinte (a legítima é a Assembleia Nacional, sem função prática por determinação judicial), Tareck El Aissami, ministro da Indústria, Henry de Jesús Rangel Silva, governador do estado de Trujillo, Néstor Luis Reverol Torres, comandante geral da Guarda Nacional e ministro do Interior, e Freddy Bernal Rosales, que comanda o setor de abastecimento de alimentos do governo, entre muitos outros. Os três últimos são militares. A participação intensa de oficiais e ex-oficiais venezuelanos no tráfico de drogas forma o que a população costuma chamar de Cartel dos Sóis, uma referência às estrelas das fardas dos envolvidos.

E não se pode também deixar de mencionar os dois sobrinhos de Nicolás Maduro, Efraín Flores e Francisco Flores de Freitas, presos em 2016, no Haiti, com 800 quilos de cocaína que se destinavam aos Estados Unidos. Eles portavam passaportes diplomáticos.

O apego ao cargo demonstrado por Maduro, apesar do caos econômico e humanitário que vive o país, portanto, não reside apenas no desejo de manter a fonte de enriquecimento pessoal que representam os recursos estatais aos quais ele e seu círculo de apoiadores têm acesso irrestrito. Maduro teme perder o cargo principalmente porque sabe que pode acabar em uma prisão federal americana. Quando o poder na Venezuela for parar nas mãos da oposição e a caixa-preta das instituições corrompidas do Estado for aberta, é praticamente certo que surgirão elementos suficientes para condená-lo por encabeçar a organização de narcotráfico que, já se sabe, é operada por seus principais aliados políticos e militares.

El Chapo é Maduro amanhã.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.