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Diogo Schelp

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Verborragia de governante e mensagens vazadas. Brasil? Não, Porto Rico

Diogo Schelp

22/07/2019 16h28

Ricky Martin

As celebridades porto-riquenhas Residente, Bad Bunny e Ricky Martin participam de manifestação pela renúncia do governador Ricardo Rossello na segunda-feira, 22 (Foto: Marco Bello/Reuters)

Um governante que não perde uma chance de fazer piadas machistas e homofóbicas, além de se dedicar a comentários ofensivos contra jornalistas. Um vazamento de conversas feitas em um chat no aplicativo Telegram em que membros de instituições diferentes compartilham indevidamente informações e combinam estratégias políticas. Parece o noticiário político brasileiro, mas estamos falando de Porto Rico. Há duas grandes diferenças entre os dois casos. A primeira é que, lá, o povo tomou as ruas para exigir a renúncia do protagonista, o governador Ricardo Rosselló (por ser uma colônia dos Estados Unidos, o cargo máximo do Executivo na ilha caribenha é o de governador). A segunda é que os comentários ofensivos não foram feitos em público, via Twitter ou em algum café da manhã com correspondentes estrangeiros. Em vez disso, faziam parte do conteúdo das mensagens vazadas. 

Há uma semana, o Centro de Periodismo Investigativo (CIP), uma entidade jornalística sem fins lucrativos vinculada à faculdade de direito da Universidade Interamericana de Porto Rico, publicou, de uma vez, 889 páginas de mensagens do chat do qual faziam parte onze pessoas, entre as quais o governador. As conversas ocorreram no final de 2018 e no início deste ano. Além de outras violações éticas, discutiam-se ali assuntos de governo com pessoas que não fazem parte da administração pública e que defendem interesses privados que podem ser favorecidos pelas informações. Os participantes do chat também distribuem xingamentos contra opositores, chamam mulheres de "putas" e publicam fotos e comentários jocosos contra gordos. O cantor Ricky Martin, comenta um ex-funcionário do governo no chat, é "tão machista" que prefere transar com homens, "porque as mulheres não estão à altura". E, quando um dos participantes publica um meme de uma feminista com uma camiseta onde se lê "antipatriarcal, feminista, lésbica, trans, caribenha, latino-americana", o governador Rosselló responde: "Isso deve ser algum tipo de recorde, não?"

Segundo o CIP, o material foi recebido de fonte anônima e sua autenticidade foi verificada de maneira independente. O governador Rosselló disse que não pode confirmar o teor das conversas porque não tem mais acesso a elas. O chat foi "apagado", afirmou ele, sem saber precisar quando e como.

A resposta de Rosselló, nesse ponto, se parece com a que foi dada, no Brasil, ao vazamento das mensagens entre o então juiz federal Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato. A diferença é que Rosselló assumiu ter cometido erros, apesar de se recusar a renunciar, como querem os manifestantes.

O escândalo das mensagens do Telegram (em Porto Rico) foi a fagulha que faltava para incendiar uma situação há muito inflamável: a colônia americana vive há anos em recessão econômica. As sucessivas administrações locais foram incapazes de acertar as finanças públicas. A população também está insatisfeita com a lenta reconstrução da infraestrutura, destruída pelo furacão Maria, em 2017, apesar do dinheiro enviado pelos Estados Unidos.

Perceber que seu governante, além de inepto, é dado a comentários desprezíveis e a fazer conchavos antiéticos nos bastidores foi demais para os porto-riquenhos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.