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Diogo Schelp

Diogo Schelp

A internacional trumpista ganha mais um aliado

Diogo Schelp

23/07/2019 10h20

Mural em Bristol, no Reino Unidos, retrata beijo apaixonado entre Donald Trump e Boris Johnson (Foto: Geoff Caddick/AFP)

A confirmação da escolha de Boris Johnson como novo primeiro-ministro do Reino Unido adiciona mais um nome à crescente lista de líderes mundiais que integram a direita populista e nacionalista — cujo expoente máximo é o presidente americano Donald Trump. E é curioso que o mais recente integrante da internacional trumpista tenha chegado tardiamente ao poder no Reino Unido, pois foi lá que tudo começou.

O referendo do Brexit, em que os britânicos decidiram pela saída de seu país da União Europeia (UE), em 2016, foi um marco na atual onda de populismo nacionalista e antiglobalista. Ao descartar o direito de fazer parte do mais poderoso e rico bloco econômico do mundo, os britânicos deixaram claro que o ressentimento com a globalização e o multilateralismo não era um fenômeno isolado e passageiro que já havia obtido vitórias eleitorais em outros países de menor expressão.

Johnson foi um dos principais garotos-propaganda da campanha do Brexit, recorrendo à agora já consagrada tática da desinformação (alguns preferem chamar de fake news) para mobilizar o eleitorado. Ele só não conduziu o processo de negociação com a UE porque seus correligionários preferiram passar o bastão para uma conservadora clássica, Theresa May, em vez de apostar na aventura Johnson. Fracassada a tentativa de May de fazer um Brexit negociado, o Partido Conservador cede à aventura e Johnson agora tem a possibilidade de pressionar pelo Brexit duro — uma saída sem acordo da UE, apesar de todas as implicações caóticas que isso pode ter.

Trump bebeu muito da experiência do referendo do Brexit na campanha eleitoral que o levou à presidência alguns meses depois. Ficou claro, no exemplo britânico, o potencial de votos de uma massa de cidadãos que se sentem deixados para trás em um mundo cada vez mais interconectado e cosmopolita. Nos Estados Unidos, Trump falou a essas pessoas e fez delas sua base apaixonada. O discurso é simples e eficiente: encontre um bode expiatório para os problemas dessa parcela da população, jogue na lata do lixo fatos e dados consagrados e antes indiscutíveis e prometa a volta a um passado mítico, onde tudo era perfeito e não havia incertezas. O Brexit fez isso, Trump fez isso.

Brexit e Trump deram ímpeto a experiências políticas similares em outras nações: na Itália, com o vice-premiê Matteo Salvini; na Áustria, com o xenófobo Partido da Liberdade, que este ano acabou sendo dispensado da coalizão que governava o país por causa de um escândalo de corrupção; e no Brasil, com o presidente Jair Bolsonaro. Esse grupo soma-se a líderes que já estavam no poder, mas que são feitos do mesmo barro populista e nacionalista: o primeiro-ministro Viktor Orbán, na Hungria, o premiê Benjamin Netanyahu, em Israel, o presidente Rodrigo Duterte, nas Filipinas (eleito no mesmo mês em que o Brexit foi aprovado), o presidente Milos Zeman, na República Checa, e Jaroslaw Kaczynski, considerado governante de fato da Polônia, apesar de não ocupar nem o cargo de presidente, nem de premiê. 

É a globalização do antiglobalismo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.