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Diogo Schelp

Poder tem de ser arrancado das mãos de Nicolás Maduro, diz líder opositora

Diogo Schelp

09/08/2019 04h16

María Corina Machado

María Corina Machado, líder oposicionista venezuelana (Foto: Alejo Reyna/Divulgação)

María Corina Machado, de 51 anos, é uma das principais lideranças da oposição venezuelana — e provavelmente a mais aguerrida. Candidata a presidente em 2012, ela já foi atacada violentamente por militantes chavistas em pelo menos meia dúzia de vezes. Em uma delas, em 2013, foi espancada dentro da Assembleia Nacional, da qual era deputada, e teve o nariz quebrado a socos e pontapés. Líder do partido Vente Venezuela, ela defende abertamente a derrubada à força do governo de Nicolás Maduro, com ajuda externa. Para isso, ela invoca a "responsabilidade de proteger", princípio segundo o qual a comunidade internacional deve defender civis de um país contra violações de direitos humanos cometidos por seu próprio governo. O argumento de María Corina é que o regime de Nicolás Maduro não apenas é ilegítimo, como não passa de uma organização criminosa, e como tal jamais aceitará deixar o poder pela via eleitoral. Na entrevista a seguir, realizada por telefone, ela critica as negociações políticas entre representantes de Juan Guaidó (o opositor que é reconhecido como presidente de direito por mais de 50 países, incluindo o Brasil) e do regime de Maduro mediadas pela Noruega, e diz que espera que o presidente Jair Bolsonaro se una aos governos da Colômbia e dos Estados Unidos para liderar a liberação da Venezuela:

Na sua opinião, o encontro do Grupo de Lima, realizado esta semana, obteve algum avanço na busca de uma solução para a questão venezuelana?

O mundo demonstrou, com esse encontro, a importância da situação na Venezuela, que claramente transcende nossa fronteira. O que acontece aqui tem um impacto regional indiscutível. Primeiro, pela migração em massa, que vai continuar crescendo enquanto Nicolás Maduro e seu regime estiverem no poder. Segundo, pela dimensão criminal do regime, cujas atividades delituosas buscam expandir-se a partir da Venezuela para outros países da região. Por fim, há a dimensão política, como se constatou na reunião do Foro de São Paulo realizado há duas semanas aqui em Caracas. O fundamental é que a reunião internacional em Lima deixou claro que o mundo entende que esse é um problema de todo o Ocidente. Também ficou muito evidente a posição dos Estados Unidos e dos principais países afetados pela situação venezuelana, que são os vizinhos Brasil, Colômbia e as antigas Antilhas Holandesas. Estão todos alinhados em uma mesma posição.

O governo do Brasil anunciou que vai impedir a entrada no país de funcionários do governo de Nicolás Maduro. Jair Bolsonaro está fazendo o suficiente para pressionar pela saída de Maduro?

O presidente Bolsonaro é um dos líderes que de maneira mais clara tipifica e classifica o regime de Maduro, e que entende a ameaça real que ele representa para a segurança nacional brasileira. A posição do chanceler Ernesto Araújo nas distintas reuniões do Grupo de Lima foi clara, inequívoca. Considero que o Brasil, progressivamente, terá uma liderança maior na solução da tragédia venezuelana, por ser um dos principais afetados e pela importância geopolítica do país no hemisfério. E também pela forma como governos brasileiros anteriores se envolveram no nascimento e na consolidação do Estado criminoso na Venezuela.

Bolsonaro disse ao presidente Donald Trump que não se envolverá em uma ação militar na Venezuela. Quais são as ações concretas que Bolsonaro pode adotar?

O Brasil poderia reforçar a correta caracterização do regime de Maduro. Deixar muito claro a todos os líderes do mundo a verdadeira face do regime venezuelano. Ou seja, que não se trata de uma ditadura. Se fosse uma ditadura, já teria caído há muito tempo. Estamos falando de um regime criminoso, que se associou e se misturou com todas as redes da máfia e de crime organizado do mundo. Desde a guerrilha da ELN e das Farc até os carteis da droga, passando pelos grupos terroristas islâmicos de Hezbollah e Hamas e outras organizações delinquentes envolvidas em extração de ouro e de minerais e em tráfico de seres humanos. A Venezuela está vivendo um processo de "somalização". Há zonas extensas do nosso território que hoje não têm presença alguma do Estado venezuelano. Estão sob controle de máfias externas. A península de Paria, o sul de Bolívar, na fronteira com Brasil, o estado de Zulia e o norte da península de Paraguaná são territórios que progressivamente vem sendo controlados por redes e grupos criminosos autônomos, mas que se complementam entre si. Hoje, esses grupos estão localizados em áreas geográficas limitadas, mas, por sua dinâmica criminal, essas operações crescem, se expandem. E, em questão de meses, a situação da Venezuela poderá estar totalmente fora de controle. Daí a urgência de atuar com rapidez. O Brasil, por razões óbvias, tem acesso a informações, a inteligência muito mais precisa e muito mais ampla e profunda do que outros países. Por isso, a primeira coisa que o governo brasileiro deve fazer, pela autoridade que tem por sua localização e pela forma como iniciou o combate à corrupção, é garantir que essa informação seja compartilhada com outros países da América Latina e também com outros sócios do Brasil no Brics, grupo do qual participam atores-chaves desse processo, como a China, a Rússia e a Índia. O Brasil pode deixar muito claro a esses parceiros qual é o seu interesse estratégico, geopolítico e econômico na questão venezuelana e, simplesmente, de que lado está.

Se fosse uma ditadura, já teria caído há muito tempo. Estamos falando de um regime criminoso"

As sanções dos Estados Unidos contra o governo Maduro estão cumprindo o objetivo de debilitar o chavismo? Se sim, quais são os sinais disso?

As sanções estão conseguindo o resultado correto, que é expor o sistema criminoso da Venezuela, que se sustenta no poder às custas de, primeiro, terror contra a população, segundo, de censura e perseguição dos meios de comunicação, e terceiro, do financiamento a integrantes dessas redes criminosas que são parte do Estado. Na Venezuela, o Estado é a máfia. Ou a máfia é o Estado. Essas ações por parte da comunidade internacional, incluindo sanções impostas por outros países além dos Estados Unidos, são fundamentais para fazer o regime de Maduro entender que está com os dias contados e colocar em evidência quais são essas redes criminosas que usam o sistema financeiro mundial, inclusive o americano, para bancar suas atividades ilícitas. Essas sanções não são contra a população venezuelana. Tudo o que tem a ver com importação de alimentos e remédios ou transações privadas não estão proibidas. O que estão sendo visadas são essas redes criminosas e, o que é muito importante, os testas de ferro do regime. São pessoas que acumularam fortunas obscenas com o dinheiro que deveria levar comida e medicamentos aos venezuelanos e que se dedicam a cooptar e a silenciar toda a sociedade. E é claro que nem todos se vestem de vermelho (a cor do chavismo). Encontram-se em muitas posições políticas, mas ganham dinheiro à custa da fome e da destruição da Venezuela. É preciso expor essas pessoas e fazer com que enfrentem a Justiça.

O governo dos Estados Unidos avisou que todas as cartas estão sobre a mesa para tirar Maduro do Palácio de Miraflores. Uma intervenção militar dos Estados Unidos pode ser uma solução aceitável para o povo venezuelano?

O que é inaceitável para o povo da Venezuela é que Maduro permaneça no poder. Os dias de Maduro no poder não se contam em horas, se contam em mortos. Hoje, entre 3.000 e 7.000 venezuelanos fogem todos os dias da Venezuela. Eles deixam para trás suas casas, suas lembranças, seu patrimônio, sua família. Isso significa que, nos próximos seis ou sete meses, mais de 1 milhão de venezuelanos sairão do país. Uma geração inteira que está crescendo sem alimentos, sem remédios, sem educação. Então, o que é inaceitável é que Maduro fique. O que tampouco é aceitável é manter o engano e a ilusão de que criminosos vão ceder o poder pela via eleitoral. O diálogo que estava sendo realizado em Barbados (entre representantes de Maduro e do opositor Juan Guaidó) demonstra a má intenção do regime. Essa não é a primeira tentativa de negociação. Já ocorreram seis desses diálogos. O que o regime busca com eles é ganhar tempo. Em 2016, fizeram o papa Francisco cair nesse embuste. Em 2017, foi a vez de enganarem os chanceleres do México e do Chile. Agora, o regime de Maduro resolveu aplicar a farsa na Noruega (que mediava as mais recentes negociações). Com o tempo, isso produz danos irreversíveis. Estamos falando de vidas humanas. Não podemos cair em novas armadilhas. O país clama à comunidade internacional que exerça o dever da responsabilidade de proteger. As pessoas me dizem nas ruas, quando percorro o país: "quantos mortos são necessários, o que mais temos que passar?" Na Venezuela está ocorrendo um genocídio. É preciso deter isso. A única maneira de fazer este regime entregar o poder é arrancando-o de suas mãos. É preciso construir uma ameaça real e iminente contra o regime. Essa ameaça tem que ser crível para que esses criminosos entendam que, para o seu próprio bem, devem aceitar os termos e as garantias que se oferece a eles.

Os dia de Maduro no poder não se contam em horas, se contam em mortos"

Quais são essas garantias?

A única garantia é a Justiça.

Quando chegará o momento recorrer a uma intervenção militar? 

O momento certo já passou há muito tempo. Cada dia que passa, o custo será maior. Não apenas em vidas, pelas mortes que acontecem enquanto Maduro permanece no poder. Mas porque os grupos criminosos estão se expandindo e ocupando território venezuelano. Nossa região tem que assumir a obrigação de intervir. O Foro de São Paulo se reuniu em Caracas e disse claramente: seu objetivo é a desestabilização da Colômbia, impedir que Mauricio Macri se reeleja na Argentina, obter a libertação de Lula e garantir a consolidação do governo de Manuel López Obrador no México — e tudo isso financiado por atividade ilícitas sediadas na Venezuela. Esse projeto transnacional exige uma abordagem continental. Por isso estamos reivindicando que o Brasil, a Colômbia, as Antilhas e os Estados Unidos assumam a liderança internacional, vinculados às forças democráticas que estão aqui na Venezuela — formada por pessoas como nós, que não vamos para o exílio e continuamos percorrendo o país, dedicados a organizar os cidadãos —, para liberar a Venezuela.

É preciso construir uma ameaça real e iminente contra o regime"

Como se pode evitar o risco de que uma intervenção militar externa resulte em uma guerra civil na Venezuela, dada a forte presença de milícias chavistas e de narcoguerrilheiros?

Na Venezuela, o que estamos vivendo é uma guerra não convencional. O que está em disputa não é apenas o território. Luta-se por meio da opinião pública, da inteligência, do ciberespaço, dos mercados globais, da polícia e da Justiça internacional. Esse regime foi muito hábil em impor suas mentiras, seu mitos. Vou mencionar três. O primeiro é que nós, ao pedir ajuda externa, estamos demandando uma invasão estrangeira, um invasão dos Estados Unidos. Mentira. Não é necessário. Estamos no século XXI. A força deve ser aplicada contra os nós de poder desse regime. Um deles é o financiamento ilícito, o outro é o aparato repressivo. É preciso usar a força de maneira cirúrgica e efetiva contra esses nós. O segundo mito é o de que, se houver intervenção externa na Venezuela, vai resultar em uma guerra civil. Mentira. A Venezuela não é a Síria, não é a Líbia, não é o Vietnã, nem o Afeganistão. Em nosso país não há tensões de ordem étnica, religiosa, cultura, ideológica ou regional. Mais de 90% dos venezuelanos clamam desesperadamente por uma única coisa: que Maduro vá embora, que a Venezuela seja liberada. O terceiro mito é que Maduro tem um grande respaldo armado. O regime se dedicou a inflar e exagerar obscenamente o número de seus milicianos, colectivos (bandos armados pelo chavismo) e guerrilheiros para fazer crer que dispõe de um poder muito superior ao que realmente possui em termos de forças irregulares. Este é um ponto importante. A relação que existe entre esses grupos e o regime é estritamente transacional, econômica. Não há um elemento ideológico ou religioso. Ninguém vai sacrificar sua vida por Maduro. Além disso, nossas Forças Armadas foram significativamente enfraquecidas em sua capacidade operacional e logística. Foram infiltradas por agentes cubanos com tecnologia russa. A imensa maioria dos nossos oficiais e soldados se opõe a esse regime. Tão logo as Forças Armadas sejam liberadas dessas amarras que vêm dos altos comandantes, haverá capacidade interna, com o adequado respaldo de inteligência, comunicação e estrutura, para controlar esses grupos irregulares.

Uma intervenção externa na Venezuela não resultaria em uma guerra civil"

O que Guaidó deveria fazer a partir de agora, na sua opinião?

Primeiro, não voltar a se engajar no diálogo de Barbados, que é um erro. As negociações com o regime só geraram confusão, desmoralização e desmobilização dos venezuelanos. Esse é um desvio da rota que assumimos em janeiro (quando Guaidó foi proclamado presidente interino pela Assembleia Nacional). Em segundo lugar, escutar o povo. Confiar nos cidadãos que hoje o apoiam para um caminho que é um só, que é a liberação da Venezuela. Em terceiro lugar, pedir com firmeza, com serenidade, mas com persistência, o apoio internacional que requeremos para terminar nossa tarefa. Principalmente aos presidentes Bolsonaro, Ivan Duque (da Colômbia) e Trump, para que formem uma coalizão internacional liberadora, que dirijam todas as forças em uma mesma direção, que é formar uma ameaça real para acabar com o regime de Maduro. Por fim, deve convocar todas as nações para apoiar um governo de unidade que permita a reinstitucionalização da Venezuela, para poder convocar eleições depois da transição. Se não, jamais veremos dias livres, jamais teremos uma mudança política.

Você já disse que, quando Maduro sair de Miraflores, poderá ser candidata à presidência. Qual seria a primeira medida para acabar com a crise humanitária que vive o povo venezuelano?

Apenas uma nação aberta ao mundo, com uma economia livre, com instituições sólidas e autônomas, com Estado de direito, pode deixar a pobreza para trás. A Venezuela é uma nação devastada, então vai levar um tempo. Durante esse período, temos que nos assegurar de que teremos todo o respaldo internacional para abordar a crise humanitária. Precisaremos recuperar a confiança dos venezuelanos para iniciar um processo de investimento e geração de empregos, com o qual possamos sobreviver de maneira autônoma. Não quero uma Venezuela que viva de ajuda internacional. Não quero uma Venezuela que tenha que depender da comiseração e do apoio externo. Quero uma Venezuela rica, produtiva, vibrante. Quando deixarmos para trás o crime, a corrupção e o socialismo, em menos de cinco anos a Venezuela estará à frente na América Latina como uma nação próspera, rica, aberta e segura. Isso é o que queremos fazer. Mas precisamos entender quais são os males que tanto dano causaram ao país e assumir que há um processo de ruptura histórica com as práticas de centralismo, estatismo, populismo, clientelismo e socialismo que durante tantas décadas não permitiram que a Venezuela aproveitasse todo o seu talento e seus recursos. Acredite, essa lição nós aprendemos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.