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Governo bolsonaro terá de lidar de maneira pragmática com kirchnerismo

Diogo Schelp

13/08/2019 11h50

Cristina Kirchner

Cristina Kirchner acena para eleitores após reunião com Alberto Fernandez, em Buenos Aires, na segunda-feira (12) (Foto: Luisa Gonzalez/Reuters)

A provável volta do kirchnerismo ao poder não é um retrocesso apenas para a Argentina, é um obstáculo para a correção de rumo pela qual a América do Sul optou após um período de governos alinhados ao bolivarianismo do falecido presidente venezuelano Hugo Chávez. Quando presidente, Cristina Kirchner, é bom lembrar, replicou o estilo e os métodos chavistas de governar com muito mais afinco do que, por exemplo, Lula e Dilma Rousseff no Brasil. A simbiose com a Venezuela não se deu tão somente no campo da ideologia e de negócios escusos, mas também em conspirações de lesa-pátria que incluiram empastelar as investigações sobre o envolvimento do Irã no atentado terrorista contra uma associação judaica em Buenos Aires, em 1994, que matou 85 pessoas.

Cristina Kirchner, que governou entre 2007 e 2015, agora pode voltar à Casa Rosada como vice de seu ex-chefe de gabinete Alberto Fernández, em um ousado arranjo político que juntou a capacidade de articulação política dele com o apelo dela junto a uma base de apoiadores empedernidos. Cristina é a candidata a vice nas eleições de outubro, mas a chapa é kirchnerista, não "fernandista".

Para o Brasil, o retorno do grupo político de Cristina Kirchner à Casa Rosada tem três consequências. A primeira é o risco de que o país vizinho se afunde ainda mais na recessão, na inflação, no desemprego e no aumento da pobreza. Evidentemente, é de interesse do Brasil que o seu maior parceiro comercial no subcontinente progrida economicamente. O atual presidente Mauricio Macri vinha tropeçando em sua tentativa de consertar o legado deixado pela própria Cristina Kirchner, mas cometeu erros e não teve tempo de corrigi-los. A queda na bolsa argentina e a disparada do dólar são uma demonstração do quanto o histórico econômico do kirchnerismo é fonte de instabilidade.

A segunda consequência para o Brasil é o surgimento de uma nova fonte de atrito diplomático na região, motivado por diferenças ideológicas. O presidente Jair Bolsonaro estava em uma situação confortável na relação com os vizinhos até agora. Com exceção da Venezuela, que não é problema novo e serve ao discurso bolsonarista de "ameaça real do comunismo", ele estava rodeado de governos dóceis. Até a relação com o boliviano Evo Morales é boa, marcada pelo pragmatismo. Com a Argentina, pode ser diferente. Mal saíram os resultados da prévia das eleições argentinas, nesse domingo (11), e o presidente Jair Bolsonaro já está trocando farpas com o favorito, Alberto Fernández. O brasileiro disse que "vai ser uma relação bastante conflituosa". O argentino retrucou, afirmando: "Celebro que ele fale mal de mim. É um racista, misógeno, violento." Também usou, textualmente, a expressão "Lula livre". É óbvio que o apoio que Bolsonaro tentou dar a Macri não ajuda em nada sua eleição. Da mesma forma, Fernández pode estar elevando o tom contra Bolsonaro porque calcula que isso pega bem junto ao seu eleitorado. Depois das eleições, porém, ambos precisarão baixar o tom das declarações, tapar o nariz e trabalhar juntos em questões prementes para os dois países.

Se não o fizerem, desencadearão a terceira consequência da ascensão do kirchnerismo, que é o enfraquecimento da busca conjunta por oportunidades de abertura de mercado. Alberto Fernández disse nesta segunda-feira (11) que o acordo do Mercosul e a União Europeia anunciado em junho é desvantajoso para a Argentina e que pretende revê-lo. Não é à toa que os negociadores europeus correram para desatar os nós das conversas com os sul-americanos antes das eleições argentinas. Eles sabiam que tinham, com Macri, uma janela curta de oportunidade.

Não vai ser fácil para Fernández reverter as negociações. Os europeus vão se recusar a fazê-lo, da mesma forma como estão batendo o pé com a Inglaterra nas negociações sobre o Brexit. Isso porque o acordo anunciado em junho com o Mercosul permite que ele entre em vigor paulatinamente com os países que conseguirem aprová-lo junto aos seus parlamentos. Ou seja, se o Congresso Nacional endossar o acordo com a UE antes da Argentina, as regras de livre comércio já poderão ser aplicadas apenas para o Brasil, sem precisar esperar pelos hermanos. Se Fernández insistir em colocar entraves ao acordo, porém, os aspectos políticos e de cooperação previstos nas negociações serão adiados.

Do lado brasileiro, é preciso reconhecer que o governo Bolsonaro também está criando dificuldades para a implementação do acordo com a UE. Sua retórica sobre o meio ambiente, que inclui críticas à Suécia, à Noruega, à França e à Alemanha, oferecem de bandeja para os adversários do acordo na Europa os argumentos necessários para atrasar as próximas etapas, principalmente no que se refere à aprovação nos parlamentos do Velho Mundo. Se tudo der certo, o tratado poderá entrar em vigor parcialmente já em 2021. Se o governo brasileiro e o futuro governo argentino, ainda que por motivos diferentes, começarem a impor dificuldades, essa data poderá se estender.

Em defesa dos interesses brasileiros, a melhor postura do governo brasileiro diante de uma nova gestão kirchnerista na Argentina seria a de tolerância e de pragmatismo. As provocações ideológicas por parte do kirchnerismo certamente vão acontecer. Infelizmente, só existem razões para acreditar que elas serão disparadas também, e em igual intensidade, do lado brasileiro.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.