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Diogo Schelp

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O dia em que Bachelet encontrou o torturador no elevador

Diogo Schelp

04/09/2019 15h42

O presidente Jair Bolsonaro, com sua notória falta de empatia pelo sofrimento alheio, colocou o dedo na ferida aberta do passado de Michelle Bachelet, presidente do Chile por duas vezes (2006-2010 e 2014-2018) e atualmente alta comissária da ONU para direitos humanos. Em abril de 2006, logo depois que ela assumiu a presidência pela primeira vez, fui recebido no Palácio da Moeda, em Santiago, para entrevistá-la. Sobre a prisão e a tortura que sofreu nas mãos do regime do general Augusto Pinochet, ela me respondeu: "As feridas não cicatrizam jamais. Elas reabrem muitas vezes em momentos difíceis da sociedade e do país."

Ao ser criticado por Bachelet por fazer apologia da tortura e do golpe militar de 1964, no Brasil, Bolsonaro tratou de comemorar o fato de "comunistas" como o pai da ex-presidente, um general da Força Aérea chilena que morreu nas masmorras do regime um ano depois do golpe de 1973, terem sido impedidos de transformar o Chile em "uma Cuba".

Michelle, então estudante de medicina, e sua mãe foram presas em 1975 e enviadas para a Villa Grimaldi, notório centro de tortura do regime. O namorado dela na época está na lista de desaparecidos.

Um mês depois, Michelle e a mãe foram para o exílio, passando pela Austrália e se estabelecendo na Alemanha. Quando voltaram ao país, em 1979, foram morar no mesmo apartamento em que viviam antes de fugir.

Anos depois, Michelle Bachelet deparou-se no elevador de seu prédio com um dos torturadores da Villa Grimaldi. Ele havia se mudado para o mesmo edifício. A partir de então, a cena se repetiu inúmeras vezes. Quando estava junto, a mãe de Bachelet não se segurava e dizia para o vizinho que se lembrava dele da Villa Grimaldi. Bachelet conta que ele abaixava a cabeça, constrangido, e nada dizia.

O nome dele era Marcelo Morén Brito, um ex-coronel da polícia secreta. Tempos depois, ele foi condenado a 300 anos de detenção por violações de direitos humanos. Morreu na cadeia em 2015, aos 80 anos.

Como alguém que enfrentou a barra de ter o próprio torturador como vizinho e de ser obrigada a tolerá-lo nos espaços comuns de seu prédio residencial, Bachelet está mais do que preparada para resistir aos ataques de Bolsonaro.

Mas, como ela mesmo já disse, as feridas se abrem em momentos difíceis de um país.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.