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Diogo Schelp

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Demissão de Bolton pode reduzir 'livre-trânsito' de Bolsonaro com Trump?

Diogo Schelp

10/09/2019 14h20

Jair Bolsonaro e John Bolton em 2018, no Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)

O presidente Jair Bolsonaro já bateu continência para o homem que o seu ídolo Donald Trump acaba de demitir. John Bolton, o assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, cuja dispensa o presidente americano anunciou nesta terça-feira (10) pelo Twitter, foi o primeiro alto funcionário dos Estados Unidos a visitar Bolsonaro após a eleição do brasileiro, em 2018. Na ocasião, ao ser recepcionado no Rio de Janeiro, Bolton foi recebido com o cumprimento militar pelo então presidente eleito. Depois, sentou-se a uma mesa sem toalha para comer pão francês com queijo servido em bandejas de isopor.

Ao justificar o motivo da demissão de Bolton, Trump afirmou que ele e sua equipe vinham tendo muitas desavenças com o assessor, conhecido por sua abordagem bélica em relação a países hostis, como o Irã e a Coreia do Norte. No caso do Irã, Trump seguiu a linha de Bolton, rompendo com o acordo nuclear firmado pelo seu antecessor, Barack Obama.

Mas o presidente americano almeja pressionar os iranianos para obter um "acordo melhor", enquanto Bolton preferiria derrubar os aiatolás de uma vez e colocar alguém mais dócil no lugar.

A estratégia para a Coreia do Norte tem sido ainda mais divergente. Apesar dos conselhos de Bolton, Trump aproximou-se do ditador Kim Jong-un e tenta uma saída negociada para interromper o programa nuclear da ditadura asiática.

Resta saber, agora, o que a demissão significará para o Brasil e para a América Latina. Bolton era visto como o homem que ressuscitou a doutrina Monroe, princípio adotado pelos Estados Unidos no século XIX segundo o qual o país se dava o direito de interferir nos assuntos da América Latina. Em resumo, a doutrina tornava um fato a máxima de que a região era o quintal dos americanos.

Em abril, Bolton chegou a dizer textualmente que "a doutrina Monroe está viva e muito bem".

Na prática, isso se refletia principalmente em uma postura de confrontação e sanções contra o regime chavista, na Venezuela (e também contra Cuba e Nicarágua, no que ele chama de trio da "tirania").

Trump, no entanto, tem motivos para não estar satisfeito com os resultados dessa estratégia na Venezuela. Ao contrário do que Bolton prometeu, o regime de Nicolás Maduro não caiu.

Com a saída do assessor da Casa Branca que mais almejava expandir o poder americano na América Latina, negligenciada no governo de Barack Obama, e que primeiro se empenhou em se aproximar do governo Bolsonaro, é de se perguntar se o brasileiro continuará tendo a atenção do presidente Trump de que tanto se vangloria.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.