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Diogo Schelp

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'Só a floresta não vai resolver nossos problemas climáticos', diz Merkel

Diogo Schelp

11/09/2019 13h42

Angela Merkel

A chanceler alemã Angela Merkel (Foto: Tobias Schwarz/Pool via Reuters)

A chanceler alemã Angela Merkel dedicou a maior parte do seu discurso anual, voltado para a apresentação do orçamento no parlamento, nesta quarta-feira (11), à política climática de seu governo. Seu gabinete prepara um grande pacote com medidas para reduzir as emissões dos gases causadores do aquecimento global. Ou seja, pelo tom do discurso de Merkel e pelo que está por vir, o tema é prioridade da Alemanha. "Eu entendo a proteção do clima como um desafio de toda a humanidade", disse Merkel.

Trata-se de uma constatação para a qual o governo brasileiro deve ficar atento por um motivo básico. Merkel é uma das maiores fiadoras do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, mas a questão ambiental está no centro das críticas que são feitas ao acordo na Europa e, em particular, na Alemanha.

Ao prometer grandes gastos com o dinheiro dos contribuintes alemães para adequar a matriz energética e a produção industrial alemã aos novos tempos de combate ao aquecimento global, ela será cobrada internamente para exigir o mesmo de outros países — e isso inclui, obviamente, o Brasil, que tem dominado, negativamente, o noticiário ambiental da Alemanha nas últimas semanas por causa das queimadas na Amazônia.

COMPROMISSO HISTÓRICO

Merkel assumiu, em seu discurso, que nações industrializadas como a Alemanha têm uma dívida histórica com a questão climática, por causa da intensa emissão de gases do efeito estufa nas últimas décadas. Não importa que a Alemanha, segundo Merkel, seja responsável "por apenas 2% das emissões". Isso não justifica deixar para outros países o compromisso de reduzi-las. Merkel quer que a Alemanha esteja na vanguarda das mudanças. E ela quer fazer isso com investimento em inovação e pesquisa.

Merkel apontou o dedo para a indústria automobilística, que, apesar dos avanços tecnológicos para tornar seus carros mais ecológicos, acabou não conseguindo reduzir, em números absolutos, as emissões de gases do efeito estufa nos últimos anos.

A chanceler alemã vê a necessidade de mudança radical nos paradigmas de energia e transporte. E avisou que os planos que seu governo pretende apresentar no próximo dia 20 de setembro vão custar caro. "Se quisermos avançar na proteção climática, isso vai custar dinheiro, e será um dinheiro bem empregado. Se nós a ignorarmos, estou convencida de que vai nos custar ainda mais dinheiro."

BRASIL NAS ENTRELINHAS

Em seu discurso no parlamento, Merkel não mencionou o Brasil diretamente, mas falou que seus ministros vão trabalhar para ajudar outros países a também adotarem medidas contra o aquecimento global. Isso incluirá a transferência de tecnologia para outros países.

Sobre a proteção das florestas, Merkel falou de maneira geral, sem citar a Amazônia e as recentes polêmicas internacionais em que o governo brasileiro se viu metido. "A floresta, sozinha, não vai resolver nossos problemas climáticos", disse Merkel. "Mas a destruição ou danos de grandes proporções da floresta nos colocariam na direção errada da proteção do clima." A menção contém, nas entrelinhas, uma referência ao Brasil, mas também é uma resposta direta aos problemas que a Alemanha está enfrentando neste verão especialmente seco, o que tem causado um grande impacto nas florestas alemãs.

Em seu discurso, Merkel demonstrou estar disposta a assumir a defesa do meio ambiente e do combate às mudanças climáticas como temas de interesse global pelos quais a Alemanha tem o dever de lutar — começando dentro de casa, para dar o exemplo para o mundo.

Ao equilibrar idealismo com pragmatismo, compromisso interno com estímulo externo, Merkel demonstra que a melhor estratégia para o governo de Jair Bolsonaro é tê-la como aliada — o que é bom tanto para a economia, quanto para o meio ambiente do Brasil. Com seu equilíbrio saudável, o discurso de Merkel pode servir de norte para o Brasil limpar sua imagem ambiental no exterior.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.