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Diogo Schelp

Diogo Schelp

Ocidente alimentou guerra no Iêmen e agora paga o preço no petróleo

Diogo Schelp

16/09/2019 12h15

Médicos da ong Crescente Vermelho carregam corpo de vítima de ataque aéreo da Arábia Saudita em Dhamar, no Iêmen, no dia 1º de setembro (Foto: Mohamed al-Sayaghi/Reuters)

Subitamente, as potências internacionais levantam suas vozes indignadas contra o bombardeio de instalações petrolíferas na Arábia Saudita que derrubou pela metade a produção do país e fez o preço do petróleo disparar. Mas era evidente que mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer. Afinal, a Arábia Saudita vem bombardeando o Iêmen — de onde foram enviados os drones usados nos ataques do fim de semana — há quatro anos, com a ajuda dos Emirados Árabes Unidos e com armamentos fornecidos por americanos e ingleses.

A guerra civil no Iêmen, um pequeno e miserável país na Península Arábica, foi durante esses anos um conflito invisível, ofuscado pelo caos da Síria, cujos impactos no Ocidente eram muito mais diretos, por causa do intenso fluxo de refugiados que de lá partia rumo à Europa.

Trata-se, porém, de um desses desastres humanitários que mereceriam toda a atenção da comunidade internacional. Estima-se que 85.000 crianças já morreram de fome e de doenças banais por causa do conflito. As cenas de meninos e meninas esquálidos lembram as de Biafra, no século passado, ou as dos hospitais venezuelanos da atualidade.

Oito em cada dez habitantes do país precisam urgentemente de ajuda externa para sobreviver. Mas a ajuda não chega. E, quando chega, é distribuída de maneira desigual, favorecendo certos grupos populacionais em detrimento de outros.

SAUDITAS X IRANIANOS

O pano de fundo da guerra no Iêmen, como revelam as declarações do presidente Donald Trump atribuindo os ataques na Arábia Saudita ao Irã, é justamente a rivalidade e a disputa de poder entre esses dois inimigos mortais: a monarquia sunita árabe e a teocracia xiita persa. Sauditas e iranianos promovem uma guerra por procuração no Iêmen, com o Irã apoiando os rebeldes xiitas hutis do norte do país e a Arábia Saudita dando suporte às forças do sul.

Não é de hoje que os hutis usam drones para bombardear alvos estratégicos na Arábia Saudita, em retaliação aos ataques no Iêmen. O Irã nega estar por trás desses bombardeios, mas o acesso dos rebeldes xiitas à tecnologia de veículos aéreos não tripulados é visto como uma prova de que os aiatolás dão, sim, ajuda aos iemenitas.

Do lado saudita, destaca-se a participação das potências ocidentais no conflito. O governo britânico, por exemplo, é bastante criticado por assumir uma posição dúbia, de um lado dando consultoria militar e vendendo armas para os sauditas e, de outro, atuando nas frustradas tentativas de negociar um acordo de paz.

Quando era ministro de Relações Exteriores, o atual premiê Boris Johnson recomendou a venda de peças para bombas que seriam usadas em ataques sauditas no Iêmen. Em junho, um tribunal britânico julgou ilegal a venda de armas para a Arábia Saudita.

AL QAEDA

Os Estados Unidos também estão nessa. Em 2018, foram encontrados fragmentos de bombas americanas em locais bombardeados pelos sauditas no Iêmen. Mais do que isso, os sauditas repassaram para milícias iemenitas armas que acabaram nas mãos de uma ramo da Al Qaeda, o grupo terrorista que realizou os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.

Ou seja, os Estados Unidos não apenas fornecem equipamentos que são usados para bombardear alvos civis no Iêmen, como entregaram armas que vão parar nas mãos erradas.

Depois de alimentar um conflito em um país miserável, o Ocidente agora colhe os prejuízos com a alta no preço do petróleo. Sempre o petróleo.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.