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Diogo Schelp

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Para escapar da cadeia, Netanyahu promoveu campanha do medo

Diogo Schelp

17/09/2019 17h16

O premiê israelense Benjamin Netanyahu (Foto: Ronen Zvulun/AFP)

As pesquisas de boca de urna nas eleições desta terça-feira (17), em Israel, indicam que o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não conseguiu a maioria de que necessita para governar. Seu partido, Likud, e outras legendas aliadas precisariam ter obtido 61 cadeiras no parlamento, o Knesset. Uma das enquetes com maior índice de acerto em eleições passadas aponta que ele só conseguiu 54 cadeiras.

A coalizão oposicionista de centro-esquerda Azul e Branco teria conseguido 58 cadeiras. Ou seja, em se confirmando os números, a política israelense tem pela frente mais uma fase de impasses e difíceis negociações para a formação de um governo.

Outra pesquisa identificou um número maior de cadeiras para o grupo de Netanyahu (57, contra 55 do Azul e Branco). Ainda assim, é insuficiente para que Netanyahu consiga formar uma coalizão para governar.

Ele precisaria trazer para o seu lado o partido do nacionalista secular Avigdor Liberman, um ex-aliado que rompeu com Netanyahu por sua aproximação com a extrema direita religiosa. 

PROMESSAS RADICAIS

Benjamin Netanyahu estava desesperado por uma vitória que lhe desse uma maioria tranquila no parlamento. Para isso, apelou para os setores mais conservadores do eleitorado, chegando a prometer a anexação de cerca de 30% da Cisjordânia, um território palestino.

Netanyahu, o primeiro-ministro que mais tempo permaneceu no cargo em Israel, também esforçou-se para alimentar, entre os eleitores judeus, o medo de que os árabes de Israel pudessem dominar a política e portanto os rumos do país.

A eleição desta semana foi a segunda em cinco meses. Na primeira, em abril, Netanyahu não conseguiu maioria, segundo ele porque foi "roubada" pelos árabes-israelenses. Em sua página oficial no Facebook, foi publicado um post dizendo que "os árabes querem aniquilar a todos nós: mulheres, crianças e homens". Diatribes de algum estagiário? Foi o que ele alegou depois.

Enquanto as urnas ainda estavam abertas nesta terça-feira (17), Bibi, como o premiê é conhecido em Israel, pegou o megafone e foi à praia em Tel Aviv e à estação central de ônibus de Jerusalém para conclamar os eleitores a irem votar, com o argumento de que a Autoridade Palestina estava fazendo o mesmo com os árabes-israelenses, com o objetivo de "derrubá-lo".

Os árabes-israelenses, ao contrário dos palestinos que vivem na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, são cidadãos de Israel, representando nada menos do que 21% da população do país. Israel é um Estado judeu, mas como tal, e por ser uma democracia, tem responsabilidade pelas minorias não judaicas. Um primeiro-ministro deve governar para todos os israelenses, sejam eles judeus, muçulmanos, cristãos ou drusos.

Numericamente, é um disparate imaginar que os políticos árabes possam dominar a política isralense. Mas eles podem, sim, fazer a diferença ao compor coalizões.

MEDO DO XADREZ

Enquanto pintava um cenário apocalíptico para a crescente participação árabe na política, Bibi na realidade estava com medo de outra coisa: de perder as eleições e ter de responder aos processos de corrupção que vêm se avolumando desde 2016.

Ele já tinha até uma lei que lhe daria imunidade enquanto ocupasse o cargo pronta para ser votada no parlamento.

A lei teria que ser aprovada rapidamente, pois já daqui a duas semanas, no dia 2 de outubro, Bibi tem um audiência de pré-indiciamento marcada em um tribunal. Em fevereiro, o procurador-geral Avichai Mendelblit anunciou que pretendia denunciá-lo por fraude, por aceitar propina e por quebra de confiança em três casos distintos. 

São os chamados casos 1000, 2000 e 4000. No caso 1000, Bibi é acusado de ter recebido presentes caros de empresários bilionários, incluindo charutos, bebidas e joias para sua mulher Sara.

Nos casos 2000 e 4000, Netanyahu é suspeito de ter negociado coberturas jornalísticas positivas para ele e para o seu governo em troca de medidas que favoreciam os negócios dos donos dos veículos de comunicação envolvidos.

Vale lembrar que o ex-premiê Ehud Olmert cumpriu um ano e quatro meses de prisão por aceitar algumas centenas de milhares de dólares em propinas na época em que era prefeito de Jerusalém. Sim, em Israel ex-governantes também pegam cana por corrupção.

Eis por que Bibi estava tão desesperado para ganhar essas eleições. Em vez de uma vitória, porém, colheu um esvaziamento ainda maior de seu apoio no parlamento. Pode ser o fim, tantas vezes em vão anunciado, da longa era Bibi.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.