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Diogo Schelp

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Salário mínimo na Venezuela não alimenta família nem por um dia, diz estudo

Diogo Schelp

18/09/2019 12h03

Venezuela

Venezuelana protesta contra falta de comida (Foto: Frederico Parra/AFP)

O custo da cesta básica na Venezuela aumentou 51,5% entre julho e agosto, mês em que representou 62 vezes o valor do salário mínimo mensal no país (que é de 40.000 bolívares), segundo estudo divulgado nesta quarta-feira (18) pelo Cenda (Centro de Documentação e Análise para os Trabalhadores), organização civil sem fins lucrativos fundada em 1976, com sede em Caracas. Ou seja, são necessários mais de dois salários mínimos para suprir as necessidades alimentares de uma família venezuelana por um único dia.

O salário mínimo venezuelano equivale a 1,95 dólares POR MÊS. A recomendação internacional do Banco Mundial é de que seja de no mínimo 1,90 dólares POR DIA.

Os venezuelanos que dependem do salário mínimo tentam sobreviver catando comida no lixo e recorrendo a cestas básicas distribuídas pelo governo a um custo simbólico, com a condição de se manterem submissos ao regime chavista.

Isso significa não participar de manifestações contra o ditador Nicolás Maduro, por exemplo. A distribuição das cestas, chamadas de Clap, obedece a um rígido controle de delegados de bairro chavistas que possuem uma lista dos beneficiários e sabem o que cada um está fazendo.

CHANTAGEM PELO ESTÔMAGO

Segundo levantamento da consultoria Datanálisis, sete em cada dez venezuelanos dependem da Clap e de outros subsídios para sobreviver (mal). Quanto mais o bolívar perde seu valor, mais as famílias dependem da ajuda do governo e, com isso, a disposição da população de protestar caiu em 20% nos últimos meses, segundo a pesquisa da Datanálisis.

E que ninguém venha dizer que isso é culpa das sanções americanas contra o petróleo venezuelano, pois o desabastecimento de comida e a inflação galopante vem de muito antes, começando ainda no governo do presidente Hugo Chávez, falecido em 2013. As cestas Clap foram instituídas em 2016.

A ditadura venezuelana usa o alívio efêmero da fome como chantagem política.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.