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Na diplomacia, Bolsonaro liga sua imagem à de líderes em apuros

Diogo Schelp

25/09/2019 14h05

Trump e Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas (Foto: Divulgação/PR)

O discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura oficial da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na terça-feira (24) demonstrou com clareza a sintonia ideológica entre o seu governo e o do presidente americano Donald Trump e o de outros líderes políticos mundiais.

Essa ideologia pode ser resumida em um único conceito, o isolacionismo, expresso no trecho final em que Bolsonaro disse que não deveriam existir "interesses globais", apenas interesses nacionais. Ou seja, o isolacionismo de Bolsonaro caracteriza-se pelo nacionalismo, pelas relações diretas entre países sem a mediação de instituições internacionais e pela reação às rápidas mudanças culturais e comportamentais que vêm ocorrendo em um mundo cada vez mais interconectado (que os isolacionistas chamam de "ditadura do politicamente correto" ou "marxismo cultural").

Pode-se falar em uma paradoxal "internacional antiglobalista", que reúne líderes como Trump, Bolsonaro, o britânico Boris Johnson, o húngaro Viktor Orbán, o italiano Matteo Salvini, o austríaco Heinz-Christian Strache e o premiê israelense Benjamin Netanyahu (este mais por oportunismo político do que por qualquer outra coisa).

Acontece que esse time está minguando, enfraquecido por escândalos de corrupção, abuso de poder ou pura incompetência. Veja na lista abaixo as baixas e as agruras na liderança da tal internacional antiglobalista:

  • Heinz-Christian Strache — Em 2017, o técnico dentário levou um partido de extrema direita ao poder na Áustria, pela primeira vez desde o fim do nazismo, ocupando o cargo de vice-premiê. Foi obrigado a renunciar em maio deste ano depois de ser filmado oferecendo contratos públicos em troca de apoio político a uma mulher que se fez passar por parente de um oligarca russo;
  • Matteo Salvini — O líder do partido italiano de extrema direita e anti-Europa A Liga foi vice-premiê desde 2018, até ser expelido do cargo este mês em uma disputa com o movimento de centro-esquerda do primeiro-ministro Giuseppe Conte. Antes, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) visitou a Itália e posou em vídeo com Salvini, como se fossem velhos amigos. Ainda é cedo para decretar a morte política do italiano, mas, por ora, seu projeto de poder fracassou;
  • Benjamin Netanyahu — Jair Bolsonaro incluiu uma ode à amizade com o governo israelense em discurso na ONU, mas o fato é que Bibi, como o premiê de Israel é chamado, se agarra com grande dificuldade ao poder. Em eleições realizadas na semana passada, sua coalizão de partidos obteve menos cadeiras do que a do rival, Benny Gantz. Eles disputam agora o direito de ser o primeiro a tentar compor um governo de unidade que inclua os dois grupos. Netanyahu está no jogo, portanto, e não se deve nunca subestimar seu instinto de sobrevivência, mas a votação revelou seu paulatino desgaste político e que ele não é mais considerado indispensável pelos eleitores;
  • Boris Johnson — O primeiro-ministro conservador que pegou o bastão do poder das mãos de Theresa May em julho deste ano, com a promessa de promover uma saída não negociada da União Europeia, só colecionou derrotas no parlamento até agora. Na terça-feira (24), foi derrotado também na Suprema Corte, que julgou ilegal a suspensão do parlamento determinada em agosto por Johnson. Os parlamentares voltaram ao trabalho nesta quarta-feira (25) e podem tentar votar pela saída de Johnson do cargo. O premiê aposta na convocação de novas eleições, porque seu adversário, o trabalhista Jeremy Corbin, é ainda mais impopular, mas dificilmente o parlamento concordará com essa manobra. Enquanto segue o impasse, Johnson mal consegue governar;
  • Viktor Orbán — Primeiro-ministro da Hungria desde 2010, Orbán enfrenta um processo do Parlamento Europeu por "violação grave" dos princípios democráticos. Não se trata apenas de um ato simbólico: a Alemanha e a França já avisaram que a Hungria pode perder ou ver reduzido o apoio financeiro da UE, que representa 2,5% do PIB do país;
  • Donald Trump — Como antecipou este blog, um novo escândalo tem potencial muito mais danoso para Trump do que o Russiagate, sobre o conluio com os russos nas eleições de 2016. Desta vez, já está comprovado em uma transcrição divulgada pela própria Casa Branca que Trump ligou para o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky para lhe pedir que investigasse seu principal adversário eleitoral, o democrata Joe Biden, e as atividades profissionais de seu filho, Hunter Biden, na Ucrânia. Para piorar, Trump havia suspendido, dias antes do telefonema, uma ajuda militar de centenas de milhões de dólares dos Estados Unidos para a Ucrânia, que só foi retomada dois meses depois de ele falar com Zelensky. Ou seja, Trump pode ter usado o dinheiro do contribuinte (ajuda militar) para pressionar um governo estrangeiro (da Ucrânia) a destruir politicamente um adversário político (Joe Biden). A líder democrata na Câmara dos Representantes americana, Nancy Pelosi, não teve outra opção a não ser dar os primeiros passos para a abertura de um processo de impeachment contra Trump. É muito difícil que o impeachment vá adiante, principalmente porque o Senado é controlado pelo Partido Republicano. Além disso, todo presidente incumbente sai em vantagem numa corrida presidencial, entre outros motivos porque fica praticamente livre de primárias concorridas. Mas o fato é que, nas principais pesquisas de intenção de voto, Joe Biden está à frente de Trump. O escândalo Ucrâniagate pode atrapalhar ainda mais o presidente americano.

As coisas não estão boas para a turma da internacional antiglobalista. Por quanto tempo esse projeto isolacionista vai durar?

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.