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Se não há nada errado no pedido à Ucrânia, por que Trump tentou ocultá-lo?

Diogo Schelp

26/09/2019 16h10

Trump fala a jornalistas na base Andrews (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)

Os defensores do presidente americano Donald Trump — e o próprio, claro — dizem que não há nada de mais na conversa telefônica em que ele pede ao colega ucraniano que investigue o pré-candidato à presidência Joe Biden e seu filho, Hunter Biden, por supostos crimes cometidos quando o democrata era vice-presidente dos Estados Unidos, na gestão de Barack Obama.

Na terça-feira (24), para provar seu argumento, Trump autorizou a divulgação de uma versão editada da transcrição de sua conversa com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, em 25 de julho deste ano.

Mas esse lapso de transparência só ocorreu depois que o assunto e o teor da conversa já tinham vindo a público por meio de reportagens sobre uma denúncia feita internamente por um funcionário de inteligência do governo americano, cujo nome ainda não foi revelado.

A íntegra da denúncia foi divulgada nesta quinta-feira (26), depois que os primeiros passos de um processo de impeachment contra Trump foram iniciados na Câmara dos Representantes.

Nela, além do relato de fatos que o denunciante qualifica como "interferência, entre outras coisas, para pressionar um país estrangeiro a investigar um dos principais adversários políticos domésticos do presidente", há também informações sobre as iniciativas da Casa Branca para evitar que o conteúdo da conversa de Trump com Zelensky viesse a público.

Com esse intuito, segundo a denúncia, a transcrição eletrônica da conversa foi removida do sistema de computadores onde esse tipo de conteúdo costuma ser armazenado e direcionada para outro sistema eletrônico, reservado para documentos sensíveis e classificados.

São considerados "sensíveis" documentos cujos dados podem representar riscos, por exemplo, à segurança nacional.

O que a denúncia sugere, porém, é que a transcrição era sensível apenas para os interesses políticos do presidente.

Esses são os dois pontos centrais a serem esclarecidos nas investigações que se iniciarão agora na Câmara dos Representantes: 1) se a suspensão de uma ajuda militar de mais de 300 milhões de dólares para a Ucrânia, dias antes do telefonema entre Trump e Zelensky, foi uma tentativa de pressionar o ucraniano a investigar Biden; 2) se Trump, ciente da gravidade de seu ato, tentou encobrir o teor da conversa.

Se a resposta for sim para as duas questões, ficará evidente que Trump abusou do cargo em proveito eleitoral próprio.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.