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Quando a obstinação dos governantes passa do limite

Diogo Schelp

30/09/2019 15h34

Bolsonaro e Trump

Tudo certo, nada resolvido: os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump (Foto: Twitter/ Divulgação)

Obstinação, tenacidade, persistência. Não se pode esperar do líder de uma nação outra coisa que não seja a busca incansável por atingir seus objetivos. Um governante inconstante, que não sabe o que quer e vacila em suas ações evidentemente tem tudo para fracassar e levar seu país a lugar algum.

O problema é quando a obstinação se transforma em obsessão. Ou seja, quando ela deixa de ser a teimosia saudável que serve para trazer avanços concretos para a população e passa a ser uma preocupação irracional com algo que sequer é tão relevante para solucionar os grandes problemas nacionais.

Ou, então, quando à frente de objetivos que beneficiam a nação como um todo são colocados os interesses pessoais do líder.

Ou, ainda, quando no lugar de metas, o que se perseguem são pessoas.

Esta semana, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos dará prosseguimento às investigações para a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Donald Trump, suspeito de ter pressionado um governante de outro país a produzir informações danosas a um adversário político.

A mais recente encrenca em que se meteu Trump é fruto de uma obsessão.

Ideia fixa

Thomas Bossert, ex-conselheiro de Segurança Interna de Trump, revelou neste domingo (29), em entrevista a um canal de TV, que desde o início do governo, há quase três anos, o presidente manifesta uma crença profunda em uma teoria da conspiração segundo a qual a verdadeira interferência nas eleições presidenciais de 2016 — na qual ele foi vitorioso — foi a da Ucrânia em favor dos democratas, e não a da Rússia em seu favor.

De nada adiantavam os esforços de Bossert e outros assessores em explicar para o presidente, com fatos e material de inteligência, que a tese não tinha sustentação. Trump simplesmente se recusava a escutá-los, preferindo os conselhos de pessoas de fora da administração, como o seu advogado e ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani.

Pois descobriu-se este mês que Trump continua obcecado com as relações entre a Ucrânia e os democratas, a ponto de ter solicitado, em telefonema realizado no último dia 25 de julho, ao recém-empossado presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que mandasse investigar as ligações profissionais de Hunter Biden, filho do pré-candidato democrata à presidência Joe Biden, com uma empresa de gás natural do país.

Peso da obsessão

Suspeita-se que Trump tenha usado uma ajuda militar de mais de 300 milhões de dólares como incentivo para que o governo ucraniano o ajudasse a conseguir informações prejudiciais a Biden, um de seus adversários potenciais para as eleições de 2020.

Isso configuraria abuso de poder e quebra de confiança. Não é por outro motivo que a Câmara dos Representantes, que tem a maioria das cadeiras ocupadas por democratas, decidiu investigar o caso. É possível que ainda esta semana o autor da denúncia que originou o escândalo ucraniano seja ouvido em uma comissão da Câmara.

Muita água ainda precisa rolar, no entanto, para que a nau do impeachment avance.

O que fica de lição, por enquanto, é que se Trump afundar, será pelo peso da obsessão.

Nos trópicos

Nós aqui nos trópicos também temos um presidente obcecado. Seus apoiadores dirão que o que ele tem é aquela obstinação positiva de que falei no começo desse artigo.

Mas isso cai por terra se analisarmos os temas mais recorrentes nas falas e ações do presidente. Bolsonaro tem deixado o gerenciamento da economia a cargo do ministro Paulo Guedes, intrometendo-se apenas pontualmente quando algo parece indigesto para sua base eleitoral, e mal se envolveu na articulação para o andamento da reforma da Previdência, que o Congresso abraçou meio que por inércia.

Seu empenho se faz mais evidente em temas como a liberação das armas ou em medidas calculadas para prejudicar as fontes de recurso para a imprensa.

O caso das armas é um exemplo de obsessão, pois tem dois ingredientes essenciais: é um tema com o qual o presidente tem uma relação pessoal (ele é um entusiasta do tiro) e é uma solução micro (o direito à defesa pessoal) para um problema macro (a alta criminalidade do país).

Pode-se discutir se o Estado pode ou não tirar do cidadão o direito de possuir e portar armas, mas o fato é que essa medida não irá diminuir os índices de criminalidade.

Se estivesse comprovado que essa relação de causa e efeito existe, mesmo, até seria possível falar em obstinação.

Mas não passa de um obsessão irracional, pois a preocupação com o assunto é desproporcional ao seus supostos benefícios como política pública.

Fantasma da Guerra Fria

O mesmo vale para a referência ao socialismo como o grande fantasma a ser combatido na atualidade — tema que permeou o discurso de Bolsonaro na ONU.

O socialismo não passa disso, mesmo: um fantasma, que de resto está morto e enterrado.

Nem a Venezuela pode ser considerada um sistema socialista: setores estratégicos foram estatizados e os militares controlam o setor de abastecimento, mas pergunte aos venezuelanos sobre a boliburguesia, a elite empresarial que fatura alto no país graças aos contatos e as parcerias com funcionários do governo.

Mais uma vez, o que Bolsonaro demostra é uma preocupação irracional por um fenômeno deslocado da realidade. Trata-se, portanto, de uma obsessão.

A obsessão encontra terreno fértil na mente de lideranças que têm dificuldade de escutar o contraditório.

Um líder obstinado, quando escuta uma crítica ou recebe uma informação que desmente suas convicções, reformula seus métodos e soluções sem perder de vista as prioridades.

Já o líder obcecado, quando confrontado com um fato que contraria suas crenças preestabelecidas, demite o mensageiro.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.