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Caso que motivou processo de impeachment contra Trump ganha novo informante

Diogo Schelp

06/10/2019 12h56

O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, com Donald Trump, em setembro (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)

O advogado do (ou da) informante que primeiro denunciou a tentativa do presidente americano Donald Trump de convencer o governo ucraniano a produzir informações comprometedores sobre um de seus principais adversários políticos, o democrata Joe Biden, informou neste domingo (6) que representa um segundo informante com conhecimento sobre o caso.

O novo informante (que, assim, como o primeiro, não se sabe se é homem ou mulher) também é funcionário do setor de inteligência do governo americano.

A primeira denúncia foi feita pelos canais internos da burocracia dos Estados Unidos no último dia 12 de agosto e foi revelada pela imprensa americana no mês passado. Desde então, a Câmara dos Representantes deu início às investigações para um processo de impeachment de Donald Trump por abuso do poder do cargo em benefício eleitoral próprio.

As investigações dos deputados têm tudo para ganhar força com a existência de um segundo informante capaz de confirmar o teor das conversas de Trump com o presidente ucraniano Volodimir Zelenski em 25 de julho ou, o que é ainda mais importante, acrescentar informações que esclareçam se o americano usou a suspensão de uma ajuda militar de quase 400 milhões de dólares para pressionar a Ucrânia a investigar Biden.

Na última quinta-feira (3), a comissão de inteligência que investiga o caso ouviu o depoimento de diplomatas que revelaram seis páginas de trocas de mensagens de celular com novos detalhes sobre o interesse de Trump em uma investigação ucraniana a respeito dos negócios do filho de Biden, Hunter Biden, no país do Leste Europeu.

Trump fala a jornalistas na base Andrews (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)

A chance de Trump perder o cargo por impeachment é mínima, pois seu partido, o Republicano, detém a maioria das cadeiras no Senado. Mas, conforme as investigações avançam, as atitudes nada republicanas nos bastidores da Casa Branca tornam-se públicas e passam a dominar o debate político nos Estados Unidos a pouco mais de um ano das eleições presidenciais em que Trump disputará um novo mandato.

O impacto que o processo de impeachment pode ter nas eleições depende do rumo que o escândalo que o motivou vai tomar. Se predominar a questão do uso indevido do cargo presidencial para fins eleitorais, tende a prejudicar Trump. Se, no entanto, tiver como efeito colateral a revelação de novos detalhes sobre a atuação de Biden em relação à Ucrânia na época em que era vice-presidente, na gestão de Barack Obama, evidentemente afetará as chances do democrata vencer as prévias para disputar as eleições.

Quem acompanha de perto o desenrolar dessa história toda é a pré-candidata democrata Elizabeth Warren. Se a candidatura de Biden murchar, ela toma a dianteira. Afinal, o terceiro pré-candidato mais forte do Partido Democrata é Bernie Sanders, que na semana passada sofreu um infarto agudo do miocárdio. Apesar de já ter recebido alta, seu estado de saúde pode atrapalhar a campanha.

Sanders

Bernie Sanders, pré-candidato democrata à presidência dos Estados Unidos (Foto: Mark Makela/AFP)

Boa parte dos votos de Sanders tende a ir para Warren, que está dois pontos percentuais atrás de Biden nas pesquisas de intenção de voto para as primárias.

Para Warren, o melhor cenário é que o processo de impeachment seja nocivo tanto para Trump quanto para Biden.

Grandes emoções na pré-campanha eleitoral americana.

 

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.