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Bolsonaro e Fernandez: o início de uma relação 'bate e assopra'?

Diogo Schelp

28/10/2019 17h42

Alberto Fernandez

Alberto Fernandez, presidente eleito da Argentina, faz o sinal "Lula livre" em foto publicada no Twitter, no domingo (Reprodução)

De Riade, na Arábia Saudita*

Talvez por estar sendo tão bem tratado nos países árabes, quiçá por já ter se deixado influenciar pela maneira mansa dos sauditas falarem ou quem sabe por estar empolgado com o banquete que o príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman lhe proporcionaria momentos mais tarde, o fato é que o presidente Jair Bolsonaro chegou à Arábia Saudita, nesta segunda-feira (28), dando declarações mais tranquilas e comedidas do que de costume.

Depois de dizer, ainda no Catar, que não cumprimentaria o argentino Alberto Fernández pela vitória nas eleições presidenciais de domingo (27), Bolsonaro inspirou o ar seco de Riade, a capital saudita, e disse que não quer "fazer juízo de forma precipitada" sobre o futuro ocupante da Casa Rosada.

"Há trinta e poucos dias quando houve uma prévia na Argentina, o que se viu foi saque em banco e compra de dólares. Nós vamos sentir nos próximos dias como o mercado, os investidores, os grandes empresários vão reagir na Argentina. Espero que eu esteja equivocado naquilo que eu penso."

Bolsonaro lembrou que os petistas comemoraram a eleição de Cristina Kirchner como vice na chapa de Fernández, pela relação dela com os governos bolivarianos da era Chávez-Lula, mas minimizou o conflito com o presidente recém-eleito. "A bola está com eles", disse Bolsonaro, completando: "De nossa parte, tudo normal."

Poucas horas antes, ele havia reagido de maneira ríspida a uma foto postada no Twitter em que Fernández, cercado de apoiadores, justamente no dia do segundo turno das eleições argentinas, faz a letra "L" com os dedos. Não, Fernández não trocou o tradicional "V" de vitória pelo "L" de looser (em inglês, "perdedor". Era "L" de "Lula livre", mesmo.

Provocação a Bolsonaro? Evidente que sim. E o brasileiro revidou dizendo que Fernández estava "afrontando o Brasil de graça".

Não é de interesse de nenhum dos dois, e muito menos dos cidadãos brasileiros e argentinos, que Bolsonaro e Fernández continuem se espezinhando. Não se trata apenas do futuro das relações entre os dois países, mas também de ambos com o resto do mundo. E isso inclui o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a Europa, negociado com tanto suor ao longo de anos.

Bolsonaro e Fernández têm dado, cada um a seu modo, suas próprias contribuições para colocar em risco a entrada em vigor desse acordo. Com sua política ambiental, brasileiro deu munição para que os protecionistas da Europa torpedeassem o negócio. Já o argentino ameaçou cancelar de vez o trato com os europeus.

Agora, a ameaça vem em dupla, pois o Mercosul não existe se Brasil e Argentina estiverem em desarranjo, com os presidentes ora batendo-se, ora assoprando-se mutuamente.

É hora de fazer como os sauditas e baixar o tom — mesmo que por dentro estejam se remoendo de raiva.

 

* Viagem a convite do governo da Arábia Saudita.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.