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Arábia Saudita desenvolve teste genético para casamento arranjado

Diogo Schelp

06/11/2019 04h00

Genoma

Pesquisadora apresenta laboratório do Programa do Genoma Humano Saudita (Foto: Diogo Schelp/UOL)

Na Arábia Saudita, as mulheres não têm o direito de decidir com quem vão se casar. A escolha do marido depende sempre do consentimento de um homem da família, geralmente o pai. Essa regra alimenta uma prática recorrente no país: o casamento entre parentes. Pelo menos quatro em cada dez sauditas casam-se com familiares, principalmente primos.

Como resultado, a Arábia Saudita tem uma das maiores incidências de doenças congênitas do mundo. Estima-se que 8% da população nasce com alguma doença de origem genética, enquanto na média mundial a proporção é de 5%. O custo anual dessas doenças para o sistema de saúde saudita é de 27 bilhões de dólares.

Para conter esse fenômeno, há mais de uma década o governo saudita exige que os casais façam um teste para algumas doenças genéticas do sangue, como anemia falciforme e talassemia, e também para doenças infecciosas para garantir o que as autoridades chamam de "famílias saudáveis". Um estudo realizado em 2011 mostrou que 60% dos casais que descobriram possuir um alto risco de conceber bebês com essas enfermidades decidiram cancelar o casamento.

Agora, o governo saudita está dando um passo além para oferecer um teste genético pré-marital completo. Para isso, financia um projeto de mapeamento do genoma da população saudita com o objetivo de encontrar as mutações responsáveis pelas doenças congênitas mais comuns no país.

No Centro Nacional de Tecnologia do Genoma, em Riade, capital do país, já foram sequenciados e armazenados os genomas de 50.000 sauditas e identificadas 4.000 alterações genéticas específicas da população local. O pesquisador Mohammed A Bakhrebak diz que o projeto pretende mapear a constituição genética de outros 50.000 habitantes nos próximos anos, enquanto desenvolve um teste pré-marital para 500 doenças congênitas.

O objetivo é, com uma simples gota de sangue coletada, aplicar o teste para determinar o risco de um casal conceber uma criança com uma ou mais dessas doenças.

Em última instância, o governo quer desestimular os casamentos consanguíneos. Como demonstra a experiência com os testes pré-maritais mais simples já existentes, porém, cerca de um terço dos casais ignora os riscos genéticos e segue com o planos de se casar e ter filhos. O problema disso é que, em muitos casos, a decisão de manter os casamentos é das famílias, não dos noivos.

Organizações de direitos humanos como a Human Rights Watch pressionam pelo direito de as mulheres sauditas poderem escolher com quem querem se casar sem precisar da autorização dos pais ou dos irmãos.

Acabar com os casamentos arranjados pode não ser o bastante para reduzir a prática das uniões consanguíneas, mas seria um bom começo.

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Pesquisador em laboratório do Programa Saudita de Genoma Humano, em Riade (Foto: Diogo Schelp/UOL)

 

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.