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Bolívia não passa no teste da alternância de poder desde 2003

Diogo Schelp

11/11/2019 11h45

Polícia - Bolívia

Antes de renunciar, Evo Morales enfrentou rebelião na polícia (Foto: AIZAR RALDES/AFP)

A simples realização de eleições nunca foi um bom critério para definir se um país é uma democracia ou não. Há outros mais confiáveis, como o grau de liberdade para a contestação das políticas públicas. Há, também, o teste da alternância de poder — ou seja, se de tempos em tempos um grupo político é substituído por outro, sem sobressaltos.

A Bolívia não passa nesse teste. A última vez que um presidente eleito completou o cargo e transferiu-o para outro político eleito foi em 1997. Eleito em 1993, Gonzalo Sánchez de Lozada entregou o poder para Hugo Banzer, que já havia ocupado o posto como ditador na década de 70.

Banzer renunciou em agosto de 2001 por motivos de saúde. Seu vice, Jorge Quiroga, assumiu pelos onze meses seguintes.

Eleito para um novo mandato, Gonzalo Sánchez de Lozada assumiu em 2002 e renunciou um ano depois em meio a uma onda de protestos e greves pela nacionalização da exploração de gás natural. Assumiu o seu vice, Carlos Mesa (o adversário de Evo Morales nas eleições deste ano).

Mesa renunciou em 2005, também por causa da questão do gás natural, e em seu lugar ficou Eduardo Rodríguez, que era presidente da Corte Suprema de Justiça.

Por trás dos protestos que derrubaram Sánchez e Mesa estava o líder cocaleiro Evo Morales.

Em janeiro de 2006, Rodríguez transmitiu o cargo para Evo Morales, que havia vencido a eleição presidencial no ano anterior.

A presidência de Evo Morales, apesar de inúmeros problemas e de acusações de relações com o narcotráfico, foi a de maior estabilidade política para os padrões bolivianos. Tinha tudo para terminar com tranquilidade, com uma transferência pacífica de poder.

Mas Morales apegou-se ao cargo e passou por cima da Constituição e do resultado de um referendo popular para poder se candidatar para um quarto mandato consecutivo.

Quando ficou claro que podia ser derrotado no segundo turno para Carlos Mesa, apelou para a fraude eleitoral, como comprovou a investigação feita pela OEA (Organização dos Estados Americanos).

A oposição reagiu, aproveitando-se da violência das ruas, e Evo acabou encurralado.

Não é possível comemorar as circunstâncias da saída de Evo Morales, assim como não há justificativa para defendê-lo.

Mais uma vez, a Bolívia é reprovada no teste democrático.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.