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Por que a renúncia de Evo Morales não vai 'pacificar' a Bolívia

Diogo Schelp

11/11/2019 15h27

Williams e Evo Morales

Em foto de arquivo, o ex-presidente Evo Morales com o comandante das Forças Armadas Williams Kaliman, que exigiu, e conseguiu, a renúncia de seu chefe neste domingo, 10 (Foto: Janeiro de 2019, David Mercado/Reuters)

Algumas peças não se encaixam na sucessão de acontecimentos que levou à renúncia do presidente Evo Morales, da Bolívia, neste domingo (10).

Na manhã desse dia, Morales anunciou a convocação de novas eleições presidenciais, aceitando a recomendação da Organização dos Estados Americanos (OEA), divulgada um pouco antes. À tarde, o comandante das Forças Armadas do país, general Williams Kaliman, e o chefe da polícia, general Vladimir Yuri Calderón, vieram a público, em pronunciamentos separados, exigir a renúncia de Morales, para "permitir a pacificação e manutenção da estabilidade". Em seguida, Morales fez o anúncio de que estava deixando o cargo para "pacificar o país".

Se Kaliman e Calderón queriam a pacificação do país, o melhor caminho era apoiar a realização de novas eleições, como havia aceitado Evo Morales horas antes.

Se, por outro lado, estavam empenhados em dar um golpe de Estado clássico, como os que a América Latina já enfrentou de baciada, teriam tomado o poder para si ou designado o sucessor de Morales.

Em vez disso, o país enfrentou nesta segunda-feira um vazio de poder, com a renúncia em cadeia dos principais sucessores legítimos ao cargo presidencial, enquanto as forças de segurança sumiram das ruas de La Paz.

O posto é reivindicado pela senadora Jeanine Añez, segunda vice-presidente da casa legislativa.

A quem interessa o caos

Um golpe sem tropas nas ruas e sem novo governo? A quem interessa a situação de caos?

Também estranha o fato de que Kaliman, o comandante das Forças Armadas, era, até dias atrás, um fiel escudeiro de Morales.

Nomeado para o posto em dezembro de 2018 por Morales, Kaliman era, até então, comandante do Exército. Morales insistiu no seu nome apesar dos processos por corrupção e enriquecimento ilícito na compra de insumos militares.

Em agosto deste ano, na comemoração do aniversário de 194 anos da fundação das Forças Armadas, Kaliman fez um discurso alinhado com a retórica conspiracionista de Morales, denunciando a existência no país de "antinacionalistas" que, "por seu apetite por poder, pretendem mudar a hierarquia das Forças Armadas, com intenções obscuras".

Golpe ou autogolpe

Claro que não faltam militares oportunistas na história boliviana. Ainda falta esclarecer, porém, a serviço de quem Kaliman está. Dele próprio, aparentemente não. Das tais forças antinacionalistas que ele mesmo denunciava alguns meses atrás? Do próprio Morales, que pretende voltar ao poder nos braços do povo e para isso tentou um autogolpe?

Evo Morales se diz vítima de um golpe, o que pode ser verdade, mas não é possível exigir seu retorno ao cargo porque ele próprio o entregou. Sua renúncia e o vácuo de poder que ela deixou não vão "pacificar" o país, como ele alegou. Sua volta ao poder também não.

Diante desse cenário turvo, foi correta a postura do governo brasileiro de não classificar os fatos que levaram à renúncia de Morales de "golpe" e de defender que sejam realizadas novas eleições o quanto antes no país.

Não há dúvida de que houve uma ruptura da ordem política na Bolívia, mas, enquanto não for possível discernir quem se beneficia disso, é preciso olhar para frente e ter como objetivo a redução da violência social e política que o país enfrenta desde o malfadado pleito do dia 20 de outubro.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.