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Empresa que embasou suspeita da PF sobre óleo não descarta navios fantasmas

Diogo Schelp

20/11/2019 04h10

Bouboulina

Bouboulina, navio grego que foi apontado pelo governo como principal suspeito do vazamento de óleo no litoral nordestino (Foto: Delta Tankers/Reprodução)

"Em nenhum momento eu posso afirmar que aquele é o navio responsável pelo incidente", diz Leonardo Barros, diretor executivo da Hex Tecnologias Geoespaciais, empresa de monitoramento de imagens de satélite com escritório em Brasília, cujas análises serviram de base para a principal linha de investigação sobre a origem do óleo que está poluindo o litoral brasileiro. Ele completa: "Se existissem outros navios transitando naquela região sem os transmissores ligados, eu não teria como saber."

O navio em questão é o Bouboulina, de bandeira grega, que foi apontado pela Polícia Federal e pela Marinha, no início deste mês, como o principal suspeito pelo vazamento de petróleo. O nome da embarcação foi indicado em relatório elaborado voluntariamente pela Hex e entregue à Polícia Federal em 25 de outubro.

Já os "outros navios" que poderiam estar envolvidos no incidente, mas que não foram elencados no relatório da Hex, são os chamados navios fantasmas, ou seja, embarcações que navegam com o transponder desligado, à sombra do sistema de rastreamento por satélite, em violação às normas marítimas internacionais.

Investigação válida

Em entrevista a este blog, Barros defendeu o rigor técnico que levou a empresa que ele dirige a concluir que encontrou o local do vazamento de óleo em imagens de satélite entre os dias 28 e 29 de julho, a pouco mais de 700 quilômetros do litoral brasileiro.

Mas ele também foi taxativo ao afirmar que a identificação dos navios que cruzaram pelo local da mancha de óleo original em datas próximas ao seu surgimento apenas abre uma linha de investigação válida para as autoridades, mas não deve ser tratada como uma resposta conclusiva dos responsáveis pelo desastre ambiental.

De fato, a Delta Tankers, empresa proprietária do Bouboulina, nega que seu navio-tanque tenha vazado o óleo. Desde então, as autoridades brasileiras não apresentaram nenhuma evidência provando o contrário.

De uma coisa Barros não tem dúvida. "Ele (o Bouboulina) estava lá. Isso é suficiente para atribuir a culpa ou responsabilidade a ele? Não. Mas é suficiente para sustentar uma linha de investigação? Sim. É uma linha de investigação válida, que deve ser esgotada."

Há, porém, uma segunda possibilidade que não foi considerada no relatório executivo da Hex para a PF, pela inexistência de dados: a de que o vazamento tenha sido provocado por um navio fantasma.

Suspeitas ocultas

Depois de identificar a área onde encontrou o que avalia ser uma mancha de óleo de 200 quilômetros de extensão por 25 a 50 quilômetros de largura (dependendo do ponto de medição), a Hex cruzou essa informação com as rotas de navios que navegaram pela área com os transmissores de localização ligados, o que permite rastreá-los pelo Automatic Identification System (Sistema Automático de Identificação ou AIS, na sigla em inglês).

"Nós solicitamos os dados do AIS à Airbus", diz Leonardo Barros. (A Airbus mantém um serviço chamado Ocean Finder, que permite a localização de embarcações.) "O levantamento permitiu identificar quatro embarcações, das quais uma, o Bouboulina, é um navio-tanque que passou pela área onde apareceu a mancha. Mais uma vez, isso é o suficiente? Não, mas é um indicativo, que merece ser investigado."

Barros explica que as imagens de satélite disponíveis para a área que continha a mancha de óleo não têm resolução suficiente para detectar visualmente navios.

Ou seja, se alguma embarcação navegou por ali com os transmissores desligados nas datas do provável vazamento, não poderiam ser identificadas pelas imagens satelitais. "Mas as autoridades podiam possuir dados aos quais eu não tinha acesso na Hex e concluir que havia outra embarcação lá que não estava sinalizada no AIS", diz Barros.

Barros, portanto, não descarta a hipótese de que um navio fantasma possa estar relacionado ao incidente que provocou a mancha de óleo no mar.

SAR ou sensor ótico

Barros explica que o dado ideal para fazer detecção de manchas de óleo no mar são imagens de radar: "Ou, na linguagem técnica, imagem SAR (Sensor de Abertura Sintética). À medida em que fomos nos afastando do litoral em nossas análises, não havia mais dados SAR disponíveis."

A Hex concentrou-se em processar imagens fora de áreas que já haviam sido analisadas, sem sucesso (conforme revelou este blog no dia 14 de outubro), pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês).

Hexa

As áreas monitoradas pela NOAA, nos retângulos verdes, e aquelas analisadas pela Hex, em círculos vermelhos. Uma quarta área foi acrescentada à pesquisa, a nordeste do círculo mais ao norte, e nela foi encontrada a mancha de óleo (Imagem: Relatório técnico Hex/Divulgação)

Sem dados SAR, a Hex precisou recorrer a imagens do Modis e do Sentinel 3-B, sensores óticos que orbitam a terra. Nos sensores óticos, a imagem é formada a partir da reflectância da luz solar sobre a superfície do planeta. No SAR, a imagem é formada a partir da radiação que o próprio equipamento emite. 

Ao depender de imagens desses sensores óticos, o trabalho de identificação do que pode ser uma mancha de óleo, portanto, tornou-se mais desafiador e exigiu uma análise de contexto, com diversas variáveis físicas. Encontrar e identificar um navio com esse tipo de imagem satelital, por sua vez, era virtualmente impossível.

Novo relatório

Para fazer frente aos diversos questionamentos que surgiram depois que a descoberta da mancha e as investigações a respeito do navio Bouboulina vieram a público, tanto por parte da comunidade científica como de outras organizações especializadas em monitoramento por satélite, a Hex divulgou nesta quarta-feira (19) um relatório técnico sobre a metodologia usada para encontrar a origem do vazamento.

O objetivo, segundo Barros, "é esfriar o debate, no sentido de trazê-lo para o lado técnico/científico". Entre as variáveis que foram levadas em conta para a detecção da origem do óleo estão os modelos de correntes marítimas e a presença de algas, entre outras.

Não há menção nesse novo relatório, porém, à identificação de navios suspeitos.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.