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'Há uma radicalização da esquerda no Chile', diz analista de risco político

Diogo Schelp

23/11/2019 04h00

Chile

Repressão policial em protestos no Chile (Foto: Pablo Sanhueza/Reuters)

Primeiro foi o Equador, acometido por uma onda de protestos contra o aumento no preço da gasolina. Depois veio o Chile, com a fúria das ruas se voltando contra um incremento na tarifa de transporte público. Em seguida veio a Bolívia, com um movimento popular por vezes violento que acabou com a renúncia do presidente Evo Morales. Agora é o governo da Colômbia que enfrenta uma greve geral e manifestações que acabaram em mortos e feridos.

O que está acontecendo na América do Sul? Qual será o próximo governo nacional a entrar no carrossel das insatisfações populares?

Com esta entrevista sobre o Chile, este blog inicia uma série de artigos sobre o atual fenômeno regional de manifestações de rua.

Cada país vive um contexto próprio que explica os recentes protestos populares. Ou seja, é um engano pensar que há uma conspiração a incitar todos eles de maneira coordenada, como explica Favaro. O que pode haver, de fato, é que os acontecimentos de um país — e, em especial, a efetividade de certos movimentos populares de obter concessões dos governos — acabem incentivando ou inspirando as massas insatisfeitas em outro lugar.

A situação no Chile, que começou a pegar fogo em meados de outubro, começou a se acalmar esta semana, depois que o presidente Sebastián Piñera e a oposição chegaram a um acordo para convocar um plebiscito que irá decidir se deve haver uma nova Constituição e como ela deve ser escrita.

Mas a instabilidade ainda se faz sentir no país. Confira a entrevista com o analista Thomaz Favaro, analista de risco político, operacional e de segurança no Cone Sul da consultoria Control Risks:

Não é de hoje que o Chile enfrenta protestos. A presidente anterior, Michelle Bachelet, assim como o próprio Piñera antes dela, em seu primeiro mandato, enfrentaram protestos de estudantes. Qual é a diferença para as manifestações que estão ocorrendo este ano?

São dois os elementos que colocam o movimento de agora em um patamar diferente. O primeiro é o fator surpresa. Houve uma série de protestos em outros países da região andina, principalmente no Equador, contra o aumento do preço da gasolina, e na Bolívia por conta da eleição em que Evo Morales foi reeleito em circunstâncias controversas. No Equador, já havia uma preocupação do governo equatoriano quanto à reação às medidas de ajuste que se pretendia adotar. Já se sabia que seriam impopulares. Talvez o governo tenha se surpreendido com a magnitude dos protestos, mas já esperava uma resposta negativa. O mesmo se pode dizer do contexto boliviano, pois a própria candidatura de Evo Morales já era contestada dentro do país e outras forças políticas questionavam a sua busca por um quarto mandato.

Com o Chile foi diferente. No Chile, os manifestantes se insurgiram contra um aumento relativamente pequeno no preço da passagem na zona metropolitana. Iniciou-se então um efeito cascata, crescendo significativamente, atraindo mais e mais manifestantes. Foi uma grande surpresa.

Outro elemento que diferencia a situação atual no Chile com a de outros protestos do passado no país é a intensidade. A presidente Michelle Bachelet enfrentou protestos relacionados à política educacional no seu governo. A chamada Marcha de Lo Pinguinos, como os estudantes do ensino médio eram conhecidos, ocorreu com muita frequência, mas não atraía tanta gente. O que está ocorrendo agora não é um movimento de estudantes, ou de sindicalistas, ou de grupos contra os planos de previdência, mas de um movimento que abarcou uma boa parte da população chilena e tem respaldo de uma parcela significativa da sociedade. Além disso, a mobilização se deu de forma mais espontânea do que a maioria de seus organizadores jamais imaginariam. 

Os protestos partiram de uma situação muito peculiar de aumento de passagens de metrô, mas logo aumentaram exponencialmente até trazer à tona debates profundos sobre a natureza do sistema político chileno, incluindo a possibilidade de se escrever uma nova Constituição. 

Esses protestos foram um indício de que o modelo econômico chileno se esgotou?

É difícil fazer essa avaliação atualmente. Dentro do movimento de protestos há muitos questionamentos em relação a alguns pontos da política econômica. O sistema de previdência com certeza é alvo de uma boa parte dos manifestantes e nisso tem respaldo na opinião pública. Também há críticas relacionadas à insuficiência da rede de apoio às camadas mais vulneráveis da sociedade. Mas o principal é a grande dúvida que se colocou sobre se os mecanismos de participação da sociedade são adequados para o Chile, atualmente, ou se é o momento de revisitar como o sistema político é estruturado.

É óbvio que, em paralelo, a disputa política continua, permanece, e esse é um movimento político que pode, sim, fortalecer a esquerda do país que planteia um modelo econômico diferente. Principalmente porque, no ano que vem, o Chile vai ter pela primeira vez eleições regionais.

Mas é cedo para dizer que o modelo econômico chileno vai efetivamente mudar unica e exclusivamente por causa dos protestos. A gente está vendo uma série de concessões feitas pelo governo no tocante a gastos sociais e a outros temas, mas decretar o fim do modelo chileno talvez seja prematuro. 

Uma das características da política do Chile era justamente a capacidade de encontrar algum consenso entre esquerda e direita. Tratava-se de um caso único na América Latina. A situação atual pode ser interpretada como um indício de que o Chile está caminhando para a radicalização política, acompanhando uma tendência global?

Eu acho que sim. Já existiam alguns indícios de que isso vinha ocorrendo nos últimos anos, nem tanto no campo da direita, mas com certeza no campo da esquerda chilena. Se você olhar a trajetória dos presidentes da Consertación (coalizão de partidos de centro-esquerda) que estiveram no poder e comparar com os candidatos de esquerda, tanto da Nueva Mayoria e das outras forças políticas que participaram das eleições como candidatos majoritários, vai perceber que há, sim, uma radicalização da esquerda do país.

Esse movimento de protestos muito provavelmente aponta para uma futura radicalização também no sentido de propostas mais radicais de mudança no sistema político e econômico. Talvez o modelo econômico ainda não esteja tanto sob risco, mas o consenso que havia com relação às bases desse modelo com certeza começa a mostrar os seus primeiros sinais de fratura. 

Existe uma radicalização na direita chilena, como existe no Brasil?

Não com a mesma magnitude. No Chile, a direita é mais centro-direita. Há também alguns partidos tradicionalmente mais conservadores, mas se a gente olhar os matizes que existem dentro da esquerda e da direita, percebe-se que nesta última as diferenças se mostram mais limitadas.

Um exemplo é a maneira como os chilenos olham para a ditadura militar. Existe quase um consenso entre as principais forças de direita de que houve um legado positivo, principalmente do ponto de vista econômico, mas também que em outros pontos, no tocante à participação democrática e aos direitos humanos, a ditadura do general Augusto Pinochet precisa ser rechaçada e condenada. Nisso, a direita chilena tem sido bastante contundente. 

A violência na repressão aos protestos no Chile demonstra que o governo tem um traço autoritário ou o que ocorreu foram episódios de brutalidade policial que saíram do controle do governo?

A postura inicial de Piñera foi de fato infeliz. Ele não soube escutar a voz que vinha das ruas e acabou confundindo o que havia de violência nas manifestações e precisava ser condenado e o que havia de demandas legítimas por parte da sociedade.

Por outro lado, houve uma mudança de postura significativa, principalmente depois da segunda semana de protestos, com um governo muito mais ativo em responder às demandas da sociedade — tanto do ponto de vista econômico, com o anúncio de uma série de medidas para melhorar essa rede de proteção aos cidadãos, como das tentativas de negociar saídas unificadas da crise com a oposição. Viu-se a partir daí um governo negociando; não só impondo sua agenda, mas cedendo em alguns pontos. Talvez o caso mais emblemático seja o referendo que vai ocorrer antes da criação da nova Constituição, definindo como essa constituição vai ser escrita. 

Com relação à violência policial, esse é um elemento muito importante para entender o que está acontecendo no Chile. O que ocorreu lembra muito as ondas de protestos de 2013, no Brasil, coincidentemente também contra o aumento do preço das passagens. Nos dois casos, o brasileiro e o chileno, a repressão policial contra os manifestantes gerou uma onda de comoção a favor dos manifestantes e acabou servindo de catalizador para os protestos.

A repressão acabou atraindo outras pessoas para as ruas que não estavam tão preocupadas com o preço do transporte.

Exato. A repressão policial não foi exatamente uma medida autoritária de Piñera. O governo de fato adotou medidas drásticas, como a imposição do toque de recolher e a decisão de colocar o exército nas ruas, mas tudo dentro da lei. O que ficou claro, porém, foi o quão mal preparadas estavam as forças policiais para lidar com grandes protestos.

O número de mortes e o de pessoas com leões oculares (causadas por balas de borracha) realmente chamam a atenção, porque demonstram que os protocolos de evitar ferimentos graves nos manifestantes muito provavelmente não estão sendo respeitado. Isso revela mais um despreparo das forças de segurança do que algo que tenha sido feito propositalmente pelo governo. 

Há uma conspiração da esquerda latino-americana por trás dos protestos do Chile e dos outros países da região?

É difícil fazer essa afirmação. Não há evidências de que os protestos sejam coordenados, embora sejam acontecimentos simultâneos. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.