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Duque tenta ganhar tempo diante de protestos na Colômbia

Diogo Schelp

25/11/2019 15h47

Colômbia

Repressão a protesto na Colômbia (Foto: Imagem: Xinhua/Jhon Paz)

Com os protestos de rua contra o seu governo entrando no quinto dia consecutivo nesta segunda-feira (25), o presidente da Colômbia Iván Duque aposta em uma estratégia para ganhar tempo, acenando com a intenção de atender aos anseios dos manifestantes — sem ter, de fato, de atendê-los no curto prazo.

Para isso, Duque realizou neste domingo (24) uma reunião com governadores e prefeitos para discutir a atual crise política no país. Ele denominou essa discussão de "conversação nacional" e propôs uma agenda bastante estendida, que culmina com propostas concretas apenas em 15 de março do ano que vem.

Até lá, os participantes da "conversação" discutirão propostas sobre seis eixos temáticos: 1) combate à corrupção; 2) educação; 3) paz com legalidade; 4) meio ambiente; 5) fortalecimento das instituições; e 6) crescimento com equidade. Cada eixo terá, na proposta de Duque, um moderador de fora do governo.

Aprendizado

Está claro que Duque aprendeu com os movimentos de rua que abalaram os governos do Equador e do Chile nos últimos meses (o caso da Bolívia, em que os protestos resultaram na renúncia do presidente Evo Morales, é distinto, pois foi uma reação a uma fraude eleitoral).

Nos dois países, os governos demoraram para dar uma resposta ao clamor popular. Ao anunciar um amplo debate político com a oposição apenas quatro dias depois do início dos protestos, Duque procura acalmar as ruas e ditar a pauta da discussão.

Problemas à vista

Há, no entanto, três fatores que podem levar sua iniciativa ao fracasso.

O primeiro é a ausência de lideranças ligadas à organização das manifestações na reunião que lançou a tal "conversação nacional". Os protestos começaram com uma greve geral conclamada por sindicalistas e logo ganharam a adesão, com uma variedade de reivindicações, de movimentos estudantis, aposentados e outros setores da sociedade. Nenhum desses grupos se sente representado na iniciativa de Duque.

O segundo fator é a brutalidade na repressão aos protestos. Assim como ocorreu no Chile, as forças policiais erraram a mão ao confrontar a multidão nas ruas, protagonizando cenas de violência desnecessária contra manifestantes e jornalistas que cobriam os eventos. Até segunda-feira (25), três pessoas já haviam morrido nos confrontos. Um jovem de 18 anos, Dilan Cruz, que está internado em estado grave com uma lesão na cabeça, foi transformado em símbolo dos manifestantes.

Assim como no Chile, a repressão exagerada de manifestações em sua maioria pacíficas pode levar mais e mais pessoas a engrossarem as marchas.

O terceiro fator é o tempo. Como ficou demonstrado nos exemplos do Equador e do Chile, uma vez que pegam o gosto pelas ruas, os manifestantes não as abandonam enquanto os mandatários não fizerem concessões reais e imediatas. O presidente Lenín Moreno, do Equador, voltou atrás na elevação do preço dos combustíveis. Sebastián Piñera, do Chile, anunciou a convocação de um plebiscito para definir os termos para a elaboração de uma nova Constituição para o país.

Há um risco considerável de que os colombianos não aceitem esperar até março para conhecer as soluções para os problemas que eles querem ver resolvidos.

(Este é o segundo artigo de uma série sobre o atual fenômeno regional de manifestações de rua na América do Sul. O primeiro foi sobre o Chile e pode ser lido aqui.)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.