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Protestos na AL têm o dedo da Venezuela, diz chefe militar americano

Diogo Schelp

28/11/2019 14h19

Craig Faller

O almirante Craig Faller em visita ao Rio de Janeiro, em agosto passado (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

O almirante Craig Faller, chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, que abarca Caribe, América Central e do Sul, disse em entrevista ao Voz de América que o governo venezuelano está influenciando na onda de protestos populares que varreram a América Latina, mais especificamente o Equador, o Chile, a Bolívia e a Colômbia, nas últimas semanas.

Faller também acredita que a fuga em massa de cidadãos venezuelanos para os países vizinhos contribuiu para aumentar os problemas que estão na base de muitos desses protestos. "A emigração de cerca de 5 milhões de pessoas trouxe tensão aos serviços sociais do hemisfério."

Mas a maior preocupação do Comando Sul americano é a relação entre o tráfico de drogas e o governo do ditador Nicolás Maduro, um tema no qual Faller já vem batendo há tempos.

Segundo ele, o dinheiro de origem ilícita vindo do narcotráfico financia uma "grande parte" do regime Maduro. Os líderes dos cartéis de cocaína, principalmente, encontram na Venezuela uma rota segura e livre para enviar suas remessas da droga. Isso dificulta capacidade das autoridades americanas de interceptar os carregamentos, pois a "a droga pode estar escondida na carga de um barco de perca comercial, ou um navio ou avião comercial".

Outro complicador, segundo Faller, é o apoio de países como a Rússia, o Irã e a China à Venezuela.

Em entrevista concedida a este blog em agosto deste ano, a líder opositora María Corina Machado defendeu que o Brasil pode ter um papel fundamental em compartilhar informações com a Rússia e a China para apontar a relação da Venezuela com o crime organizado. Ela acredita que russos e chineses também têm a perder em apoiar um regime político que abastece o mundo de entorpecentes.

Eis o trecho em que María Corina desenvolve seu raciocínio sobre isso:

"Estamos falando de um regime criminoso (o de Nicolás Maduro), que se associou e se misturou com todas as redes da máfia e de crime organizado do mundo. Desde a guerrilha da ELN e das Farc até os carteis da droga, passando pelos grupos terroristas islâmicos de Hezbollah e Hamas e outras organizações delinquentes envolvidas em extração de ouro e de minerais e em tráfico de seres humanos. A Venezuela está vivendo um processo de 'somalização'. Há zonas extensas do nosso território que hoje não têm presença alguma do Estado venezuelano. Estão sob controle de máfias externas. A península de Paria, o sul de Bolívar, na fronteira com Brasil, o estado de Zulia e o norte da península de Paraguaná são territórios.

Hoje, esses grupos estão localizados em áreas geográficas limitadas, mas, por sua dinâmica criminal, essas operações crescem, se expandem. E, em questão de meses, a situação da Venezuela poderá estar totalmente fora de controle. Daí a urgência de atuar com rapidez. O Brasil, por razões óbvias, tem acesso a informações, a inteligência muito mais precisa e muito mais ampla e profunda do que outros países. Por isso, a primeira coisa que o governo brasileiro deve fazer, pela autoridade que tem por sua localização e pela forma como iniciou o combate à corrupção, é garantir que essa informação seja compartilhada com outros países da América Latina e também com outros sócios do Brasil no Brics, grupo do qual participam atores-chaves desse processo, como a China, a Rússia e a Índia. O Brasil pode deixar muito claro a esses parceiros qual é o seu interesse estratégico, geopolítico e econômico na questão venezuelana e, simplesmente, de que lado está."

Na última reunião dos Brics em Brasília, no dia 14 deste mês, da qual participaram os governantes da Rússia e da China, o Brasil evitou focar as discussões em torno do problema da Venezuela.

De qualquer forma, é muito provável que o interesse geopolíticos desses países na Venezuela supera a preocupação com o papel do regime de Nicolás Maduro no tráfico internacional de drogas.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.