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Futuro chanceler argentino ficou 10 anos sem falar com Cristina Kirchner

Diogo Schelp

29/11/2019 16h25

Cristina Kirchner

Cristina Kirchner, vice-presidente eleita da Argentina, e Felipe Solá, provável indicado à chancelaria, em encontro em fevereiro passado, depois de 10 anos de rompimento (Foto: Twitter/Reprodução)

Apesar de ainda nem ter sido oficializado como futuro chanceler da Argentina, Felipe Solá já entrou de sola, com o perdão do trocadilho, na briga ideológica entre o governo brasileiro e a dupla Alberto Fernández e Cristina Kirchner, eleitos para a presidência e vice-presidência do país vizinho.

Em palestra na Universidad Torcuato Di Tella, em Buenos Aires, Solá disse que a Argentina está de luto pelo Brasil e classificou Jair Bolsonaro e seu entorno como "um governo com um nível de agressividade enorme contra a Argentina, contra o Mercosul e contra a história comum dos últimos 30 anos".

O deputado e ex-governador da província de Buenos Aires disse, também, que vai responder à "ideologização" de Bolsonaro com um relacionamento pragmático com o Brasil, até o governo brasileiro "cansar".

Ranço recíproco

Não há dúvida que o ranço ideológico tem marcado as declarações do governo Bolsonaro sobre a vitória de Alberto Fernández para a presidência da Argentina. Mas a alegação de pragmatismo de Solá não passa no teste de hipocrisia. Afinal, ele próprio tem imitado Fernández e feito de tudo para pisar nos calos do bolsonarismo, o que inclui comemorar com grande fanfarra a libertação de Lula.

"Milhões de argentinos estão felizes", disse Solá depois da soltura do ex-presidente brasileiro. Em seguida, completou: "A mentira tem pernas curtas e a verdade pode se esconder por um tempo. O coração de Lula é mais forte que toda a infâmia." A declaração do futuro chanceler tentou passar a mensagem de que Lula foi inocentado — isso, sim, uma mentira.

Reedição do kirchnerismo

Ao contrário do que anuncia Solá, a transição para o novo governo argentino tem sido marcada pela ideologia. Além das constantes odes a Lula, o trio Fernández-Kirchner-Solá tem feito grandes esforços para se mostrar alinhado com qualquer causa cara a governos ditos de esquerda na região.

Solá já deixou claro, por exemplo, que não vai reconhecer o governo interino de Jeanine Añez na Bolívia.E, no que se refere à Venezuela, sugeriu que vai usar a participação da Argentina no Grupo de Lima (que reúne países empenhados em pressionar para que Nicolás Maduro deixe o poder) para defender o ditador venezuelano. Vai ser confusão garantida.

Acordo ameaçado

O provável futuro chanceler argentino também tem dito que o novo governo de Fernández/Kirchner é contra a redução de tarifas de importação no Mercosul e não se cansa de insinuar que o acordo do bloco sul-americano com a União Europeia, anunciado este ano, pode morrer no nascedouro.

Pela desenvoltura com que Felipe Solá vem se pronunciando em nome da reedição do kirchnerismo no poder, nem parece que até pouco tempo atrás ele era um inimigo declarado de Cristina Kirchner.Mas era. Solá começou a se distanciar do kirchnerismo em 2007 — quando o ex-presidente Néstor Kirchner ainda era vivo e Cristina Kirchner havia acabado de assumir o poder — e um ano antes de Alberto Fernández, que foi chefe de gabinete de Cristina, fazer o mesmo.

Depois que Néstor Kirchner morreu, em 2010, Fernández passou criticar a gestão de Cristina Kirchner mais abertamente. Algo que Solá já vinha fazendo há tempos: ele chegou a tuitar que a forma de governar do kirchnerismo se havia "esgotado".

Solá, o rompedor

O rompimento definitivo ocorreu em 2009, quando Solá formou uma aliança política com Mauricio Macri (o atual presidente) para derrotar o kirchnerismo nas eleições legislativas — no que foram bem sucedidos. Em seguida, porém, Solá rompeu também com Macri.

Em 2013, aproximou-se do grupo político de Sergio Massa, que também havia sido chefe de gabinete de Cristina Kirchner, novamente com o intuito de enfrentar o kirchnerismo nas urnas.

A reaproximação com Cristina Kirchner começou no ano passado, por iniciativa de Alberto Fernández.

Quando Solá visitou Cristina em seu apartamento, em fevereiro deste ano, e postou uma foto do encontro no Twitter, já se haviam passado doze anos desde a última vez que os dois foram vistos juntos em público.

Nesse caso, não se pode falar em ideologia. Trata-se de pragmatismo político, mesmo — do tipo que faz desaparecer velhas rusgas para propiciar um lugar ao sol do poder.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.