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Em comum, Trump e Bolsonaro fazem uso político privado de relações externas

Diogo Schelp

04/12/2019 12h20

Trump e Bolsonaro

O presidente dos EUA, Donald Trump, e Jair Bolsonaro durante encontro em Washington, em março (Foto: Carlos Barria/Reuters)

Na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em setembro, o presidente Jair Bolsonaro fez um discurso marcadamente ideológico, escrito sob medida para agradar os seus apoiadores mais radicais no Brasil.

Em outubro, em discurso para investidores internacionais em fórum realizado na Arábia Saudita, Bolsonaro desperdiçou a chance de falar de oportunidades reais de negócios (a não ser por uma obsoleta menção de cunho extrativista à economia brasileira) e apresentou-se como um messias político, que sobreviveu a um atentado à faca para trazer a verdade ao povo brasileiro. Vale lembrar que o discurso foi feito em um momento em que seu nome estava sendo vinculado à investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

Bolsonaro usa os palcos globais como palanque para defender seus interesses políticos domésticos. E, em alguns casos, o faz em detrimento dos interesses nacionais.

Alinhamento com Trump

A relação com os Estados Unidos é uma demonstração clara disso. Desde antes de assumir o cargo, Bolsonaro fez um grande esforço para associar-se ideologicamente ao presidente americano Donald Trump.

Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro imitou Trump como candidato anti-sistema, politicamente incorreto, conservador nos costumes, defensor das armas e adepto do contato direto via redes sociais com os apoiadores, sem intermediários.

No governo, Bolsonaro promoveu um alinhamento automático da diplomacia brasileira com os Estados Unidos — em grande parte porque acredita que o vínculo com Trump ajuda a legitimar suas políticas controversas e seu estilo de governar. Em outras palavras, o núcleo duro de apoiadores de Bolsonaro gosta de vê-lo associado a Trump.

Amizade de mão única

Como prova da amizade, Bolsonaro fez concessões aos americanos em troca de promessas futuras ainda não realizadas, como a entrada do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Entre as concessões estão o direito dos Estados Unidos de usar a base espacial de Alcântara, no Maranhão, em condições especiais, a isenção de vistos para americanos sem reciprocidade para brasileiros e a abdicação, por parte do Brasil, dos benefícios de que desfrutam países em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Esta semana, Bolsonaro teve a chance de descobrir que, em diplomacia, concessões unilaterais passam a mensagem errada para os parceiros. Trump tuitou que vai sobretaxar o aço e o alumínio importados do Brasil. O tão propalado "interesse nacional" que Bolsonaro diz defender foi mais uma vez aviltado.

Abuso de poder

Há quem diga que, ao contrário de Bolsonaro, Trump só age em defesa dos interesses americanos.

Isso nem sempre é verdade. Basta ver o que conclui o relatório apresentado nesta terça-feira (3) na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, com os resultados da investigação para o processo de impeachment de Trump. O Comitê de Inteligência concluiu que Trump abusou de seu poder ao pressionar a Ucrânia para investigar o democrata Joe Biden, um dos seus mais fortes adversários potenciais para as eleições de 2020.

Trump, segundo a investigação baseada em diversos testemunhos de gente do próprio governo, usou os mecanismos da diplomacia e recursos militares em proveito político próprio. Em vez do interesse nacional, o que ele estava buscando ao pressionar os ucranianos, inclusive com chantagens, era obter informações ou criar um factoide para esmagar um adversário eleitoral.

O próprio tuíte de Trump atacando — com fake news — a política monetária do Brasil e ameaçando taxar produtos brasileiros tem uma motivação eleitoral.

Ambos vêm a política externa como um instrumento para promover seus interesses políticos privados, portanto. A diferença é que Trump, quando lhe interessa, não pensa duas vezes antes de tripudiar sobre um aliado.

 

 

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.