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Moro descobriu no concreto armado de Brasília sua kriptonita

Diogo Schelp

05/12/2019 15h08

Boneco do "Super-Moro" em manifestação em 26 de maio, em Brasília (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche cunhou o termo Übermensch no final do século XIX — e consagrou-o no livro "Assim falou Zaratustra" — para designar a evolução moral do ser humano que preencheria o vácuo deixado pela ideia de Deus. Traduzido inicialmente para o inglês como Superman e para o português como Super-homem, a expressão inspirou a criação do herói de quadrinhos homônimo quatro décadas depois, em 1938.

Apesar de o ministro da Justiça Sergio Moro, quando juiz da Lava Jato, ter sido retratado por seus entusiastas como uma transfiguração do Super-homem dos quadrinhos e do cinema, a admiração que as pessoas tinham dele estava mais relacionada a uma suposta superioridade moral do que, obviamente, na crença de que ele possui superpoderes.

No imaginário dos brasileiros cansados de tanta corrupção nas altas esferas do poder, Moro era mais um Übermensch nietzschiano do que um Super-homem com força descomunal.

Teria sido mais útil outro superpoder, o de prever o futuro: assim, o ex-juiz teria antecipado o que significou para o seu capital moral a decisão de deixar a toga para entrar para a política, aceitando o convite de Jair Bolsonaro para ser um "super-ministro".

Super? Moro passou onze meses sendo derrotado em Brasília. Ele perdeu o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para Ministério da Economia, subscreveu a contragosto medidas de flexibilização de posse de armas, viu o projeto de criminalização do caixa 2 em campanhas empacar na Câmara dos Deputados e teve que desconvidar uma renomada especialista em segurança pública para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária.

Agora, a Câmara dos Deputados finalmente votou seu pacote anticrime — mas despido de onze pontos cruciais da proposta original.

Kriptonita

Como Super-homem, Moro descobriu que o concreto armado de Brasília é sua kriptonita.

Como Übermensch, ele viu sua alegada superioridade moral se esvair em divulgações de mensagens de celular do tempo em que era juiz e na necessidade de bajular o chefe.

Seria uma injustiça, porém, dizer que o Über-Moro se tornou um Unter-Moro ("unter", em alemão, no sentido de "sub").

O papel de Moro nos esforços para reverter a tradicional impunidade para crimes do colarinho branco no Brasil é inegável e ficará registrado nos livros de história.

E, esta semana, ele se tornou um dos únicos integrantes do governo federal a dizer algo decente a respeito do massacre de Paraisópolis. "Em nenhum momento ali existe uma situação de legítima defesa", disse Moro nesta quarta-feira (4), referindo-se à versão de que os policiais precisaram reagir com violência para defender a própria vida.

Nem Über, nem Unter. Moro ainda está descobrindo como encontrar a melhor versão de si como político.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.