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Bons políticos (ou jornalistas) não são movidos por amor ou ódio

Diogo Schelp

06/12/2019 16h03

Reuters

A democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes do EUA (Foto: Tom Brenner/Reuters)

A presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, a deputada democrata Nancy Pelosi, passou um sabão em um jornalista que lhe perguntou, nesta quinta-feira (5), se ela odeia Donald Trump. Pelosi estava concedendo uma coletiva de imprensa sobre o processo de impeachment contra o atual inquilino republicano da Casa Branca. "Don't mess with me", disse Pelosi. A expressão em inglês significa algo como "não mexa comigo" ou "não me sacaneie".

Sou da opinião de que jornalistas têm o direito de fazer a pergunta que quiserem — até as idiotas. O que me interessa no episódio é a resposta de Nancy Pelosi. Eis uma transcrição:

"Eu não odeio ninguém. Eu acho que o presidente é um covarde por não ajudar nossas crianças que têm medo da violência por armas de fogo. Eu acho que ele é cruel por não lidar com os Dreamers (imigrantes ilegais que chegaram aos Estados Unidos quando era crianças), de quem somos muito orgulhosos. Eu acho que ele está em negação sobre a crise climática. Mas tudo isso são questões eleitorais."

"Isso (o processo de impeachment) é sobre a Constituição dos Estados Unidos e sobre os fatos que levaram o presidente a violar seu juramento. Como católica, me sinto ofendida por você usar a palavra 'ódio' em uma frase direcionada a mim. Eu não odeio ninguém. Eu rezo pelo presidente toda hora. Então não mexa comigo com palavras como essa."

Gosto pelas ideias

Nancy Pelosi tem razão. Em política, é perfeitamente admissível ser feroz nas críticas e no uso dos instrumentos legítimos para defender certos interesses, mas sempre motivado pelo desejo de vencer o embate de ideias, não por gostar ou desgostar do adversário como indivíduo.

Quando a política se torna algo pessoal, uma questão de amor ou ódio, resulta em episódios como o assassinato do senador José Kairala pelo colega Arnon de Mello, exatos 56 anos atrás (ele queria acertar outro parlamentar, mas errou o tiro), em fascismo e genocídios ou em grandes frustrações (lembremos que Trump, esta semana, passou uma rasteira comercial no presidente Jair Bolsonaro, mesmo depois de este ter dito que amava o americano).

Amor por Moro

Um dos meus três leitores fiéis me acusou de não gostar do ministro da Justiça Sergio Moro por ter constatado que, como político, ele não tem a mesma estatura de quando era juiz federal. À parte a dificuldade de interpretação de texto que essa acusação revela, o fato é que o ponto no qual ela toca é irrelevante.

Gostar ou não gostar, não é disso que se trata. No jornalismo, trata-se de observar os fatos e contextualizá-los. Na política, trata-se de buscar consensos para fazer vingar certa visão de mundo, respeitando a confiança depositada pelos eleitores em seus representantes.

Políticos que não se "gostam" podem ser aliados. O contrário disso também ocorre. Uma situação comum na relação entre parlamentares é a de adversários políticos que têm apreço pessoal um pelo outro, ainda que na tribuna se digladiem (se bem que, na atual legislatura, como reflexo do ódio generalizado na sociedade, isso talvez tenha se tornado mais raro).

Nem ódio, nem amor. Para quem se leva a sério, política (assim como o jornalismo que a ela se dedica) não é letra de sofrência.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.