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Política externa do PT: conveniência ideológica ou interesses empresariais?

Diogo Schelp

09/12/2019 11h02

Odebrecht

Marcelo Odebrecht em 2015, após sua prisão na Operação Lava Jato (Foto: Antônio More/Gazeta do Povo/Estadão Conteúdo)

A política externa dos governos do PT orientava-se por critérios puramente ideológicos ou pragmáticos? Até que ponto a afinidade política com os governos de outros países norteava medidas com impacto comercial ou, no sentido inverso, até que ponto os interesses empresariais influenciavam as decisões políticas convenientemente amparadas em semelhanças ideológicas?

A entrevista de Marcelo Odebrecht à repórter Bruna Narcizo, da Folha de S.Paulo, a primeira desde que o empresário saiu da prisão em Curitiba, acrescenta alguns detalhes que ajudam a entender a formulação da política externa brasileira nas gestões de Lula e de Dilma Rousseff. É preciso, no entanto, ter cautela ao analisar as declarações do empresário: naturalmente, ele dá uma versão e uma interpretação dos fatos que minimizam as ilicitudes praticadas pela construtora Odebrecht no período em que ele a comandava.

Segundo Marcelo Odebrecht, a única obra conquistada pela empresa no exterior graças a uma decisão primordialmente ideológica do governo brasileiro foi a construção do Porto de Mariel, em Cuba. As outras, garante ele, nasceram de oportunidades reais — e realizá-las dependia de uma combinação de fatores que incluía o fato de a empresa já ter um histórico de atuação naqueles países e na ajuda extra que representava a boa relação entre os governos.

"Em vários países a gente competia com chineses, com empresas europeias, espanholas principalmente, e tinha um peso o fato de o país querer manter uma relação geopolítica fluída com o Brasil", diz Marcelo Odebrecht na entrevista.

Ora, então o lobby da empreiteira influenciava a aproximação do Brasil com outros países ou, pelo menos, incentivava a tomada de decisões que intensificavam essa "relação fluída". É exatamente isso que Marcelo Odebrecht sugere na entrevista.

Um exemplo bem claro disso é o calote que Cuba deu no financiamento para a construção do Porto de Mariel. Marcelo Odebrecht diz que o rompimento do acordo entre Brasil e Cuba para a manutenção do programa Mais Médicos (após a vitória de Jair Bolsonaro para presidência) é o que está na raiz da dificuldade de fazer a cobrança.

Diz o empresário: "Se a gente fosse a Odebrecht de antes da Lava Jato, no momento em que a gente percebesse que o governo está ameaçando o Mais Médicos, nós teríamos usado de nossa influência para tentar manter o programa. Não em cima de nada ilícito, mas provando ao governo que o Mais Médicos é que iria pagar o financiamento que Cuba pegou do Brasil. Essa capacidade de negociar, de certo modo, a gente perdeu. A gente ajudava para que a geopolítica dos países fosse bastante fluída."

Ou seja, Odebrecht se arvora de ter tido o poder de influir na decisão do governo brasileiro de manter ou não um acordo internacional na área de saúde pública que nada tinha a ver com a atividade de sua empresa.

Tão esclarecedor quanto esse exemplo é o caso da entrada da Venezuela no Mercosul. "Para a gente interessava trazer a Venezuela para o Mercosul porque fortaleceria a relação de política externa e diminuía a chance de um futuro default da Venezuela com o Brasil", diz o empresário.

O papel da Odebrecht na adesão da Venezuela ao bloco comercial demonstra o quanto o interesse empresarial pode bater de frente com o interesse dos contribuintes brasileiros.

Em 2016, uma reportagem de Leonardo Coutinho, na Veja, revelou o conteúdo de um telegrama diplomático de 2011 que mostrava a disposição da então presidente Dilma Rousseff de rever o valor pago ao Paraguai pela energia excedente de Itaipu em troca da aprovação, pelo Congresso paraguaio, da entrada da Venezuela no bloco.

Isso de fato aconteceu. Os consumidores brasileiros passaram a pagar 26% mais pela eletricidade por causa da tentativa de Dilma Rousseff de comprar o apoio paraguaio para beneficiar a Venezuela do então presidente Hugo Chávez. Mas o apoio não veio.

Em 2012, o Congresso paraguaio votou pelo impeachment do presidente Fernando Lugo. E Dilma Rousseff, com a ajuda da colega argentina Cristina Kirchner, manobrou para suspender o Paraguai do bloco. Só assim  conseguiu cumprir sua promessa de incluir a Venezuela no Mercosul.

Havia um alinhamento ideológico entre a Venezuela chavista e os governos do PT? Sem dúvida. Mas as declarações de Marcelo Odebrecht sugerem que a influência de grupos de interesse comerciais tinha, em muitos casos, um peso maior do que a ideologia na formulação da política externa petista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.