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Britânicos mostram que polarização favorece a direita, mas não a esquerda

Diogo Schelp

13/12/2019 11h17

Jeremy Corbyn

Jeremy Corbyn após a derrota nas eleição de quinta-feira, 13 (Foto: Tom Nicholson/Reuters)

Nas eleições gerais realizadas nesta quinta-feira (12), no Reino Unido, o Partido Trabalhista, liderado por Jeremy Corbyn, sofreu sua maior derrota no parlamento desde 1935. Graças a uma mudança nas regras da legenda há alguns anos, que permitiu a todos os filiados participar da votação interna, a ala mais centrista do partido perdeu força para os radicais de esquerda.

Ou seja, o Partido Trabalhista britânico foi para o extremo esquerdo do espectro político. O problema é que, nas urnas, isso provou-se um suicídio. A rejeição de Jeremy Corbyn era enorme, abrangendo 59% dos eleitores.

Isso, somado ao carisma do premiê Boris Johnson e ao fato de que o Brexit (a saída do país da União Europeia) de fato reflete a vontade da maioria dos britânicos, foi o que empurrou o Partido Conservador para a vitória.

Os conservadores também passaram por um processo de polarização interna. Há poucos meses, Johnson — quando defendia uma versão dura do Brexit, sem acordo com a União Europeia — promoveu um expurgo de parlamentares conservadores mais moderados, que vinham se opondo aos seus planos. Mais de duas dezenas deles foram expulsos do partido por Johnson, inclusive o neto do ex-premiê Winston Churchill.

(No fim das contas, o Brexit que Johnson vai conseguir entregar é muito parecido com o que foi negociado por sua antecessora, Theresa May.)

Bom para um, mas não para o outro

O fato é que, para os conservadores, ao contrário dos trabalhistas, a polarização interna foi benéfica do ponto de vista do sucesso eleitoral.

Como observou a revista The Economist, os trabalhistas venceram três eleições sob Tony Blair, um moderado, e depois perdeu três sob lideranças mais à esquerda.

Fazendo a ressalva de que estamos falando de realidades políticas muito distintas, é interessante fazer o exercício de imaginar se esse fenômeno pode se provar verdadeiro também no Brasil.

Quem terá mais sucesso em enfrentar a direita brasileira nos próximos pleitos? O extremo oposto ou um projeto político mais moderado, de centro?

A eleição de Jair Bolsonaro à presidência foi interpretada como parte de um fenômeno global de ascensão de uma direita de viés populista, na qual se inclui Johnson. Pode ser útil olhar para o exemplo britânico e tirar algumas lições para o Brasil.

 

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.