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Impeachment de Donald Trump: vai ter golpe?

Diogo Schelp

18/12/2019 04h00

Trump

O presidente americano Donald Trump (Foto: Leah Millis/Reuters)

Alguém já viu esse filme antes?

Às vésperas da votação na Câmara dos Representantes, nesta quarta-feira (18), para decidir sobre o impeachment do presidente Donald Trump, o próprio enviou uma carta para a deputada Nancy Pelosi, presidente da casa, dizendo estar sendo vítima de uma tentativa de golpe.

A investigação conduzida pelos deputados concluiu que o presidente cometeu abuso de poder e obstrução de justiça ao pressionar o governo da Ucrânia a investigar um adversário político, o democrata Joe Biden, e assim facilitar a própria reeleição em 2020. Após a aprovação na Câmara, caberá ao Senado julgar pelo afastamento ou não do presidente.

Na carta de seis páginas, enviada nesta terça-feira (17), Trump acusou Pelosi e os deputados democratas de fabricarem mentiras contra ele e de estarem com a "febre do impeachment".

"Vocês é que estão subvertendo a democracia americana. Vocês é que estão obstruindo a Justiça. Vocês é que estão trazendo dor e sofrimento para a nossa república para o seu próprio benefício político, partidário e egoísta", acusa Trump.

Ele também afirma que houve mais devido processo legal no julgamento das bruxas de Salem (episódio ocorrido em 1692, nos Estados Unidos) do que no inquérito contra ele na Câmara dos Representantes.

Não é de ontem que Trump reclama que não está tendo condições justas de se defender no processo de impedimento. Ele e seus aliados republicanos na Câmara alegam que os advogados não participaram dos depoimentos fechados e das audiências públicas, além de acusarem a comissão responsável pela investigação de não ter aceitado ouvir testemunhas indicadas pela defesa.

Ocorre que, tecnicamente, o que a Câmara dos Representantes fez até agora foi a investigação dos possíveis crimes cometidos pelo presidente. A votação na casa tem como objetivo decidir se o processo de impeachment deve ir em frente ou não. Caberá ao Senado fazer o julgamento — e aí, sim, Trump terá a chance de apresentar sua defesa.

Além disso, o próprio Trump optou por não responder às perguntas dos deputados na investigação da Câmara.

Assim como no impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, o que ocorre nos Estados Unidos são os ritos legais, garantidos na Constituição, que permitem ao parlamento tirar um presidente do cargo.

Se os crimes justificam ou não uma medida tão drástica, como de fato foi motivo de grande polêmica no Brasil, é algo que fica ao critério do Legislativo decidir. A Constituição americana, aliás, é ainda mais vaga do que a brasileira ao definir o que pode ser motivo para um impedimento.

Como já escrevi antes, há pelo menos 5 boas razões para não tirar Trump do cargo por meio de um processo de impeachment.

Mas que não é golpe, não é.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.