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Condenação de assassinos de jornalista saudita é confirmação de impunidade

Diogo Schelp

23/12/2019 14h49

Bolsonaro

Bolsonaro encontra-se com o príncipe Mohammed bin Salman, em outubro (Foto: José Dias/PR)

Parece um paradoxo, mas não é. A condenação, nesta segunda-feira (23), dos assassinos do jornalista saudita Jamal Khashoggi é a confirmação da impunidade que o caso estava fadado a ter, como ficou claro desde o início. Os cinco réus foram sentenciados à morte por um tribunal em Riad, em julgamento que ocorreu a portas fechadas.

Impunidade, porque os mandantes do crime não foram afetados. E nunca vão ser. Afinal, até a CIA (Agência de Inteligência Americana) suspeita que no topo da cadeia de comando do episódio está o mandachuva da ditadura da Arábia Saudita, o príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman.

O mais próximo que o julgamento chegou de seu nome foi ao colocar como suspeito um de seus assessores mais próximo, Saud al-Qatani. Como mostrou com maestria um documentário recente da PBS Frontline, Al-Qatani foi instrumental na ascensão política do príncipe, tendo desenvolvido toda a estratégia de perseguição digital aos seus desafetos (tendo inclusive invadido contas do Twitter) e participado de sessões de tortura no episódio da prisão mais luxuosa do mundo — situada em um hotel onde o presidente Jair Bolsonaro discursou em outubro, durante sua visita à Arábia Saudita.  

Mas Al-Qatani foi absolvido no julgamento desta segunda-feira (23). Os cinco condenados pagarão sozinhos pelo crime, sacrificados como oferendas do príncipe Bin Salman para aplacar as críticas internacionais.

Jamal Khashoggi era um jornalista saudita que se estabeleceu nos Estados Unidos depois que caiu em desgraça junto à família real de seu país. Ele passou, então, a escrever artigos com críticas elegantes, mas certeiras, ao príncipe, que é conhecido pelas iniciais MBS. Isso enfureceu o todo-poderoso herdeiro da Casa de Saud. 

Khashoggi, mesmo sabendo dos riscos, foi à embaixada da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, em outubro de 2018, para resolver questões burocráticas para poder se casar nos Estados Unidos. Nunca mais saiu de lá.

Um esquadrão da morte enviado especialmente da Arábia Saudita torturou-o e matou-o por estrangulamento dentro da representação diplomática. Seu corpo foi, então, esquartejado.

As câmaras de segurança mostraram um homem saindo do local com as roupas de Khashoggi. Mas as autoridades turcas identificaram se tratar de um dublê, pois os sapatos eram diferentes.

Existe até uma gravação em áudio que supostamente revela os diálogos e os terríveis sons do crime.

A impunidade está garantida no caso Khashoggi porque a Arábia Saudita é considerada um país estratégico demais para as grandes potências (e também para as médias, como a Índia e o Brasil, como comprova a visita de Bolsonaro, que chamou MBS de "irmão" e "amigo").

Para o presidente americano Donald Trump, principalmente, o reino saudita é importante não apenas por ser o maior exportador de petróleo do mundo, mas também por ser um aliado fundamental contra o Irã.

No início deste mês, quando um cidadão saudita abriu fogo em uma base naval em Pensacola, nos Estados Unidos, matando três e ferindo oito pessoas, Trump evitou classificar o ocorrido como um ato terrorista. E prontamente aceitou as condolências do rei saudita Salman al-Saud. O atirador era um oficial da força aérea saudita que estava recebendo treinamento nos Estados Unidos.

Trump é sempre rápido em aceitar as explicações sauditas para qualquer coisa. No caso Khashoggi não foi diferente. Em 2018, o fórum de investidores que MBS realizou em Riade ficou esvaziado. Mas doze meses foram o suficiente para que Trump parasse de fingir que se importa com o assassinato. Seu genro, Jared Kushner, participou da edição deste ano do fórum (Bolsonaro e o indiano Narendra Modi foram os únicos chefes de governo a comparecer).

Ainda em 2018, quando perguntado sobre o crime horrendo contra o jornalista saudita, Trump respondeu: "Não gostamos nada disso. Mas se devemos ou não impedir que eles gastem 110 bilhões de dólares em nosso país… Isso não seria aceitável para mim."

Trump estava falando da venda de armas americanas para os sauditas. Com argumento$ tão eloquente$, resta evidente que a impunidade no caso Khashoggi cairá no esquecimento rapidamente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.