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Agronegócio e militares podem conter envolvimento do Brasil no conflito

Diogo Schelp

08/01/2020 12h30

Irã

Manifestante iraniana promete vingança pela morte do general Soleimani (Foto: AHMAD AL-RUBAYE/AFP)

Enquanto parte da esquerda brasileira manifestou seu apoio ao governo iraniano e repudiou o ataque americano que matou o general Qassim Solimani, no último dia 2, o governo de Jair Bolsonaro, em nota divulgada pelo Itamaraty, fez o contrário, dando seu apoio à ação dos Estados Unidos por ser parte da "luta contra o flagelo do terrorismo". Nenhuma das duas posições contribui para a defesa dos interesses brasileiros.

A resposta mais adequada seria um pedido para que ambos os lados contenham-se e não permitam que a situação descambe para uma guerra aberta.

Há um fundo de razão na nota brasileira, no sentido de que Solimani de fato liderava operações terroristas no exterior em nome da exportação da revolução teocrática iraniana, assim como há bons motivos para criticar a ordem do presidente Donald Trump de autorizar o assassinato do general (pois, além do risco de desencadear uma guerra, foi um presente para os aiatolás, que ganharam um mártir para alavancar o nacionalismo iraniano).

Mas, do ponto de vista diplomático, não faz sentido o Brasil tomar partido nessa briga. O Irã é um importante parceiro comercial no Oriente Médio e não se encontrava, até agora, na mira de operações terroristas coordenadas por Teerã — ainda que existam em nosso território células do Hezbollah e de outros grupos xiitas que atuam na radicalização religiosa, na lavagem de dinheiro e nas conexões com o PCC para o tráfico de drogas internacional.

Essas células podem ser acionadas se o alinhamento automático da diplomacia bolsonarista com os Estados Unidos tragar o Brasil para um conflito com o Irã.

Como já revelou o caso da Venezuela, os militares brasileiros têm exercido um poder de moderação quando se trata de passar das palavras para as armas.

Uma das primeiras medidas de Ernesto Araújo, como chanceler de Bolsonaro, foi suspender a cooperação militar entre Brasil e Venezuela, sem antes consultar as Forças Armadas. Mas foi graças à pressão dos generais brasileiros na linha de frente do governo Bolsonaro que o Brasil afastou desde o início a hipótese de se engajar em operações militares para derrubar o ditador Nicolás Maduro ou mesmo de ceder o território brasileiro para servir de plataforma para isso, como queriam alguns assessores de Trump.

Como demonstra esta reportagem de Luciana Amaral, na atual crise entre Irã e Estados Unidos a moderação dos militares tem sido suplantada pela posição irracionalmente americanófila e agressiva do olavismo que impera na cúpula do Itamaraty.

Existe o risco de que, no caso de uma guerra entre Estados Unidos e Irã, a lealdade de Bolsonaro a Trump seja colocada à prova e o Brasil sofra pressão para se engajar do lado americano. Se ceder, seria a primeira vez desde a II Guerra Mundial que o Brasil deixaria de lado a postura de solução de conflitos por meios pacíficos para se engajar diretamente em um conflito. Desde então, as participações militares brasileiras no exterior se restringiram a operações de paz.

Os militares brasileiros, cuja cúpula se posiciona pelo uso da força apenas para a defesa territorial, e não para lutar por interesses alheios em países distantes, certamente seria contrária a isso.

A esperança de moderação e de neutralidade também pode ser encontrada no setor do agronegócio, que tem muito a perder com um rompimento com o Irã, país com o qual o Brasil tem um superávit comercial de mais de 2 bilhões de dólares. O Irã é o maior comprador de milho e um dos maiores importadores de carne e soja do Brasil.

Quando foi chamada pela chancelaria iraniana a dar explicações sobre a nota de apoio ao ataque americano, Maria Cristina Lopes, a encarregada de negócios em Teerã, justificou que o texto não representava um posicionamento contra o Irã. A tentativa é válida, mas a explicação não cola — assim como não cola o argumento de que a reação de parte da esquerda brasileira ao ataque, classificando-o como um ato vil de imperialismo, não é um apoio aos aiatolás do Irã.

Em diplomacia, as palavras devem ser medidas com cuidado. Muitas vezes, por mais que se tenha razão sobre um tema, é preferível ficar calado do que provocar uma reação que custará muito para reverter.

Qual é o interesse brasileiro em assumir um lado no conflito? Essa é a pergunta que deveria nortear um posicionamento sobre o assunto. É de se esperar que a caserna e o agronegócio sejam capazes de conter o ímpeto ideológico da diplomacia bolsonarista e coloque o problema em termos práticos.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.