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Wajngarten seria reprovado por compliance de qualquer empresa séria

Diogo Schelp

04/02/2020 16h15

Fábio Wajngarten

Fábio Wajngarten, secretário de Comunicação do governo (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Jair Bolsonaro prometeu aplicar no governo federal a lógica da meritocracia existente na iniciativa privada. "Mérito" sai com tanta facilidade da boca dos integrantes dessa administração que tem sido usado até para nortear uma possível reformulação do Bolsa Família. Os recursos passariam a ser distribuídos por critérios "meritocráticos".

Meritocracia, porém, não se resume a valer-se de parâmetros subjetivos para promover alguém a determinado cargo com base em sua capacidade de desempenhar a função — como fez Bolsonaro na escolha de boa parte dos seus ministros ou na malfadada tentativa de emplacar um filho como embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Nas empresas sérias, o mérito é avaliado a partir de métricas e desempenho. Mais do que isso, a meritocracia tem que andar junto com o compliance, ou seja, com a obediência a um conjunto de regras de conduta ética e transparência.

Em outras palavras, não existe meritocracia em um ambiente corporativo em que interesses pessoais podem influenciar as ações de um funcionário dentro da empresa, muitas vezes prejudicando-a.

O caso de Fábio Wajngarten, secretário de Comunicação de Bolsonaro, jamais resistiria ao escrutínio do setor de compliance de uma empresa séria. De nada adianta Bolsonaro ver mérito no currículo de Wajngarten se a agência do publicitário tem contratos privados com grupos empresariais que podem se beneficiar diretamente com a alocação de verbas públicas definida pelo próprio Wajngarten.

Imagine, por exemplo, um executivo responsável por aprovar a compra de móveis de uma empresa que é, ao mesmo tempo, sócio de uma fábrica de cadeiras de escritório.

O conflito de interesses é evidente. No caso das cadeiras e no caso de Wajngarten o hipotético departamento de compliance diria a mesma coisa: "esse funcionário não pode exercer essa função". O conflito de interesses anula o mérito.

Para se convencer disso não é preciso sequer provar se houve ou não favorecimento. Se houve, é caso de polícia. De fato, a PF abriu inquérito para investigar Wajngarten por supostas práticas de corrupção passiva, peculato e advocacia administrativa.

Considera-se que o primeiro Estado digno do nome surgiu no ano 221 a.C., na China, com o abandono da prática de preencher cargos no exército e na administração com base em laços pessoais. A meritocracia pioneira ainda que rudimentar da dinastia Qin consistia em afastar os interesses pessoais dos negócios de governo.

O contrário disso, que é o que se vê no Brasil e está sendo perpetuado pelo atual governo, é o patrimonialismo, que sobrepõe interesses privados ao interesse público. Não há dúvida de que é isso que se verifica na Secretaria de Comunicação Social da Presidência.

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp