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Bolsonaro dá ouvidos a Tereza Cristina: deveria dar ainda mais

Diogo Schelp

12/02/2020 11h51

Tereza Cristina

Tereza Cristina, ministra da Agricultura (Foto: Ueslei Marcelino)

O agronegócio está casado com o governo Bolsonaro, mas não é um matrimônio harmonioso. Uma parte dos empresários do setor, em especial aquela que é mais impactada pelas políticas de exportação, está insatisfeita, porque entende que a diplomacia bolsonarista mais atrapalha do que ajuda. O que salva, em momentos cruciais, é a atuação da ministra da Agricultura, Tereza Cristina.

Este blog consultou representantes de entidades de defesa dos interesses agropecuários sobre a atuação da ministra. A percepção deles é que Tereza Cristina tem sido capaz de demover o presidente Jair Bolsonaro de adotar medidas concretas capazes de prejudicar o comércio agrícola, ainda que, por vezes, seja surpreendida por declarações que tornam seu trabalho mais difícil.

Exemplos de episódios em que Bolsonaro deu ouvidos a Tereza Cristina e amenizou discursos letais para os negócios agrícolas são as referências negativas à China (que começaram durante a campanha presidencial e desapareceram apenas no primeiro semestre de 2019), o recuo parcial no apoio ao ataque americano que matou um general do Irã (um importante importador de produtos agrícolas brasileiros) e a suspensão dos planos  de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém (o que prejudicaria o comércio com os países árabes, que são contra a medida).

Tereza Cristina também teve que apagar incêndios durante a crise das queimadas da Amazônia e da troca de farpas entre Bolsonaro e líderes europeus quanto à política ambiental de seu governo. Sem alarde, atuando nos bastidores, a ministra encontrou-se com autoridades europeias e atuou para minimizar os danos à imagem do país.

Na questão da embaixada em Israel, porém, a ministra terá de recorrer novamente ao ouvido de Bolsonaro, que recentemente declarou ainda ter a intenção de fazer a transferência para Jerusalém.

Na entrevista que concedeu ao UOL e à Folha de S.Paulo, esta semana, Tereza Cristina expôs com bastante franqueza seu papel de voz da razão do governo. Ao ser perguntada sobre a questão da embaixada em Israel e sobre o impacto disso nas exportações agrícolas, ela disse:

"A agricultura brasileira realmente tem um comércio aberto com o mundo todo, independente de ser do bloco árabe, do mercado comum europeu, Estados Unidos, Ásia… Ela vende para todos os países. E é claro que essa parte da diplomacia, da geopolítica, isso às vezes tem algum impacto comercial. Mas a gente vem conversando com esses países. E o presidente, desde que ele foi candidato, as pessoas sabiam o alinhamento dele. O que eu tenho que fazer, como ministra da Agricultura, é tentar minimizar esses problemas que às vezes ocorrem. Mas o presidente é muito sensível, ele tem um diálogo muito aberto e franco com todos os seus ministros."

É de se esperar que o presidente escute os conselhos de Tereza Cristina com mais frequência, inclusive antes de fazer declarações que possam prejudicar as exportações agrícolas do Brasil.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp