PUBLICIDADE
Topo

Wajngarten e Guedes mostram como a aversão a críticas prejudica o governo

Diogo Schelp

13/02/2020 14h48

Paulo Guedes e Fabio Wajngarten

Paulo Guedes e Fabio Wajngarten (Fotos: Diego Vara/Reuters e André Coelho/Folhapress)

O presidente Jair Bolsonaro guia-se por um princípio: o de que só ele e o seu governo conhecem a Verdade, assim mesmo, com V maiúsculo. Bolsonaro disse que os brasileiros finalmente vieram ao encontro da Verdade quando o elegeram. E recorreu a essa noção em diversos momentos ao longo de seu primeiro ano de mandato.

Em seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, em setembro, recorreu à Bíblia para rechaçar as críticas internacionais à sua gestão: "Nas questões do clima, da democracia, dos direitos humanos, da igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres, e em tantas outras, tudo o que precisamos é isto: contemplar a verdade, seguindo João 8,32: 'E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará'."

No mês passado, ao ter seu estilo de governar exposto no livro "Tormenta" (Companhia das Letras), de Thais Oyama, o presidente disse que "a imprensa tem medo da verdade".

A Verdade que Bolsonaro afirma conhecer é absoluta, não permite contraditório. O seu entorno absorveu essa convicção, essa postura, e isso se reflete em atitudes que agora se provam danosas ao próprio governo.

O descontrole verbal de Paulo Guedes, ministro da Economia, é um exemplo disso. Depois de chamar os servidores públicos de parasitas (uma generalização que teve como efeito esfriar ainda mais as possibilidades de colocar a reforma administrativa em pauta no Congresso neste momento), Guedes agora lamenta o fato de que, quando o dólar estava barato, até empregada doméstica ia à Disneylândia. "Peraí", disse o ministro. Para um governo que busca uma marca social para apresentar em ano eleitoral, foi um tremendo tiro no pé.

Não é a primeira vez que Guedes comete uma gafe e depois faz pouco caso das críticas, dizendo que a frase foi tirada de consenso ou simplesmente que o que ele disse não foi o que ele disse. Lembram-se quando ele afirmou que uma reedição do AI-5 (Ato Institucional n° 5, de 1968) seria uma resposta legítima a eventuais manifestações contra o governo? Foi a mesma coisa.

A reincidência mostra que o ministro não se sente contido por críticas ou por manchetes negativas. Quem acha que tem razão não tem freios, não tem comedimento.

Algo semelhante ocorre com Fabio Wajngarten, chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo, que é mantido no cargo por Bolsonaro apesar do claro conflito de interesses existente no fato de ele ser dono de uma agência que presta serviços a grupos empresariais que podem se beneficiar (diretamente) com a alocação de verbas públicas definida pelo próprio Wajngarten. 

Para "sanar" o problema, o secretário propôs passar a agência para o nome da mulherSophie Wajngarten. Trata-se, evidentemente, de uma não solução. O conflito de interesses continuaria existindo.

O que faz Wajngarten apresentar uma proposta dessas é a convicção de que ele está certo e todos estão errados. Enquanto tiver o apoio do presidente, ele faz parte do grupo dos detentores da Verdade: nenhuma crítica os atinge.

O ódio à imprensa que emana do Palácio do Planalto e adjacências — expresso de maneira nauseante esta semana pela campanha de difamação capitaneada pelo filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, contra a jornalista Patricia Campos Mello, da Folha de S.Paulo — também se explica pela aspiração do governo a um monopólio da Verdade.

O papel da imprensa não é apenas elogiar, como quer o presidente; é ser o cão de guarda da democracia, apontando falhas, desvios, inconsistências, problemas a serem solucionados. É colher os fatos e retratar a realidade. A própria imprensa é passível de erro e sabe disso: razão pela qual dispõe de mecanismos para corrigi-los. O retrato nunca será perfeito e abrangente, mas é isso que se busca.

Por isso, por mais que Jair Bolsonaro não se canse de citar João 8,32, os profissionais de imprensa agem como se ele não fosse o dono da Verdade. Como não é, mesmo, cria-se o impasse.

Siga-me no Twitter (@DiogoSchelp) e no Facebook (@ds.diogoschelp)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.