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As patrulhas de esquerda e de direita estão matando o Carnaval

Diogo Schelp

17/02/2020 15h52

Alessandra Negrini

A atriz Alessandra Negrini fantasiada com adornos indígenas (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

Sou obrigado a confessar que gosto de Carnaval. A alegria anárquica, o abandono do senso de ridículo, a multidão se espremendo para chegar mais perto do trio elétrico e se esgoelando para cantar aquelas músicas que todos conhecem. Esse conhecimento comum é uma das colas que unem os brasileiros e que fazem de nós um povo. O estereótipo do país do futebol e do Carnaval pode ser muito irritante, mas é inescapável.

Não sou fanático por futebol, mas sei que ele faz parte da minha identidade como brasileiro. Com o Carnaval é a mesma coisa: é uma festa identitária, mesmo para quem não gosta da folia. E quem gosta consegue perceber que ali, no asfalto do sambódromo e das ruas, aflora um pertencimento coletivo, algo que nos une como integrantes de uma nacionalidade, apesar das divisões sociais, apesar das diferenças entre gerações, apesar das discordâncias políticas.

Ou, pelo menos, assim era. A esquerda rabugenta e a direita puritana estão conseguindo polarizar até o Carnaval.

Agora, foliões são "cancelados" porque violam códigos não escritos e contraditórios sobre a correção política das fantasias. Agora, suas manifestações de alegria recebem olhares — e tuítes — de reprovação porque se excedem na sensualidade ou porque são pagãs demais.

Fui pular o pré-Carnaval de rua com minha namorada, em São Paulo, neste fim de semana. Antes de comprar a fantasia, gastamos alguns minutos pensando qual opção nos pouparia de incomodação, ou seja, de acusações de apropriação cultural, de gênero, etc. Fantasia de palhaço, talvez? Ou até isso pode ser interpretado como uma apropriação indevida da estética dessa profissão tão digna? Melhor não arriscar.

Concluí que a fantasia mais neutra possível era a de super-herói. Algo do universo Marvel ou DC. Ninguém se ofenderia, todos entenderiam. Minha namorada foi, então, de Mulher-Maravilha e eu de um indefinido mascarado com capa. A caminho do bloco, passamos por um grupo de jovens foliões. O rapaz criticou a escolha, em voz alta: "Deviam valorizar a brasilidade."

Então é isso. Super-herói também não pode porque não valoriza a brasilidade. É imperialismo cultural. Mas o que sobra de brasilidade que não ofende as minorias? Fantasia de Carmen Miranda? Fantasia de jaboticaba?

(Uma das amigas do jovem patrulheiro estava de collant, saia de tule e meia arrastão, o que pode ser definido como fantasia de "banhista sexy" ou algo assim; milhares estavam vestidas com a mesmíssima roupa nos blocos.)

Cômico e orgiástico

Mais tarde fui ver que parte da esquerda rabugenta se contorce em argumentos para decidir se a atriz Alessandra Negrini, que se vestiu de índia, deveria ou não ser "cancelada" por apropriação cultural. No caso dela, a patrulha parece ter se conformado com o fato de que os adornos não compunham uma fantasia, mas uma performance de protesto a favor da causa indígena. Além disso, ela teve o aval de alguns indígenas. Parece-me duvidoso. Teria de haver uma votação com representantes de diferentes povos autóctones para ter certeza que a autorização é válida.

E nem todo mundo tem um jornalista a tiracolo para poder explicar a proposta política de uma roupa. Quem vai conceder alvará de fantasia, para exibir a foliões politicamente corretos e assim evitar agressões verbais?

As contradições do patrulhamento ideológico de fantasias não passaram despercebidas pela milícia digital conservadora. Mas, ao criticar a hipocrisia do extremo oposto, os puritanos do Twitter saíram-se com frases como estas para criticar o Carnaval de rua em São Paulo: "orgia coletiva", "bebedeira e pegação exageradas" e "sexualidade pura". Um dos indignados reclamou que certas fantasias que retratam minorias estão vetadas, mas aquelas que fazem referências ao cristianismo, como freiras e Jesus Cristo, não.

Mas o que é o Carnaval se não uma comemoração pagã por definição, atrelada a datas católicas? Já se vão 1.700 anos desde que a Igreja se deu conta da inutilidade de proibir ou controlar totalmente as festas profanas, preferindo adaptá-las e confiná-las no calendário.

Desde o início da Idade Média, os festejos carnavalescos caracterizavam-se por ritos cômicos e orgiásticos. Estamos em 2020 e o que se vê é um extremo ideológico se unindo ao outro extremo ideológico para censurar o cômico (fantasias, blasfêmia) e o orgiástico (sensualidade) dos festejos. Juntos, estão matando o Carnaval.

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp