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Vejo Moro no STF, não como vice de Bolsonaro, diz articulador do Aliança

Diogo Schelp

21/02/2020 04h01

Belmonte

Luis Felipe Belmonte, número três do partido que está sendo criado pelo presidente Jair Bolsonaro (Foto: André Coelho/Folhapress)

Luís Felipe Belmonte, o advogado multimilionário que se consolidou como principal articulador para a criação do Aliança para o Brasil, o novo partido que abrigará Jair Bolsonaro e seu grupo político, está realizando dois grandes sonhos. Um deles era entrar para a política.

Suplente do senador Izalci Lucas (PSDB-DF), ele deu um passo ainda maior rumo ao seu objetivo ao se aproximar de Bolsonaro e se tornar, no final de 2019, segundo vice-presidente do Aliança. Como terceiro na hierarquia da legenda, atrás do próprio presidente e de seu filho e senador Flávio Bolsonaro, que é o primeiro VP, Belmonte é quem está colocando a agremiação de pé.

O outro sonho, já em estágio avançado de realização, remete à sua juventude e consiste em uma invejável coleção de guitarras. "Eu tenho muitas guitarras", diz Belmonte. "Agora mesmo comprei, em um leilão, a Gibson que David Gilmour (ex-Pink Floyd) usou para gravar o seu último disco." Ele também guarda instrumentos que pertenceram a Brian May (Queen), John Lennon e George Harrison (The Beatles, claro), entre outros. Mas a guitarra preferida é uma Fender lançada em 2002, edição de aniversário: só foram produzidas seis unidades.

"Eu tenho um estúdio em casa que é muito bom, é um refúgio. Quando a pressão é grande, vou para lá e fico algumas horas. Dá uma suavizada", contou Belmonte, antes de conceder a seguinte entrevista a este blog:

Ao entrar para a política, a pressão aumenta, não é?

Nunca tive uma atividade política eleitoral ou partidária. Nós ficamos um bom período fora do Brasil (ele e a mulher, a deputada federal Paula Belmonte, do Cidadania-DF) e quando voltamos foi com o propósito de contribuir com alguma coisas. Está sendo um mundo novo. Algumas coisas eu já sabia que existiam, mas outras têm sido um pouco surpreendentes. Às vezes, dependendo da posição que tomamos, acabamos incomodando muita gente. Parece que é da natureza humana.

O senhor percebe, no episódio desta quarta-feira (19) envolvendo o senador licenciado Cid Gomes, um sinal do aumento da violência política no país?

Aquilo foi uma questão pessoal. É uma característica dos Gomes: um pouquinho de truculência. Eu cansei de ver Ciro Gomes falar em paz, mas aí vem com ataques e agressões, inclusive à imprensa. Eu até me admiro, porque Ciro Gomes fala da imprensa de maneira absolutamente grosseira. Bolsonaro talvez tenha dito 3% disso e fala-se 500% de Bolsonaro.

Sobre o episódio no Ceará: aquilo foi depredação de patrimônio público e tentativa de homicídio. O cara pegar um trator e partir para cima das pessoas, inclusive mulheres e até crianças que estavam lá. Isso é crime. Antes do tiro, teve um crime. Isso se chama exercício arbitrário das próprias razões.

Para que existe o Estado? Isso se aprende na história do Direito. Antigamente, tinha-se a vingança privada, o olho por olho, dente por dente. Se você fizer comigo vou fazer com você. O Estado entrou para assumir a função de harmonizador daquele processo. Cabe ao Estado dizer quem tem a razão e o que vai caber a cada um.

Ora, por mais que Cid Gomes seja um senador, ele não está imbuído de autoridade para enfiar um trator em cima de pessoas, por mais erradas que elas estejam. Se elas estão lá amotinadas e fazem uma greve ilegal, existem canais legais para resolver isso. E o canal legal, com toda a certeza, não é pegar um trator e passar por cima das pessoas. Isso é tentativa de homicídio, tecnicamente falando. Foi um ato insano, impensado e à margem da lei.

Por mais que Cid Gomes seja um senador, ele não está imbuído de autoridade para enfiar um trator em cima de pessoas"

Não foi uma atitude de recrudescimento da questão política e, sim, um ato específico de alguém que se sentiu disposto a exercer um ato de bravura, quando na verdade praticou um delito penal. Não creio que tenha sido um ato de recrudescer esse litígio político, não. Foi uma coisa pessoal, característica dos Gomes. É o que a família tem feito mais de uma vez. 

Nos últimos dias, em vez de tentar se distanciar do miliciano Adriano da Nóbrega, que foi morto pela polícia da Bahia, Jair Bolsonaro e seu filho Flávio Bolsonaro (respectivamente presidente e primeiro vice-presidente do partido Aliança para o Brasil) entraram na polêmica da morte do capitão, sugerindo que ele pode ter sido executado e falando até em queima de arquivo. De que forma essa defesa do PM morto vai ajudar os Bolsonaro a provar que não têm ligação com as milícias? 

A minha visão pessoal, não como pessoa do partido, mas como cidadão é que a família Bolsonaro sempre esteve ligada à área de segurança e do Exército. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, era da Polícia Federal. Então é normal que eles tivessem contato com pessoas da área de segurança e da polícia.

Em 2005, Adriano não tinha essa característica que tem hoje. Ele tinha uma característica de ser uma pessoa que trabalhava pela sociedade. Você não pode buscar uma história do passado, quando a pessoa tinha uma conduta correta, e relacioná-la com eventuais desvios que ela veio a cometer posteriormente. Essa associação é injusta. "Ah, ele esteve lá em 2005 então é amigo (de Jair e Flávio Bolsonaro) em 2020, estão juntos." Isso não existe, necessariamente.

Muita gente votou em Lula em 2002 confiante que estava conseguindo resolver o problema do país. Já em 2020, estamos sabendo que ele foi responsável por uma das maiores rapinas que já existiu neste país. Se a gente soubesse disso hoje, será que o povo teria eleito Lula em 2002?

Quanto ao que ocorreu na Bahia, prefiro aguardar os resultados de investigações antes de me pronunciar, de dizer se foi isso ou aquilo. Hoje existem argumentos para achar tanta coisa. Considero prematuro dizer se foi queima de arquivo ou foi outra coisa. Por questão de prudência, independente de haver ligação ou não.

O simples fato de achar que foi queima de arquivo ou execução por si só não atrela Bolsonaro e família à milícia. Flávio levantou a hipótese em cima de uma reportagem da Veja que fala que teria havido tiro de curta distância.

Mas por que eles entraram no assunto dessa forma? A preocupação em defender uma versão do que aconteceu no caso do Adriano não passa justamente a impressão contrária, de que há, sim, envolvimento da família com a milícia?

Eu acho que é o contrário. A imprensa é que busca a todo custo colar a família do presidente nas milícias. Quem busca é a imprensa: toda hora aparece história de miliciano. Muitos desses que são hoje milicianos e têm atitudes contrárias à ordem legal eram agentes da lei em tempos passados. Enquanto agentes da lei, é natural que tivessem contato (com os Bolsonaro). Na medida em que passam para o outro lado, e ficam à margem da lei, aí é outra história.

Muitos desses que são hoje milicianos e têm atitudes contrárias à ordem legal eram agentes da lei em tempos passados"

Uma coisa é você defender agentes de segurança. Outra é o que esses agentes venham a fazer posteriormente. Eu não vejo essa ligação da família Bolsonaro com pessoas que praticam delitos hoje, ainda que possam ter existido alguns encontros no passado. Lembre-se de Marighella, de Lamarca e outros que eram militares e de repente passaram a ser terroristas… fazer o quê? 

Como está o processo de verificação das assinaturas pela Justiça Eleitoral para a criação da Aliança para o Brasil e qual a perspectiva de que o partido esteja de pé para a disputa municipal deste ano?

Já estamos com um número maior do que 600 mil assinaturas. A nossa parte está sendo feita em tempo recorde. Como dizia aquele cidadão (o ex-presidente Lula), nunca antes na história desse país isso foi feito tão rapidamente. Começamos no início de dezembro, tivemos ainda um período de férias em que o pessoal viaja, e ainda assim estamos aí com menos de 60 dias com tudo realizado, da nossa parte.

Acontece que temos que fazer o lançamento no sistema da Justiça Eleitoral, mas estamos enfrentando dificuldades porque ele cai com muita frequência. Fica indisponível, e nessa velocidade que a gente está conseguindo trabalhar não é possível dar uma previsão de quando vamos conseguir cadastrar todas as fichas.

Para se ter uma ideia, a certa altura é preciso informar no sistema se o apoiador é analfabeto, mas só havia a opção "sim" como resposta. Se você colocar "sim", tem que colocar a digital. Como ninguém era analfabeto, não tinha opção "não" e era impossível prosseguir com o cadastramento. 

Qual é o plano B caso não seja possível completar esse processo antes do prazo?

Não estamos preocupados com isso, porque nós não estamos preparando um partido para as próximas eleições, estamos plantando uma ideia e princípios. Estamos preparando um partido para as próximas gerações. Se ficar pronto para a próxima eleição, será de uma maneira, se não, vamos preparar para a próxima.

O que fazer com o partido pronto, isso é uma decisão política do presidente do partido, que coincide com o presidente da República. O que o presidente não quer e nem ia fazer, mesmo com o partido pronto, é permitir o que ocorreu com o PSL. Entraram muitos candidatos na onda Bolsonaro, e depois de eleitos vieram as traições e negativas.

Vou lhe dar alguns exemplos emblemáticos. João Doria (governador de São Paulo) estava disputando com Márcio França, até com vantagem, colou no Bolsonaro, criou o "Bolsodória", tirou 500 fotos como Bolsodória, ganhou a eleição e depois negou que isso tivesse acontecido. É de uma incoerência, de uma inverdade absurda. Já Wilson Witzel era desconhecido no Rio de Janeiro e se elegeu em cima de Flávio Bolsonaro. Depois começou com atitudes não agradáveis, para usarmos um termo singelo.

O presidente não quer esse tipo de coisa. Deputados que, eleitos, vão lá e o atacam, mostrando um tipo de caráter que não é o que se quer dentro do partido. O presidente quer pessoas confiáveis. Ainda que o partido esteja pronto agora em março, não haverá tempo hábil para que ele possa ver quem entra, quem não entra.

Há uma disputa grande nos municípios e existem três ou quatro candidatos, atualmente parlamentares, que querem vir. Acho que realmente seria um pouco até açodado e prematuro pensar em candidaturas do Aliança para a próxima eleição municipal. É preciso ter um certo filtro. O presidente disse que não quer quantidade, ele quer qualidade.

Isso exclui a possibilidade de o Aliança ter candidatos a prefeitos se conseguir se validar a tempo na Justiça Eleitoral?

Não, mas caso isso aconteça acho que serão poucas candidaturas. Só em casos estratégicos. 

Algum exemplo?

Isso eu prefiro deixar para o presidente do partido se pronunciar, é uma decisão pessoal dele. Existem algumas candidaturas que o presidente pretende apoiar, em alguns municípios, independente de estar no Aliança ou não. Não há nenhum impedimento de o presidente dar o apoio que ele acha necessário, mesmo que a outros partidos. Até porque são cargos majoritários e talvez em algumas posições estratégicas haja esse interesse do presidente.

O rompimento com o PSL representou um racha no grupo político que ajudou Bolsonaro a se eleger e que, claro, também se elegeu graças a ele. De que forma esse racha vai dividir os votos que iriam naturalmente para o partido que vocês estão criando? 

Existe muita conversa a respeito de algumas atitudes do presidente. Percebo que há uma amplificação muito grande de qualquer coisa inconveniente que ele fala e uma diminuição da comunicação dos veios favoráveis que há neste governo. Às vezes ele fala alguma coisa e seria possível até considerar que seria melhor que não falasse, mas não tem o condão de provocar um estardalhaço quase universal.

Há uma amplificação muito grande de qualquer coisa inconveniente que ele (Bolsonaro) fala"

Até pouco tempo atrás havia um presidente que falava coisas muito piores e era considerado "espirituoso" ou com "bom humor". Quando é o Bolsonaro, é um arraso.

Sobram notícias boas nesse governo. Na questão de segurança pública, por exemplo. Agora tivemos o anúncio do maior lucro da Petrobras nos últimos anos… Isso começa a chegar nas pontas, tanto que há, a cada dia, uma melhora na aprovação do governo, como mostra inclusive uma pesquisa recente que fizeram.

E há uma tendência de crescimento, o que vai fazer com que, provavelmente em agosto e setembro, a manter-se esse ritmo, o presidente Bolsonaro será um eleitor muito forte, com muito peso no apoio que ele vai poder dar. Ele teria muito mais força ao apoiar candidatos do que eventualmente algum deputado dissidente.

Por isso, não creio que vai ocorrer uma divisão dos votos. O presidente Bolsonaro personifica uma ideia. E essa ideia tem muita força em muitos setores, independente das divisões que tenham havia no processo.

O senhor aposta em Sergio Moro para vice de Bolsonaro em 2022 ou vê alternativa melhor?

Eu teria que fazer um exercício de futurologia, que não é o meu forte. Mas é claro que a gente tem uma visibilidade mínima do processo político. O ministro Moro fez um trabalho marcante, apesar das críticas que é normal que sejam feitas.

Estive em Jerusalém esses dias. E passei muito tempo conversando com os guias judeus, pois eu não queria a história religiosa, eu queria a história política. Jesus Cristo incomodava um pouco, porque era muito popular. Mas realmente começou a ser seguido e preso quando expulsou os vendilhões do templo para combater a corrupção. Porque os vendilhões estavam lá pela corrupção do sinédrio. Ao combater a corrupção, nem Jesus Cristo escapou, que dirá Moro.

Apesar desses ataques ou incômodos, a verdade é que ele prestou e presta um grande serviço à nação. Mas eu vejo o ministro Moro com um perfil muito ligado à função judicante. Eu apostaria mais na ida dele para o Supremo Tribunal Federal. Acho que seria um bom quadro.

Ao combater a corrupção, nem Jesus Cristo escapou, que dirá Moro"

Já temos alguns bons quadros no Supremo, mas podemos qualificá-lo melhor, e Moro iria contribuir muito. Até porque há, hoje, muito investimento externo vindo para o Brasil, por causa da confiança do governo. O governo defende a liberdade do mercado, com sua característica capitalista, e isso atrai recursos. Mas existe ainda uma instabilidade jurídica e o Supremo é fundamental para isso, com contribuição muito grande para o desenvolvimento do país.

Não creio que isso vá acontecer, mas hoje as pesquisas indicam que apenas Moro seria um concorrente do presidente. Não me parece que isso esteja no radar dele, não. Não é a impressão que me passa.

Se não for Moro, seria possível imaginar ou já se discute na cúpula do Aliança uma chapa puro-sangue, com um dos filhos do presidente como vice?

Acho muito pouco provável. Não se fala nada, mas acho que o vice não seria um dos filhos dele, não. Seria mais o caso de agregar-se com outra pessoa, com outro grupo. Pois eles já estão com ele, lá.

Por que a hipótese de Hamilton Mourão continuar como vice é tão pouco aventada?

Não sei. Eu pessoalmente gosto muito do general Mourão. Aliás, fomos colegas no Colégio Militar no Rio de Janeiro. Tenho muito admiração pelo trabalho dele, um homem muito sério, muito preparado. Mas isso é uma questão do presidente, não saberia dizer.

Como o senhor descreveria o perfil e a visão de mundo do filiado ideal da Aliança para o Brasil?

Os três princípios que nós defendemos são os valores cristãos, a defesa da família e o compromisso com a pátria. Esses são os pilares básicos. Quando se fala em valores cristãos, há um aspecto muito amplo. Eu defendo até que um valor cristão importante é o de ter uma visão do próximo com compreensão. Isso não quer dizer que você vai ter que ficar sendo atacado e ficar quieto.

Por isso o nome Aliança: para que as pessoas busquem aliança, comprometimento. Sobre o perfil das pessoas que virão para o partido vejo um espectro muito grande. Algumas são um pouco extremadas, no sentido de fazerem um defesa muito intensa de uma causa. São quase cruzados — se estivessem nos tempos das cruzadas poderiam ser integrantes — mas isso tudo por dedicação a uma causa. Eles acreditam muito naquela causa e naturalmente combatem quem tem posições diferentes das suas.

Algumas (pessoas que farão parte do Aliança) são um pouco extremadas, no sentido de fazerem um defesa muito intensa de uma causa"

O que se pretende é uma aliança com a nação. Pessoas que busquem o progresso e o desenvolvimento. Reunir as pessoas de bem, que procuram ter uma vida limpa.

Mas também não estou dizendo que alguém que seja atacado ou acusado não tenha uma vida limpa. Vamos pegar o exemplo do Lula. Ele foi condenado em primeira instância, em segunda instância e em terceira instância. No entanto, as pessoas defendem a presunção de inocência. Tudo bem, querem esperar o trânsito em julgado. Agora, quando é do outro lado, a pessoa ainda não foi nem acusada e já estão dizendo que é culpada. O tratamento é meio desigual, não acha?

É preciso ter uma certa proporcionalidade. É como o presidente fala: honestidade não é virtude, é obrigação. Estamos colhendo pessoas que tenham a vida limpa, que acreditam nos valores judaico-cristãos, que façam a defesa da família como célula mater principal de coesão de uma sociedade, que defendam a pátria, a nossa nação, e que tenham o Brasil no coração. Que realmente lutem por um Brasil melhor. 

O senhor não falou em economia. É possível dizer que a linha de Paulo Guedes para a economia está arraigada no programa do Aliança para o Brasil?

Nós defendemos a economia liberal e a meritocracia. São pontos importantes no partido. É um partido que se diz conservador nos costumes e liberal na economia. E com a defesa forte da meritocracia. Essa questão de igualdade de todos, isso não existe. Nós defendemos, sim, a igualdade de oportunidades. Quanto mais possamos universalizar as oportunidades, melhor. É o que as pessoas mais buscam, a oportunidade. E a partir daí cada um desenvolve por seus próprios méritos a sua ascensão pessoal. 

A eleição de Bolsonaro ocorreu em grande parte como uma reação aos 14 anos de governo do PT. Ou seja, o grupo político de Bolsonaro foi beneficiado pela polarização política. O partido Aliança para o Brasil já nasce querendo incentivar essa polarização para se beneficiar eleitoralmente?

Não. O presidente, mais do que defender lados, ele defende princípios. O princípio da honestidade, os princípios dos valores cristãos, da família. São princípios, não dependem de lado. Isso não significa procurar extremar posições ou polarizações.

Haverá, claro, sempre uma polarização contra os valores contrários. O roubo, querer fazer uma igualdade que não existe. Eu estive na Rússia e conheci a experiência soviética lá. E o que acontecia era o seguinte: se um indivíduo tinha 20 vacas, outro tinha 10, outro tinha 6 e outro não tinha nenhuma, o governo desapropriava todas, criava uma cooperativa e todos eram donos das 36 vacas. O cara que tinha 20 vacas não ia mais trabalhar para ter mais do que isso, não era dele mais, e o cara que não tinha nenhuma, esse é que não ia fazer mais nada mesmo. Isso gerou um colapso total. Contra esse tipo de modelo, há uma polarização. Não é aceitável isso.

Qualquer coisa que pretenda destruir os valores da família e criar situações de desrespeito, vai criar uma polarização contra isso. Não é questão de moralismo. Têm coisas que são imorais, absurdas, e ainda recebem o nome de arte e não pode falar nada. Contra esse tipo de coisa vai haver uma polarização. A polarização existirá contra aquilo que consideramos absolutamente inadequado.

A polarização existirá contra aquilo que consideramos absolutamente inadequado"

Ser honesto é um princípio. Moralidade pública é um princípio. Se o cara é da esquerda ou da direita, ele deve observar isso como princípio. Não há nenhum incentivo a nenhuma polarização, a não ser contra aquelas agendas, por exemplo, defendidas pelo Foro de São Paulo, pelo decálogo de Lênin e uma série coisas que nós consideramos perversas e inadequadas para um povo e para o desenvolvimento de uma nação. A polarização que existe é contra esse tipo de atitude. O Aliança se pauta por princípios e busca fazer uma aliança das pessoas de bem dessa nação.

O grupo político ligado ao presidente Bolsonaro, no entanto, não faz ataques apenas a quem se identifica com Foro de São Paulo ou o comunismo soviético que o senhor mencionou. Também se tornaram alvos sociais-democratas, pessoas de posicionamento mais de centro e até quem apoiou o governo anterior, do Michel Temer, que nada tinha de comunista.

Social-democracia é um nome "gramscista" para o socialismo. Só para não dizer que é muito esquerda, colocam esse nome, pois Gramsci (Antonio Gramsci, 1891-1937, ideólogo italiano) ensinou a esquerda a ser sutil. Não parece que esteja muito fora do espectro, embora não seja extremado.

Com relação ao que se chama de centro, não há combate às pessoas que sejam desses partidos. Só há combate se houver inadequação de um agente público que não respeita o princípio da moralidade. Isso independe de lado.

Existem pessoas que estão na social-democracia, que estão no chamado centrão ou até na esquerda que são pessoas corretas, não há porque combatê-las. É possível combater a forma como cada um vê o Estado. Em todos os espectros políticos há pessoas corretas. A visão de mundo de como administrar é que pode divergir. Alguns acham que é preciso ter o Estado máximo, que vai cuidar do povo com assistencialismo, outros entendem que tem que ser mérito de cada um.

Existem acusações de fascismo contra pessoas que estariam à direita. O fascismo é a prevalência dos direitos do Estado sobre os direitos individuais. Quem prega o Estado máximo não é a direita. Estamos querendo desenvolver um Estado mínimo, com a economia liberal. Isso não é fascismo. Há uma mistura de conceitos. Acusa-se o outro, mente-se até virar verdade.

Dizer que o fascismo era de direita não significa que toda direita seja fascista. 

É claro. Assim como quem acha que é de esquerda não quer dizer que toda esquerda é fascista.

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp