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Trump e Merkel: como um estadista deve reagir ao coronavírus

Diogo Schelp

12/03/2020 11h22

Trump e Merkel

O presidente americano Donald Trump e chanceler alemã Angela Merkel (Fotos: Doug Mills/Reuters e Shan Yuqi/Xinhua)

O que esperar de um estadista quando uma nova doença se alastra rapidamente entre os cidadãos, quando o desastre econômico desponta no horizonte, quando os investidores nas bolsas de valores se deixam levar pelo pânico e quando pessoas e nações entram em isolamento? Uma comparação entre as atitudes do presidente americano Donald Trump e da chanceler alemã Angela Merkel traz a resposta a essa pergunta.

Comecemos por Trump. Durante semanas, suas falas e tuítes concentraram-se em dar a ideia de que tudo não passava de um grande exagero. Quando posou para fotos com cientistas de um centro de pesquisas de doenças contagiosas, vangloriou-se de saber tudo sobre o assunto, fazendo pouco caso do conhecimento científico. Em outra ocasião, ele questionou o dado da Organização Mundial de Saúde (OMS), segundo o qual a taxa de letalidade do novo coronavírus é de 3,4%, supondo que na verdade é de menos de 1%.

Nesta quarta-feira (11), Trump deu sinais de que começou a compreender a gravidade da "tempestade perfeita" que se abateu sobre a saúde pública e os mercados ao anunciar medidas severas para conter o avanço da doença. A essa altura, porém, mais de 1300 americanos já haviam sido contaminados e 37 já haviam morrido, escolas tinham as aulas suspensas e até a liga de basquete NBA resolvera adiar os jogos da temporada.

Se ao menos a resposta do presidente tivesse ajudado a acalmar os ânimos. Não foi o que aconteceu. O anúncio de Trump foi confuso, inconsistente, e a Casa Branca teve que esclarecer e voltar atrás em alguns pontos.

Severo, mas confuso

A decisão mais dura de Trump foi a de suspender os voos da Europa (exceto Reino Unido) para os Estados Unidos pelos próximos 30 dias — ele culpou os governos europeus de terem falhado na contenção da epidemia.

Trump disse que transporte de bens também estava suspenso, mas depois foi ao Twitter para corrigir, dizendo que a medida afeta apenas voos comerciais, de passageiros, e que cidadãos americanos ou estrangeiros com visto de residência estavam autorizados a voar da Europa para os Estados Unidos. A imprensa americana revelou que a medida, sem precedentes na história, foi tomada por Trump sem consultar seus assessores mais próximos ou governos europeus.

Trump também disse que havia conversado com as empresas de planos de saúde e que elas concordaram em não cobrar coparticipação pelo tratamento do coronavírus. Na realidade, essa isenção valeria apenas para os testes da doença, a exemplo de medida semelhante tomada no Brasil.

O resultado de toda essa confusão foi que as bolsas de valores americanos abriram novamente em queda nesta quinta-feira (12), enquanto especialistas dizem que a restrição aos voos da Europa não fará grande diferença no combate à doença porque o vírus já está se espalhando dentro dos Estados Unidos.

Pior cenário

Também na quarta-feira (11), no mesmo dia em que Trump resolveu endurecer contra o coronavírus, a chanceler alemã Angela Merkel pronunciou-se sobre a pandemia e sobre seus impactos econômicos.

Em vez de minimizar os riscos de contágio, Merkel foi realista e recorreu a dados fornecidos por especialistas para convocar os alemães a se preparar para o pior cenário possível. Segundo ela, dois terços da população serão contaminados pelo coronavírus.

O objetivo, disse Merkel, é reduzir ao máximo a velocidade com que a doença se espalha. Quanto mais tempo demorar para o vírus atingir o teto de contaminação, maior a chance de as pessoas desenvolverem imunidade e de surgirem tratamentos adequados, além de evitar que o sistema de saúde fique sobrecarregado.

Merkel lembrou que o impacto da pandemia na economia é inevitável, já que a Alemanha é um país dependente de exportações. O governo alemão já havia avisado que vai injetar dinheiro público para conter o baque nos mercados.

Mais do que promessas, Merkel falou com transparência e firmeza, dando a real dimensão do problema e mostrando-se atenta para o que é preciso fazer para enfrentá-lo, sem apontar o dedo para culpados externos.

A bolsa de valores de Frankfurt também abriu em queda nesta quinta-feira (12), mas por causa da fala de Trump, não de Merkel. Os investidores no mercado de ações alemão (assim como os de Paris e Londres) ficaram justificadamente apavorados com os impactos que a restrição de viagem entre Europa e Estados Unidos provocará nos negócios intercontinentais.

Os exemplos de Trump e Merkel demonstram que a atitude serena de um estadista não consiste em fazer pouco caso de um problema, mas em reconhecer a preocupação das pessoas, em demonstrar firmeza na disposição de buscar uma solução e em comunicar com clareza o que se pretende fazer.

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

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