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Cientista que previu pandemia em série do Netflix contesta Bolsonaro

Diogo Schelp

27/03/2020 04h10

Pandemia

O cientista Dennis Carroll em gravação da série "Pandemia", do Netflix (Foto: Arquivo Pessoal/Dennis Carroll)

O americano Dennis Carroll é um caçador de vírus pandêmicos. Nos últimos 30 anos, supervisionou a divisão de doenças infecciosas da Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (USAID) e, há quinze anos, criou na mesma agência o Programa de Ameaças de Doenças Infecciosas, dedicado a descobrir as zoonoses com potencial para se tornar perigosas pandemias — como a do coronavírus que está fazendo o mundo parar. A verba para o programa foi cancelado pelo presidente americano Donald Trump no ano passado.

Carroll, criou, então, o Global Virome Project, uma parceria global para documentar vírus circulando entre animais selvagem que provavelmente vão infectar pessoas no futuro. "Ou seja, meu objetivo é encontrar os vírus antes que eles nos encontrem", diz Carroll.

O cientista é um dos protagonistas da série documental "Pandemia", que estreou em janeiro na plataforma de streaming Netflix. Ali, ele e outros cientistas preveem que uma pandemia devastadora estava prestes a acontecer. O timing não podia ser mais perfeito e Carroll agora é tratado como o Nostradamus do coronavírus.

Ele concedeu a seguinte entrevista a este blog por telefone de dentro do barco onde mora, em uma marina fluvial em Washington D.C., capital dos Estados Unidos:

O senhor alertou que uma pandemia como a que estamos enfrentando agora era iminente. Há, no entanto, algo nessa crise da Covid-19 que lhe surpreende por algum motivo?

De fato, para mim não há nada de surpreendente no fato de esse surto estar ocorrendo. O que me deixa alarmado é que esta pandemia ocorre em um momento da história em que as parcerias globais que antes existiam foram fragmentadas ou destruídas pela ascensão do nacionalismo, tanto no meu país como em outros ao redor do mundo. O que me surpreende nessa pandemia, portanto, é como o mundo está reagindo, não com cooperação entre as nações, mas um país de cada vez, esquecendo-se das parcerias que foram tão centrais em coordenar e enfrentar crises globais no passado.

O que me surpreende nessa pandemia é a falta de coordenação entre as nações"

Esse é o primeiro evento de alcance global em muitos anos, por exemplo, em que não houve uma discussão sobre como a comunidade internacional deve ajudar as pessoas nos países mais vulneráveis e que correm mais risco de sofrer as piores consequências. Durante a epidemia de ebola na África Ocidental, em 2014, e durante a pandemia de H1N1, em 2009, por exemplo, houve cooperação global para atender as necessidades das populações nas regiões mais vulneráveis. Agora o mundo está em silêncio. Isso é o que mais me surpreende.

Sobre o novo coronavírus em si, há alguma particularidade que merece ser destacada?

De um ponto de vista epidemiológico é surpreendente que crianças pequenas não sejam tão vulneráveis à doença – até agora. Mas a maneira como esse coronavírus se espalha e as consequências clínicas da infecção são previsíveis e condizentes com o comportamento esperado de vírus respiratórios. 

Quando o surto do novo coronavírus começou, o senhor previa que teria as consequências que vemos hoje?

Quando houve os primeiros relatos do surto na China, em dezembro e início de janeiro, era difícil prever a relevância que essa epidemia teria. Até agora, o seu impacto é maior do que eu imaginava no começo. Por outro lado, percebe-se que sua magnitude tem sido desigual ao redor do mundo em termos de letalidade.

No começo da epidemia na China, a taxa de letalidade (proporção de mortos pela doença em relação ao total de infectados) era relativamente alta, entre 3% a 5%. Mas com o passar do tempo caiu para menos de 1%. Na Itália, tivemos uma letalidade de 8%, nos Estados Unidos em torno de 2%-3%, mas na Alemanha, apenas 0,4%. A variação é muito grande.

Qual é a razão disso?

Parte da explicação pode estar no perfil das populações que estão sendo afetadas. A Itália tem uma das populações mais idosas da Europa. Quando tudo isso acabar e pudermos olhar para os dados em retrospecto, vai ser possível analisar também o impacto da doença entre os fumantes, que talvez estejam no grupo de maior risco. As diferenças de letalidade, portanto, podem ter um componente demográfico, mas também de estilo de vida, como o hábito de fumar.

Os alemães foram muito eficientes em fazer testes em larga escala"

A Alemanha é um caso interessante. Os alemães foram muito eficientes em fazer testes em larga escala para detecção precoce da doença e com isso conseguiram dar uma resposta muito mais rápida. Esse exemplo nos mostra o benefício de investir em diagnóstico para prevenir o impacto clínico da doença.

Os países, como Brasil, que só conseguem fazer testes em pacientes graves, portanto, terão uma capacidade de resposta menos eficiente para evitar a disseminação da doença…

Exatamente. Além disso, quando não há equipamentos suficientes para dar suporte de vida para quem estiver tendo problemas respiratórios, tem-se a receita para uma alta letalidade.

O coronavírus é pior que uma "gripezinha"? Por quê?

Sim. Contra a gripe sazonal, as pessoas têm, em maior ou menor grau, uma imunidade natural. Todos os anos aparece um influenza, o vírus da gripe, que é uma variação de um influenza anterior que já conhecemos, pois está circulando entre a população por algum tempo. O H1N1 e o H3N2, por exemplo, são dois exemplos de vírus influenza da gripe sazonal que, com pequenas mutações, retornam a cada ano. A população já tem alguma proteção contra eles, porque já entrou em contato com esses vírus em temporadas anteriores.

O novo coronavírus, porém, nosso corpo não conhece. Nosso sistema imunológico é ingênuo, ele não tem nenhuma memória desse vírus. Por isso, quando somos infectados, nosso sistema imunológico não tem capacidade de reagir rapidamente, como ocorreria se se tratasse de um vírus com o qual já tivemos contato. Sem ter tido contato com um vírus, ainda que com cepas anteriores, não conseguimos ter uma resposta imunológica rápida e nos tornamos vítimas. A questão passa a ser se seremos capazes de sobreviver.

Se esse vírus voltar no futuro, no ano seguinte, por exemplo, as pessoas que já foram infectadas antes podem ter uma memória imunológica dele, que pode ser ativada rapidamente.

Muitas pessoas, no entanto, aparentemente não apresentam nenhum sintoma da Covid-19. Qual pode ser a razão para isso, já que a doença é causada por um vírus novo?

A questão sobre se há ou não pessoas assintomáticas que carregam o vírus continua sendo controversa. O que sabemos é que todo mundo que é infectado em algum momento começa a demonstrar sintomas. A descoberta alarmante, porém, é que um indivíduo infectado tem a habilidade de compartilhar o vírus, contaminando outras pessoas, vários dias antes de ele próprio começar a apresentar sintomas.

Todo mundo que é infectado pelo coronavírus em algum momento começa a demonstrar sintomas"

Então, pode ser que hoje eu esteja infectado, apesar de me sentir bem, e tenho vírus suficientes no meu corpo para começar a infectar outras pessoas. Daqui a três dias, vou começar a sentir esses sintomas. Fica muito difícil saber quando estou contaminando outras pessoas ou não.

Esse vírus tem potencial para ser tão mortal quanto a gripe espanhola, que dizimou entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas um século atrás?

Não acredito que este vírus em particular possa causar o número de mortes que a gripe espanhola de 1918-1919 provocou. Por duas razões. Primeiro, porque nós temos muito mais conhecimento sobre os vírus atualmente do que há 100 anos. Nós sabemos como nos proteger contra os vírus, entendemos a importância de lavar as mãos e de manter distância social. Se tomarmos esses cuidados, podemos reduzir drasticamente a transmissão desse vírus. Lembre-se: os vírus não se espalham, nós é que espalhamos o vírus. E por sermos nós que espalhamos o vírus, temos a oportunidade de frear sua transmissão ao adotar esses cuidados. Em 1918, não havia essa compreensão.

Os vírus não se espalham, nós é que espalhamos os vírus"

Segundo, porque metade das mortes associadas à pandemia de 1918 e 1919 deram-se por infecções bacterianas secundárias. O vírus certamente teve um grande papel em boa parte das mortes, mas hoje sabemos que ele enfraquecia o sistema imunológico das pessoas de tal forma que elas se tornavam vulneráveis a infecções bacterianas, e estas mataram tantas pessoas quanto o vírus em si. Hoje em dia temos antibióticos, algo que não havia 100 anos atrás. Essa combinação dupla de infecção viral e infecção de bactérias oportunistas secundárias foi o que levou à alta mortalidade pela pandemia de 1918 e 1919.

Haverá diferença na maneira como a atual pandemia vai afetar países emergentes e países ricos?

Com certeza. Estou muito preocupado com os países cujos sistemas de saúde são mais frágeis. Em 2014, fiz parte da equipe dos Estados Unidos que atuou na epidemia do vírus ebola na África Ocidental. Um dos impactos mais dramáticos do ebola foi o colapso do sistema de saúde.

Na epidemia do ebola, as pessoas paravam de recorrer a hospitais e clínicas, com medo de serem contaminadas"

O colapso do sistema de saúde sob estresse do ebola levou a muito mais mortes por doenças e síndromes que eram tratáveis e passíveis de prevenção do que o próprio vírus. Os profissionais de saúde ficavam doentes e as pessoas paravam de recorrer a hospitais e clínicas, com medo de serem contaminadas pelo ebola.

Minha preocupação é que ocorra uma grande disseminação do vírus do Covid-19 em países onde o sistema de saúde é frágil ou em populações deslocadas, como aquelas que vivem em campos de refugiados no Iêmen ou ao longo das fronteiras com a Síria. Se esse vírus começar a se espalhar de maneira incontrolável por essas regiões, temo que provoque uma mortalidade muito maior do que estamos vendo nos países mais desenvolvidos.

Por que isso não aconteceu ainda? 

O vírus segue as pessoas. O que nós sabemos é que os grandes fluxos de pessoas saindo da China têm como destino aos Estados Unidos e à Europa. Por isso, não é nenhuma surpresa que os primeiros países em que vimos a introdução desse vírus fora da Ásia foram os da Europa e da América do Norte. É possível também que haja menos testes diagnósticos disponíveis na África, por exemplo, e que há uma quantidade desconhecida de vírus circulando nos países da região. Isso ainda é uma incógnita. É algo que precisamos acompanhar.

É uma questão de tempo até que ocorra um aumento do dano causado por essa doença na África e na América Latina"

A disseminação do vírus é desigual ao redor do globo, ela ocorre em diferentes ritmos e velocidade quando passa de uma região para outra. Mas é apenas uma questão de tempo até que a gente veja um aumento significativo do dano causado por essa doença tanto a África quanto em grande parte da América Latina.

Esta semana, em pronunciamento na TV, o presidente Jair Bolsonaro disse que, como nosso país é mais quente e mais jovem do que a Itália, o impacto do coronavírus não será tão dramático por aqui. Ele está certo em pensar assim?

Sobre ser mais quente, não sabemos ainda se há uma sazonalidade potencial associada ao coronavírus. Esse é um dos grandes mistérios que precisamos revelar. Por exemplo, não temos certeza se, conforme fica mais quente aqui na América do Norte, o vírus vai começar a desaparecer apenas por causa da estação do ano.

O que sabemos é que os influenzas têm essa sazonalidade. Então o que se faz é olhar para o padrão de sazonalidade do influenza no Brasil e em outras regiões abaixo da linha do Equador e questionar se, talvez, isso pode ser um bom indicador de como esse novo vírus vai circular. Mas não existe uma resposta para isso, por enquanto.

A segunda parte da observação, sobre o perfil etário da população, é preciso lembrar que o Brasil é um país muito populoso. Se entre 10% e 20% da população tem mais de 60 anos, o tamanho do país indica que há milhões de pessoas vulneráveis a esse vírus. Isso, em si, já é preocupante.

Bolsonaro também disse que, por esses motivos, fechar a economia não faz sentido. Ele está certo? 

A decisão deve ser baseada em evidências. É preciso se certificar de que o Brasil não cometa o erro que os Estados Unidos cometeram: o de não ter uma quantidade suficiente de kits para testes de coronavírus. Com os testes, é possível saber onde o vírus está e em que quantidade. Com base nesse tipo de informação será possível entender a magnitude e a gravidade da epidemia. Não se deve fazer especulações.

O Brasil não pode repetir o erro dos Estados Unidos de não ter kits suficientes de testes para coronavírus"

Decisões como essa não deveriam ser uma questão de posicionamento político. É uma situação em que os cientistas e a comunidade médica precisam ter a capacidade de identificar o começo da epidemia e seguir o movimento do vírus no Brasil. A partir daí, é preciso ter uma boa capacidade diagnóstica para entender se ele está se espalhando ou não e o que é preciso fazer parar essa disseminação.

Bolsonaro também disse que a melhor opção seria fazer um isolamento vertical, ou seja, exigir apenas dos idosos e de cidadãos que pertencem a grupos de risco que fiquem em casa. Isso seria suficiente como medida preventiva?

Mais uma vez, é preciso seguir as evidências. Nos Estados Unidos, 20% dos pacientes com coronavírus que estão precisando de cuidados intensivos têm entre 20 e 40 anos. Ao contrário do que vimos na China, estamos vendo aqui que pessoas jovens, saudáveis, não são tão invencíveis a esse vírus. Elas também podem ter uma alta vulnerabilidade. O Brasil precisa ser muito cuidadoso e monitorar e entender quais são os grupos populacionais afetados, porque a epidemiologia é muito diferente na Europa, nos Estados Unidos e na China.

O senhor acredita que a imprensa está tornando a pandemia pior, espalhando pânico desnecessário?

A imprensa formal está fazendo o que pode para obter a melhor informação. Tem também a imprensa informal, que se vale das redes sociais e se empenha em espalhar desinformação. Esse é o desafio. Garantir que as informações corretas, os fatos, cheguem às pessoas. Há líderes políticos, e isso inclui o presidente americano, que dá pouco valor aos fatos. Ele está constantemente dizendo certas coisas, só porque têm efeito político, mas que não são necessariamente verdade.

É muito perigoso, quando se está no meio de uma pandemia, espalhar desinformação"

É muito perigoso, quando se está no meio de uma pandemia, espalhar desinformação que vai confundir ou exacerbar a condição. Qual é o papel da imprensa quando um governante faz uma afirmação falsa? A imprensa tem a responsabilidade de providenciar um esclarecimento e ter certeza de que as pessoas entendam que o que foi dito não é correto e fornecer a informação correta. Eu acho que a mídia formal está tentando fazer isso.

Como e quando essa pandemia vai acabar?

Se eu tivesse a resposta para isso, eu faria a minha fortuna na bolsa de valores de Nova York. Eu não tenho ideia. Mas se há algo que aprendi com a epidemia de ebola foi que, enquanto os país afetados não se uniam para enfrentá-lo, o vírus esteve fora de controle, espalhando-se facilmente entre a população. Em agosto e em setembro de 2014, muita gente nos três países afetados não acreditava no perigo do vírus. Elas não acreditavam que as ações que estavam sendo propostas teriam algum efeito.

Por causa dessa desunião e dessa descrença, o vírus se disseminou facilmente. Em outubro e novembro daquele ano, criou-se um consenso crescente entre as comunidades afetadas de que o vírus era perigoso e que havia ações que os países tinham que tomar para proteger a si mesmos. Só então a espinha dorsal da epidemia foi quebrada.

É exatamente o que precisa acontecer diante da Covid-19. Temos muitas pessoas nos Estados Unidos que são indiferentes a esse vírus e outras que se empenham nas medidas de distanciamento social e higiene pessoal. Mas, enquanto uma parcela significativa da população seguir ignorando as ações que precisam ser adotadas, o vírus vai continuar se disseminando.

Os brasileiros podem controlar o vírus, mas precisam agir em conjunto: um país, uma voz, uma ação"

Só quando todos na sociedade estiverem agindo de acordo com as práticas de lavar as mãos e de promover o distanciamento social é que vamos derrotar o vírus. Como eu disse, o vírus não se espalha, as pessoas espalham o vírus. E, enquanto as pessoas não pararem de espalhar o vírus pela maneira como elas agem, ele vai continuar circulando entre a população. É possível controlá-lo, os brasileiros podem controlá-lo, mas precisam agir em conjunto: um país, uma voz, uma ação.

É possível que a Covid-19 se torne uma doença sazonal?

Não sabemos se isso vai acontecer ou não. O que sabemos é que este é o sétimo coronavírus de que temos conhecimento que infecta pessoas. Cinco deles são sazonais. Há quatro coronavírus que são associados com a gripe comum, e há o Mers, o vírus da Síndrome Respiratória do Oriente Médio, que circula sempre no final da primavera e início do verão na Península Arábica. O Sars foi erradicado.

Se o novo coronavírus se comportar de maneira semelhante ao Mers ou aos outros quatro vírus relacionados ao frio, então há um grande risco de que se junte aos influenzas e volte todo ano na mesma época do ano. Isso seria um motivo de grande preocupação. Pode ser que não volte, mas não saberemos isso enquanto não tivermos a oportunidade de ver o que acontecerá em novembro, dezembro e janeiro no hemisfério norte.

O que poderia ter sido feito no começo do surto desse coronavírus para evitar que se tornasse uma pandemia?

Quando esse vírus começou a se disseminar entre as pessoas em Wuhan, na China, já era um vírus que tinha as características biológicas, isto é, a habilidade de circular entre as pessoas, de ser transmitido de ser humano para ser humano, com grande eficiência. E é difícil imaginar que assim que emergiu da vida selvagem e contaminou as pessoas poderíamos ter sido bem sucedidos em conter e isolar esse vírus melhor do que se conseguiu fazer na China.

Poderíamos perguntar, porém, se há algo que poderia ter sido feito antes do vírus se tornar um transmissor eficiente entre pessoas? O que sabemos é que esse vírus, antes de dezembro do ano passado, estava circulando entre morcegos na China. E sabemos que existem dez, senão centenas de milhares de outros vírus potencialmente pandêmicos circulando na fauna selvagem na Ásia, na África e no Continente Americano.

Existem dez, senão centenas de milhares de outros vírus pandêmicos circulando entre os animais selvagens"

O que é possível fazer para prevenir qualquer vírus desses de se tornar uma pandemia é, primeiramente, entender onde eles estão circulando na natureza antes de se tornarem infecciosos em pessoas. E ser capaz de monitorar e impedir que contaminem seres humanos. O que precisamos fazer é não apenas monitorar a introdução de um novo vírus entre populações humanas e tentar conter sua disseminação, mas observar a circulação de vírus perigosos na natureza e usar esse conhecimento para impedir futuras contaminações para pessoas. Esse tipo de ação, sim, seria capaz de evitar um pandemia.

O que lideranças globais deveriam fazer a respeito?

Podemos nos unir para desenvolver um sistema global de vigilância para monitorar o que está acontecendo na natureza. Nós temos trabalhado com colegas da China e do Brasil, da Fiocruz, para criar um projeto global chamado Global Virome Project, que envolveria todos os países para documentar juntos tudo o que sabemos sobre os vírus circulando entre os animais selvagens e entender quais deles têm potencial para se tornar epidemias ou pandemias e usar esse conhecimento para prevenir futuros surtos entre as populações humanas. O que os líderes mundiais podem fazer é apoiar essa ideia.

Quantos vírus precisariam ser identificados e monitorados?

O que sabemos com base no trabalho que fizemos ao longo dos últimos 10 anos, em 30 países, incluindo o Brasil, é que há cerca de 1,5 milhão de vírus de diferentes tipos circulando entre animais selvagens. Desse total, estimamos que 600.000 têm o potencial de infectar os seres humanos. É um número muito grande, mas que pode ser identificado e caracterizado com a tecnologia disponível. O Global Virome Project procuraria entender melhor quais desses 600.000 vírus têm o potencial não apenas de infectar mas de causar doenças graves nos seres humanos. Nem todas as infecções resultam em doenças.

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Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp