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Trump aprendeu que o vírus não respeita diferenças políticas. E Bolsonaro?

Diogo Schelp

31/03/2020 17h04

Policial Nova York

Policial faz patrulha usando máscara cirúrgica em Nova York, no dia 30 de março. Cerca de 800 policiais da cidade americana estão afastados com Covid-19 (Foto: Andrew Kelly/Reuters)

O presidente Jair Bolsonaro, na contramão do que pensam os principais integrantes do seu próprio governo, aposta na hipótese de que o Brasil não será (ou não está sendo, a depender do grau de subnotificação) tão afetado pela pandemia do novo coronavírus quanto outros países.

Essa postura tem quatro efeitos diversos em sua popularidade. O primeiro, e mais evidente, é que radicaliza o repúdio de quem já não apoiava o presidente. O segundo é que fortalece o respaldo de seus apoiadores mais fieis. O terceiro efeito é o de fazer com que uma parte das pessoas que mantinham seu voto de confiança em seu governo agora optem pelo rompimento, por entenderem a seriedade da Covid-19. Há, porém, um quarto efeito: o de atrair, para o núcleo duro do bolsonarismo, brasileiros que apoiavam disfarçadamente o presidente, mas que compartilham de tal forma de seu ceticismo em relação à pandemia que agora se juntam a ele abertamente. Resumindo em um número: a avaliação ótima/boa do governo Bolsonaro até caiu, mas não fica abaixo dos 30%.

Ou seja, entre perdas e ganhos, o piso de sua popularidade se mantém.

Em algum momento nas próximas semanas, porém, a depender do ritmo de alastramento do coronavírus no país, os bolsonaristas que minimizam o perigo da doença vão descobrir que o vírus não respeita linhas ideológicas. Ele infecta todos por igual. Exatamente como aconteceu nos Estados Unidos.

Uma pesquisa ABC/Ipsos feita entre os cidadãos americanos e divulgada na semana passada mostra que apenas 12% dos democratas não estão preocupados com a Covid-19, enquanto 37% dos republicanos pensam o mesmo. Um detalhe importante é que, entre os republicanos, o ceticismo era bem maior há duas semanas, quando 47% diziam não estar preocupados com a doença.

Ou seja, com o aumento exponencial no número de casos de infectados e de mortos pela doença, boa parte dos americanos que se identificam com o partido do presidente Donald Trump passaram a reconsiderar suas percepções a respeito da Covid-19. Afinal, o vírus não contamina apenas quem acredita nele.

Simultaneamente, ao longo das últimas duas semanas, a posição de Trump também mudou. Se antes ele minimizava a ameaça da pandemia, nos últimos dias ele passou a defender medidas mais duras para contê-la, estendendo a recomendação de quarentena até 30 de abril.

A mudança de postura de Trump teve um reflexo imediato na sua popularidade, que chegou ao seu ponto máximo na última sexta-feira (27): 47%, na média das principais pesquisas de opinião. A aprovação de sua maneira de lidar com a pandemia aumentar ao mesmo tempo em que aumentou a aprovação geral de seu governo.

Ou seja, só quando a epidemia começou a produzir imagens de caos nos hospitais e estatísticas alarmantes, com 1.500 mortes só na cidade de Nova York, é que a turrice ideológica começou a dar lugar à sensatez e à consciência de uma ameaça comum.

Bolsonaro aposta na hipótese, sem comprovação científica, de que o calor vai evitar que se repita no Brasil o que está acontecendo nos Estados Unidos. Quem está com ele confia no palpite alheio. A que custo?

O dramaturgo Nelson Rodrigues, em frase que ele atribuiu a Otto Lara Resende, escreveu que "o mineiro só é solidário no câncer". A solidariedade entre os brasileiros só vai superar as diferenças ideológicas quando ficar claro que o vírus não as respeita. Ou seja, quando for tarde demais.

 

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

Diogo Schelp