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Diogo Schelp

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Trump, go home

Diogo Schelp

15/07/2019 11h32

A deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, de origem porto-riquenha (Foto: Mandel Ngan/AFP)

Convidados que dão palpite em como administramos nossa casa são irritantes. Mas um país não é uma casa. A incapacidade de compreender esse fato básico é o que une os ataques xenófobos do presidente Donald Trump contra congressistas democratas, os pedidos de expulsão do jornalista americano Glenn Greenwald do Brasil e a tentativa do então presidente Lula de banir do país o correspondente do New York Times Larry Rohter, em 2004.

Neste domingo (14), Trump tuitou: "É tão interessante ver congressistas democratas 'progressistas', que vieram de países cujos governos são uma completa e total catástrofe; os piores, mais corruptos e inaptos do mundo (isso se tiverem um verdadeiro governo)". E, em seguida: "Agora elas querem dizer para o povo dos Estados Unidos, a melhor e mais poderosa nação da Terra, como o novo governo deve atuar. Por que elas não voltam e ajudam a arrumar os lugares completamente quebrados e infestados de crime de onde elas vieram? Depois voltem e nos mostrem como devemos fazer." E, por fim: "Esses lugares precisam de sua ajuda urgente, vocês devem partir imediatamente. Estou certo de que Nancy Pelosi [presidente da Câmara dos Representantes] ficaria muito feliz em organizar essas viagens gratuitas!"

Os ataques de Trump foram dirigidos às deputadas Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, Ilhan Omar, do Minnesota, Rashida Tlaib, de Michigan, e Ayanna S. Pressley, de Massachusetts. Mas apenas Ilhan Omar nasceu no exterior, mais precisamente na Somália. E a família de Alexandria é de Porto Rico, uma colônia americana no Caribe. "Voltar" para Porto Rico, portanto, não é exatamente voltar para outro país. A referência implícita a Pressley é ainda mais ultrajante: ela é descendente de escravos africanos nos Estados Unidos.

Os tuítes de Trump deixam claro que ele vê cidadãos não brancos como convidados, ou melhor, intrusos em seu país. É a definição perfeita de xenofobia, que resvala no racismo.

O mesmo tipo de xenofobia, ironicamente, pode ser verificado nos pedidos de expulsão do jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept, por causa da publicação das mensagens vazadas atribuídas a Sergio Moro, ex-juiz federal e atual ministro da Justiça, e a procuradores da Operação Lava Jato. Greenwald assumiu um protagonismo no caso que bons jornalistas costumam evitar, arriscando-se a determinar, em depoimentos na Câmara dos Deputados e no Senado, como as autoridades e a Justiça brasileira deveriam lidar com Moro e os procuradores. Greenwald disse que, se fosse nos Estados Unidos, Moro seria afastado do cargo e proibido até de advogar. Ao usar os Estados Unidos como referência a ser imitada, Greenwald (que em outras situações costuma ser um crítico do que costuma chamar de "estado profundo" americano, marcado por conluios nos bastidores das instituições, inclusive judiciárias) mexeu ainda mais com os brios patrióticos de certos bolsonaristas.

A xenofobia de uma parcela dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro costuma estar associada a uma desconfiança em relação a estrangeiros vindos de países pobres ou muçulmanos — exatamente como ocorre com Trump. No caso de Greenwald, ela emergiu como a velha e batida solução contra notícias ruins: culpar e atacar o mensageiro.

Foi justamente isso que levou o ex-presidente Lula a promover um dos momentos mais autoritários e patéticos de seu governo: a tentativa de expulsar o então correspondente do New York Times no Brasil, em 2004. Larry Rohter havia escrito uma reportagem contando do gosto do presidente por uma birita.

Os casos de Greenwald e de Rohter se assemelham. A diferença é que o presidente Jair Bolsonaro, que em 2017 foi chamado de fascista por Greenwald e respondeu com um comentário homofóbico, não entrou na campanha de banimento.

Estrangeiros, go home. Jornalistas, go home. Quanta ironia no universo da xenofobia.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.