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Diogo Schelp

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Navios fantasmas de petróleo são operados por Rússia, China e Venezuela

Diogo Schelp

16/10/2019 04h03

Petróleo

O petroleiro Nedas, que transporta petróleo da Venezuela para Cuba e mudou o nome para Esperanza com o objetivo de escapar das sanções americanas (Imagem: Reprodução/MarineTraffic)

Uma das hipóteses para o surgimento das manchas de petróleo, provavelmente de origem venezuelana, que estão poluindo o litoral nordestino é a de que vazaram ou foram lançadas ao mar de navios fantasmas, ou seja, de embarcações que tiveram seus sistemas de rastreamento desligados para que suas rotas não fossem descobertas. A malandragem é muito usada por comandantes dos navios usados para transportar petróleo venezuelano, que está sob sanção dos Estados Unidos.

Mas quem opera os navios fantasmas? Sobre isso, há algumas certezas e ao menos uma suspeita.

Antes, é preciso dar a dimensão do desespero do governo venezuelano em vender seu petróleo. Não se trata apenas da necessidade de ver o dinheiro entrando no caixa do regime de Nicolás Maduro — afinal, o petróleo representava 95% das receitas com exportação da Venezuela antes das sanções impostas pelo presidente americano Donald Trump a partir do início deste ano.

O problema é, também, logístico. Com as sanções e a queda nas exportações, a PDVSA, a estatal de petróleo venezuelana, não tem mais onde estocar o óleo cru. Na última contagem, a empresa tinha 39 milhões de barris encalhados em seus tanques. Em comparação, os Estados Unidos têm, atualmente, aproximadamente 3 milhões de barris estocados.

Por causa das sanções, a produção do país, que já estava em queda nos últimos anos por pura incompetência e falta de investimentos, desabou este ano para menos 700.000 barris diários (na virada do século, logo após Hugo Chávez, o falecido presidente venezuelano, assumir o poder, eram 3,3 milhões de barris diários).

Por questões técnicas, porém, a PDVSA não pode parar completamente as extrações enquanto aguarda a liberação de espaço de armazenagem. Fechar um poço pode significar nunca mais conseguir extrair nada dele.

Para reduzir os estoques, a Venezuela está tendo que entregar o petróleo para a Rússia em troca do pagamento de uma dívida bilionária. Este mês, por exemplo, a Rosneft, a estatal russa de petróleo, prepara-se para carregar 7,9 milhões de barris de óleo cru venezuelano.

Troca de óleos

Além de servir para abater do 1,1 bilhão de dólares que a Venezuela lhe deve (o montante no início do ano estava em 1,8 bilhão e, no atual ritmo, vai estar totalmente quitado já na metade do ano que vem), a Rússia fornece ao regime de Maduro produtos refinados como gasolina e diesel em troca de parte do petróleo cru.

Para não violar as sanções americanas, os produtos vindos da Rússia são transferidos para outros navios no Mar Mediterrâneo, perto de Malta, sem sequer aportar. Desde junho, foram identificadas mais de dez dessas transferências de produtos de navio para navio. As embarcações frequentemente seguem viagem para a Venezuela com o transponder desligado, para não serem rastreadas. Entre os produtos embarcados, está o nafta de que a PDVSA precisa para misturar ao seu petróleo pesado.

Por ser arriscado, os donos dos navios que transportam petróleo venezuelano cobram uma taxa extra de 3 dólares por barril no frete.

Malta

Rota percorrida por carga russa, com troca de navio nas proximidades de Malta e trechos em que o sistema de rastreamento permaneceu desligado. O destino era a Venezuela (Imagem: Reprodução)

Mas nem a Rússia consegue absorver todo o petróleo que recebe. Como resultado, a Rosneft passou a assumir o papel de caixeiro viajante do produto venezuelano. Como poucas empresas estrangeiras se arriscam a comprar diretamente o petróleo da Venezuela, temendo ser alvo das sanções americanas, a estatal russa está se encarregando de comprar, revender e até prospectar novos clientes.

O transporte é feito em navios que, muitas vezes, têm seus transponders desligados para que o seu destino (ou seja, o comprador final) não se torne público. Recentemente, dois navios petroleiros que haviam saído de portos venezuelanos e estavam a serviço da Rosneft foram flagrados tentando escapar do rastreamento. Um deles levou o petróleo para a Índia.

Negócio da China

A Rosneft também tem revendido o petróleo para outros países da Ásia, inclusive para a China — que, até o início do ano, era o segundo maior importador do cru venezuelano, atrás dos Estados Unidos. A Petrochina, estatal chinesa de petróleo, parou de comprar da PDVSA diretamente. Mas, em julho e agosto deste ano, a Rosneft entregou 280.000 toneladas de óleo a uma refinaria independente na China. Em agosto, forneceu outras 140.000 toneladas de petróleo venezuelano para uma empresa estatal chinesa.

Ironicamente, portanto, o maior beneficiado pelas sanções americanas ao petróleo venezuelano foi o presidente russo Vladimir Putin. E não apenas porque a Rússia se tornou, em questão de meses, a maior compradora e, por consequência, revendedora de petróleo venezuelano. Há uma segunda razão, ainda mais surpreendente: com a proibição de comprar petróleo da Venezuela, muitas empresas americanas estão tendo que buscar o produto em outro lugar. E o resultado é que a Rússia passou a ocupar o lugar da Venezuela como o oitavo maior exportador de petróleo cru para os Estados Unidos.

É isso mesmo: a Rússia não apenas lucra com a revenda de petróleo venezuelano para a Ásia, burlando as sanções americanas, como fatura também com o fim da concorrência venezuelana no mercado americano. As paredes do Kremlin devem estar reverberando as risadas de Putin.

Diante de tudo isso, o governo americano ameaça adotar medidas para enquadrar as atividades da Rosneft em suas sanções. Do jeito que está, a estatal russa alega que não há dinheiro envolvido em suas transações com a Venezuela, apenas trocas de produtos e abatimento de dívida.

Mais uma vez, Cuba

Como ficou demonstrado acima, a Rússia é um dos principais responsáveis por pegar os serviços de navios fantasmas — que procuram manter-se invisíveis para os satélites, ocultando suas rotas — para transportar petróleo venezuelano.

O outro é a própria Venezuela. A quantidade de petróleo entregue à Rússia não é suficiente para liberar espaço de armazenamento nas instalações da PDVSA. Com isso, Nicolás Maduro ordenou o envio de petróleo para Cuba. Em teoria, trata-se de um empréstimo, porque o regime comunista da ilha não tem como pagar. E, exatamente por isso, na prática, é uma doação. Os venezuelanos nunca verão a cor desse dinheiro.

O governo americano colocou sob embargo uma lista de navios que foram identificados fazendo o transporte de petróleo da Venezuela para Cuba. Ou seja, nenhuma empresa com negócios nos Estados Unidos pode contratar os serviços dessas embarcações.

Por isso, para evitar problemas, a ExxonMobil anunciou, na semana passada, que deixaria de contratar 250 navios petroleiros que no passado transportaram petróleo venezuelano. O resultado é que, em todo o mundo, o número de embarcações que não estão com o nome sujo tornou-se mais restrito, e o custo de transporte disparou. Segundo uma estimativa, o frete diário de um navio-tanque aumentou 373%.

Para tentar burlar a lista negra, os petroleiros estão fazendo o percurso Venezuela-Cuba com o transponder desligado e, se não bastasse, estão trocando de nome. Assim, o Ocean Elegance passou a se chamar Oceano, o S-Trotter agora é Tropic Sea e o Nedas atende por Esperanza.

Ou seja, além de fantasmas, o navios que levam petróleo da Venezuela para Cuba têm crise de identidade.

O terceiro suspeito

No mês passado, o governo americano anunciou uma nova lista de operadoras de petroleiros embargadas por violar sanções — desta vez, as que estão em vigor contra o Irã. Uma das afetadas foi a Cosco Dalian, uma empresa chinesa que possui quase cinco dezenas de navios-tanques.

Nas últimas semanas, nada menos que um terço das embarcações da Cosco desligaram seus transponders, tornando-se invisíveis para os sistemas de localização — e incorporando-se, dessa forma, à frota fantasma. Suspeita-se que continuem em atividade, transportando petróleo de países sob sanções americanas, como o Irã e a Venezuela.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.

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