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Turismo na Arábia Saudita: vale a pena?

Diogo Schelp

05/11/2019 04h03

Turismo Riade

Forte Masmak no fim da tarde de Riade: turismo incipiente (Foto: Diogo Schelp/UOL)

De Riade*

Durante sua visita à Arábia Saudita na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro assinou para facilitar o fluxo turístico entre os dois países. Em 2018, o Brasil recebeu apenas 856 visitantes sauditas.

Já a Arábia Saudita só começou a emitir vistos de turismo para todo o mundo há dois meses, sendo que para 49 países (entre os quais o Brasil não estava incluído) eles podem até ser emitidos online. Antes, só era possível visitar o país a convite de empresas ou de agências governamentais locais.

Nos primeiros dez dias depois de se abrir para o turismo, a Arábia Saudita emitiu 23.715 vistos de visitante, dos quais 31% foram solicitados por chineses, 26% para britânicos e 9% para americanos. O país também autorizou pela primeira vez a visita de mulheres estrangeiras com mais de 25 anos.

Turismo

Estante com bules de café à venda em mercado típico: Riade, ao contrário de Dubai, guarda autenticidade local (Foto: Diogo Schelp/UOL)

A abertura para o turismo faz parte da estratégia do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman de diversificar a economia saudita, hoje quase inteiramente dependente do petróleo. Em 2018, o turismo (praticamente restrito ao gasto pessoal de homens e mulheres de negócios em visita ao país) representou apenas 3,4% do PIB nacional. No Brasil, que segundo Bolsonaro disse na Arábia Saudita, tem "vocação" para turismo, não se sai muito melhor: a atividade contribui com 8% do PIB anual.

O recente acordo entre Brasil e Arábia Saudita prevê a "concessão de vistos de visita com múltiplas entradas, com prazo de validade de até 5 (cinco) anos, para um período autorizado de estada de até 90 (noventa) dias", segundo nota divulgada pela Presidência da República.

Com a promessa de que os turistas brasileiros terão mais facilidade para visitar a Arábia Saudita, é necessário responder a pergunta: vale a pena conhecer o país?

Se você for do tipo desbravador (ou desbravadora) e estiver disposto (ou disposta) a viajar a um país que ainda está dando os primeiros passos para receber os turistas — o que pressupõe enfrentar algumas situações de choque cultural — a resposta é sim.

A infraestrutura turística está sendo construída em tempo recorde. Entre as novas atrações da capital Riade, por exemplo, está Diriyah, o povoado que deu origem à cidade e ao reino saudita e que fica em um lugar que é considerado patrimônio da humanidade pela Unesco.

Sobre as ruínas de Diriyah foi feita uma reconstituição arquitetônica do povoado, que ainda não está aberta para visitação. Este blogueiro, no entanto, teve a oportunidade de fazer uma visita guiada ao local. Antes de entrar no vilarejo reconstituído, o visitante assiste a uma projeção em seus muros externos que narra a origem e a história do local.

Tudo de forma bastante ufanista, claro, de forma a enaltecer a história e a família real sauditas. Até isso, no entanto, é interessante para entender a imagem que o governo autoritário do país que passar para o próprio povo e para o mundo. Equivale a visitar o Museu da Revolução em Havana, Cuba, só que com recursos tecnológicos de última geração.

Turismo Riade

Espetáculo noturno de luz e projeção de vídeo nos muros reconstruídos de Diriyah, na parte histórica de Riade, que ainda não está aberta para visitação (Foto: Diogo Schelp/UOL)

Como parte da estratégia para abrir o país para o turismo, o príncipe herdeiro adotou algumas medidas que isentam os estrangeiros dos costumes estritos a que são submetidos os sauditas.

As mulheres estrangeiras, por exemplo, não são mais obrigadas a usar a abaya, a vestimenta preta que cobre todo o corpo das sauditas e os hotéis estão autorizados a permitir que homens e mulheres de outros países que não sejam casados compartilhem o mesmo quarto.

Por serem recentes, no entanto, as medidas ainda não foram inteiramente absorvidas pelos sauditas. Mulheres que se aventuram a sair na rua com roupas ocidentais devem estar preparadas para enfrentar o assédio e o olhar desaprovador de alguns homens sauditas — mas não de todos, é justo reconhecer.

Natal Riade

Shopping center em Riade: cada vez mais, surgem decorações discretas de Natal, o que em outros temos seria considerado uma blasfêmia (Foto: Diogo Schelp/UOL)

O príncipe herdeiro também vem derrubando restrições a atividades de lazer antes consideradas incompatíveis com a fé muçulmana, como os cinemas e as apresentações musicais. Em janeiro deste ano, por exemplo, os restaurantes sauditas receberam autorização para entreter os clientes com música ao vivo.

Depois de décadas de proibição, não é tarefa fácil encontrar bons músicos para se apresentar nos estabelecimentos. Em um dos restaurantes visitados por este blogueiro, o pop árabe romântico era tocado e cantado em um volume ensurdecedor, como se fosse necessário compensar décadas e décadas de silêncio forçado. O tecladista, além disso, não passaria no teste nem da mais modesta churrascaria brasileira.

Nada disso, porém, parecia incomodar os clientes sauditas, que encheram a casa na noite de sexta-feira.

Turismo Riade

Cantor de pop árabe em restaurante de Riade: entretenimento liberado depois de décadas de proibição (Foto: Divulgação)

"Na qualidade de destino turístico em emergência, o reino da Arábia Saudita está animado em abrir suas portas para o mundo. Nós reconhecemos o valor do turismo não apenas como um motor para o crescimento econômico, mas também como uma ponte cultural que aumenta a consciência, a compreensão e o respeito", disse recentemente Ahmed Al-Khateeb, chefe do setor de turismo e patrimônio nacional do país.

Nos hotéis, no cinema, nas lojas e mesmo quando abordados na rua para dar alguma informação, os sauditas demonstram empenho em receber bem os visitantes. Para muitos, é difícil conciliar o medo de perder os hábitos conservadores com a hospitalidade, que é um traço forte da cultural local, e com a curiosidade que mesmo os sauditas mais tradicionais têm em relação ao modo de vida dos estrangeiros.

Turismo Riade

Visitante do museu do Forte Masmak: estrangeiros ainda são minoria entre os turistas (Foto: Diogo Schelp/UOL)

O saldo final do pretendido boom turístico na Arábia Saudita só pode ser positivo para a fechadíssima sociedade local. Os sauditas vão precisar se acostumar com hordas de turistas tirando foto de tudo e de todos (eles ainda são muito avessos a terem sua imagem registrada, talvez por viverem sob um regime ultravigilante) e terão de exercer a tolerância diante de casais estrangeiros que vão exibir, em público, uma relação de igualdade entre o homem e a mulher.

A Arábia Saudita nunca mais vai ser a mesma.

Turismo

Mulheres sauditas conversam em praça próxima ao local onde ocorrem as execuções públicas: turismo de contrastes (Foto: Diogo Schelp/UOL)

*O jornalista viajou a convite do governo da Arábia Saudita.

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.