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Estudantes iranianos recusam-se a pisar em bandeiras dos EUA e Israel

Diogo Schelp

13/01/2020 10h55

Protesto no Irã

Manifestante confronta policial em frente à Universidade Amirkabir, em Teerã, no dia 11 (Foto: Mona HOOBEHFEKR/ISNA/AFP)

Durante protesto contra o governo de seu país, que admitiu na sexta-feira (10) ter sido o responsável pela derrubada do Boeing 737 da Ukraine International Airlines que matou 176 pessoas no último 8, centenas de estudantes iranianos da Universidade Shahid Beheshti, em Teerã, recusaram-se a caminhar sobre as bandeiras dos Estados Unidos e de Israel que estão pintadas no chão de entrada na instituição.

O episódio, que foi registrado por estudantes em vídeos postados no Instagram, ocorreu no sábado (11). As bandeiras dos dois países foram pintadas anos atrás por ordem do governo iraniano para que sejam diariamente pisoteadas por quem quer entre ou saia da universidade, gesto considerado altamente ofensivo no Oriente Médio. A Universidade Shahid Beheshti é uma das melhores do país.

Enquanto marchavam e gritavam palavras de ordem contra o governo dos aiatolás, os estudantes contornavam as imagens das bandeiras, evitando pisar sobre elas, e vaiavam quem se recusava a fazer o mesmo.

Instagram

Estudantes evitam pisar sobre pintura da bandeira americana no sábado, 11 (Foto: Reprodução de vídeo/Instagram)

A simbologia deste ato de respeito por Israel e Estados Unidos não pode ser desprezada. Os estudantes reforçaram, assim, uma das principais mensagens das manifestações dos últimos dias: que os verdadeiros inimigos do povo iraniano são os seus próprios líderes, não os americanos. Esta frase foi repetida, com variações, em vários dos protestos violentamente reprimidos ao longo do fim de semana.

As manifestações começaram quando veio à tona que o governo sabia desde o primeiro dia que o voo PS752 da companhia ucraniana havia sido derrubado por um míssil antiaéreo operado pela Guarda Revolucionária — mas tratou de refutar o quanto pode a responsabilidade pelo ato.

O avião caiu pouco depois de decolar, em Teerã, quatro horas após o Irã atacar duas bases militares no Iraque, em retaliação ao assassinato do general iraniano Qassim Soleimani no último dia 2. O míssil que abateu o aeronave foi disparado de um sistema antiaéreo Tor-M1, de fabricação russa, que estava de prontidão para o caso de os Estados Unidos revidarem os ataques às bases, o que acabou não acontecendo.

Os governos do Canadá, que tinha muitos cidadãos entre os passageiros, e da Ucrânia exigem uma investigação profunda das circunstâncias da derrubada do avião e pagamento de indenização por parte do Irã.

Os aiatolás iranianos se veem agora em uma encruzilhada: continuar a prometida vingança contra o assassinato de Soleimani, fazendo novos ataques contra alvos americanos, ou concentrar-se na repressão aos protestos dentro do próprio país. Ou os dois. A primeira opção só terá efeito prático se os Estados Unidos caírem na tentação de retaliar com força, o que o presidente americano Donald Trump não parece disposto a fazer. Mas mesmo esta possibilidade é arriscada para o regime teocrático iraniano.

Trata-se de um momento delicado para o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã desde 1989. Um passo em falso pode levar à sua queda.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros “Correspondente de Guerra” (Editora Contexto, com André Liohn) e “No Teto do Mundo” (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Sobre o Blog

“O que mantém a humanidade viva?”, perguntava-se o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Essa é a pergunta que motiva esse blog a desembaraçar o noticiário internacional – e o nacional, também, quando for pertinente – e a lançar luz sobre fatos e conexões que não receberam a atenção devida. Esse é um blog que quer surpreender, escrito por alguém que gosta de ser surpreendido.